domingo, 21 de agosto de 2011

TdL em Mutirão 11

A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: REFLEXÃO TEOLÓGICA NECESSÁRIA



Hoje quando se olha para o passado recente de nossa história no Brasil e na América Latina, dentro e fora da Igreja, não é possível desconsiderar a forte presença da Teologia da Libertação (TdL). Ela floresceu no fértil terreno das lutas emancipatórias latino-americanas. No acirramento entre as duas formas de organização política, capitalista e comunista, a TdL edificou um pensamento compreensível às massa pobres do nosso continente, desde suas raízes culturais, religiosas e políticas. Não caminhou à parte da história, mas dentro dela e num contexto preciso: o dos empobrecidos latino-americanos. Desta realidade, seu discurso teológico será capaz de ser a um só tempo, intrinsecamente, social e religioso. Isto lhe conferiu, no bojo da modernidade crítica à religião, à fé, à experiência religiosa e, em muitos casos, rigorosamente anti-transcendente, ser um fato social e eclesial(1). Na dimensão social encarnou todas as forças de libertação de inspiração cristã, porém sendo muito mais um fato eclesial, despertando a consciência da Igreja para o objeto de sua reflexão, servindo, assim, a comunidade e a pastoral(2).



Os críticos da TdL, contudo, vendo nela mais o fato social do que o eclesial sempre olharam com reticências para a mesma. Até a identificaram-no com um momento histórico e ideológico, restringindo seu alcance a algumas décadas do século XX, com o fim de sua relevância e atuação com a queda do Muro de Berlim. Certamente, como todo pensamento e teologia desdobrada na história, a TdL é marcada pelos traços genéticos de sua origem. Todavia, sua originalidade e inspiração desborda o seu próprio tempo. Limitá-la aos fatos sociais de onde ela surge é não compreendê-la. Mais do que a análise crítica do capitalismo ou sua proximidade com o socialismo em função dos valores evangélicos, caracteriza a TdL o seu método(3), sua interpretação, a partir do empobrecidos. E mesmo aqui, se faz necessário dizer, o seu discurso de libertação não se confunde com a mera superação de problemas sociais crônicos(4). Talvez lembrando as palavras de Jesus, sem querer arrancá-las de seu contexto, sentido, de que "sempre tereis pobres convosco...” (Jo 12, 8), possamos entender que o cuidado com eles na correta ligação com o próprio Jesus, comporta dimensões maiores para o compromisso cristão, se este quer ser também libertado dos perigos de não perceber a pobreza que perpassa as várias facetas da humanidade, necessitada da abundância oferecida pela vida de Jesus (Jo 10, 10). Sim, pobres sempre teremos, e temos a necessidade de uma teologia capaz de oferecer sua crítica à desigualdade que gera pobreza em todos os níveis da vida humana.



Enquanto fato social e, sobretudo, eclesial, a TdL não termina sua vida nos recentes acontecimentos. A trilha aberta permanece. Se não se tem os mesmos entusiasmos de outrora, segue a perspectiva construída em plena validade. Apesar dos movimentos adversos, o jeito de fazer teologia na América Latina foi profundamente influenciado pelas coordenadas desta teologia. Sob o aspecto social a TdL, no âmbito prático e teórico explicita o ser da teologia enquanto pensar não desvinculado do mundo no qual se localiza, levando em consideração o problema da injustiça numa sociedade de explorados. Eclesialmente, torna-se uma teologia com o diferencial de se tornar mediação na interlocução dos fiéis com o mundo a partir da fé. Desta forma, os dados da revelação se tornam mensagem direta para a vida em sociedade, questionando as estruturas sociais e pessoais de pecado. Com isso, rompe com o aparente abismo existente entre o discurso da fé e a vida e torna-se crítica rigorosa a todo tipo de realidade contrária ao Reino de Deus, como instância norteadora do processo teológico, nunca esgotado pelo mesmo fazer teológico.



E como não é uma teologia que se possa considerar morta e nem tão pouco acabada em suas dimensões estruturais e temáticas, ligada à dinamicidade do próprio social, é que a TdL, a partir de seu profundo ponto de partida eclesial, mostra-se viva, auspiciosa, atenta não aos pruridos das novidades, mas aos problemas candentes dos últimos anos. Será nesse sentido, que Gustavo Gutiérrez, na introdução à décima quarta edição, do seu Teologia da Libertação, chamará atenção para a maturação da TdL. Segundo o autor, há uma ampliação do espaço reflexivo para esta teologia. Isso tudo leva à melhor percepção do essencial com a perca da relevância do que é acessório(5). Soma-se ao fato as contribuições vindas de outras confissões cristãs no âmbito da libertação, e ainda o esforço de uma TdL para além dos muros cristãos nas confissões de fé judaicas e mulçumanas(6). Nesta última situação, temos tanto o ecumenismo como o diálogo inter-religioso.



Observe-se, porém, que, aberta aos sinais dos tempos, às novas perspectivas, TdL manterá a herança inegociável da opção pelos pobres(7). O lugar social deles é sempre referência inolvidável para esta teologia. Mais: os pobres não são só destinatários e objetos da reflexão teológica, mas para que ela alcance seu objetivo real, a libertação como processo, não oferecido, mas protaganizado pelos oprimidos, precisa ser também reflexão consciente dos mesmos. Ora, sob este aspecto, a emblemática contribuição freiriana, de que ninguém liberta ninguém nem ninguém se liberta sozinho, mas nos libertamos em comunhão, é fundamental(8). A libertação é dialógica e não um monólogo. Por isso, não ser somente teologia clerical é um dos grandes desafios para a TdL(9). E se chega a ser teologia dos pobres, do Povo de Deus em marcha constante para a edificação do Reino, embora imperfeito na nossa caminhada terrena, essa teologia expressa coerentemente seu perfil eclesial, inserindo os crentes, enraizados na fé, na crença no Deus da Vida, nos complexos movimentos sociais, manifestando, assim, sua correta caracterização social. Isto quer dizer que o engajamento social é fruto direto da experiência de Deus, e de modo cristão como mergulho no mistério da encarnação enquanto sentido redentor e libertador para toda a humanidade.



Isso não significa atribuir maior importância a TdL do que a outras formas de teologia. Tal colocação nos permite afirmar sua validade como pensamento teológico. O seu lugar na história da teologia está ligado à sua contribuição peculiar de como trabalhar os dados da fé. Sua vida é riqueza para a Igreja, uma contribuição para as razões da fé vivida no embate cotidiano, sobretudo nos conflitivos. Sua vocação social explícita(10) nos leva à demanda de uma teologia crítica, de uma fé crítica das formas de vida. No Evangelho de Mateus, por exemplo, essa forma crítica da fé e do seguimento em Jesus é um pedido do próprio mestre. O Nazareno pede que os seus sejam luz do mundo e sal da terra (Mt 5, 13-16). Isso, por outro lado, só ocorre quando em não conformidade como o mundo se trilha o caminho feliz apontado pelas bem-aventuranças da pobreza evangélica na luta por justiça. Jesus também reza pelos seus, pois estão no mundo, mas não pertencem ao mundo (Jo 17, 9-15)(11). As exigências do Reino e do Amor põem o cristão em confronto com as situações nas quais imperam na vida os sinais do Anti-Reino. Será nesse sentido que o apóstolo Paulo incentivará os cristãos a não estarem acordes com este mundo, mas pede transformação das mentalidades para a construção de uma nova vida, de acordo com a vontade do Pai (Rm 12, 1-2). E em nada disso se apresenta evasão das realidades sociais, mas empenho crítico diante das mesmas para renová-las segundo o desígnio de Deus. Será essa a marca reflexiva constante da TdL e o seu refrão.



A ótica social da TdL é a visão da fé. Dela não se separa e a pressupõe sempre. Todavia, como já expresso aqui, esse viés teológico privilegiará o lugar dos mais fracos e a libertação destes para gerar seus aportes teóricos. Daí sua premência e vigência, sobretudo quando assistimos à perigosa onda de encobrimento da pobreza e do grito dos pobres, em alguns casos cooptados por políticas e programas governamentais dispostos a fazê-los mais consumidores e menos cidadãos. Acompanhamos, o que bem analisou José de Souza Martins, uma nova desigualdade, não possível de ser compreendida pelo conceito de exclusão. Vemos por toda parte uma inclusão marginal, precária e instável(12). Os empobrecidos são enganados ao receberem lugares residuais na sociedade bem como os bens de consumo para a satisfação mimética dos que se refestelam sobre a máquina que constrói a pobreza(13). Não se pode esquecer ainda que, contra a recordação dos empobrecidos, está, em voga, um espiritualismo vazio. Neste, o discurso é marcado por generalidades, terapias espirituais, ascensões mágicas e toda sorte de psicologismos rasteiros. E no discurso eclesiástico oficial, em geral, e quase sempre, as intervenções nos problemas sociais ficaram restritas à problemática do aborto e eutanásia, parecendo ser a única forma de defender a vida. A vida existente, entre o nascer e morrer, anda esquecida.



Ora, posto isto, a não colocação da TdL no primeiro plano dos debates teológicos atuais, até mesmo no seu nascedouro, não implica sua falta de importância nem sua morte, mas um movimento pendular do poder que em momentos de crise se vê posto contra a parede pelos legítimos empreendimentos dos pequenos e suas representações teóricas, simbólicas e práticas, contundo se restabelecendo contra os fracos em outras ocasiões por meio da violência ou mesmo pela suavidade e alegria ideológica. E se não está morta, a TdL dá seus sinais nas brechas do sistema, visto ser expressão não do acessório e sim do essencial cuidado com a vida nos seus setores mais frágeis, como pede o Evangelho. Sua existência se respalda da lídima missão cristã de lembrar e cuidar dos mais débeis a fim de que não só eles sejam salvos, mas também os que oprimem, pela via da conversão pessoal e social. Entretanto, ressalta-se, dentro do mundo marcado por divisões, pela falta de paz e de justiça, a luta pela justiça do lado dos injustiçados é a vertente ética e espiritual profética da TdL. Ela é um bem necessário à teologia e à sua tradição como pensamento. Mais do que conceitos a TdL sempre lembra dos empobrecidos.



Notas:
(1) Ver LIBANIO, J. B. Teologia da Libertação. Roteiro didático para um estudo. São Paulo: Edições Loyola, 1987. pp. 15-36

(2) Op. Cit. pp. 17, 25

(3) BETTO, Frei. "A teologia da libertação ruiu com o Muro de Berlim?” in BETTO, Frei. Cotidiano e Mistério. São Paulo: Olho d’água, 1996. pp. 107

(4) Op. Cit. pp. 108

(5) GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia de la Liberación. Perspectivas. Ediciones Sígueme: Salamanca, 2004, p. 19

(6) Op. Cit. p. 19

(7) TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto (Org.). Teologia da Libertação. Novos Desafios. São Paulo: Edições Paulinas, 1991, p. 9. Na apresentação à obra, que é um conjunto de entrevistas, Faustino destaca esse importante ponto da TdL, que se trata de uma constante epistemológica de seu pensamento.

(8) FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2005, pp. 58-64

(9) Op. Cit. p. 133. Essa é a percepção de José Comblin em resposta à pergunta de Teixeira sobre os desafios.

(10) Falamos de vocação explícita pelo fato de toda teologia ser social, embora nem todas as formas de teologia explicitem esse caráter.

(11) A compreensão sobre o mundo no Evangelho de João está em conexão com o tipo de mundo construído pela ação inspirada em Deus ou pelas forças do Mal. Por isso, o não pertencer ao mundo não está contra a vida e o criado, mas contra as edificações perversas do mundo enquanto sociedade.

(12) MARTINS, José de Souza. Exclusão Social e a Nova Desigualdade. São Paulo: Paulus, 2003, p.26

(13) Op. Cit. p. 36

Magno Marciete do Nascimento OliveiraPadre, mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, doutorando pela mesma instituição e Professor na PUC- Minas

TdL em Mutirão 10

PRECISAMOS DE PROFETAS

Quem passa por um edifício em construção, pode ver placas dizendo: “Precisamos de pedreiros”. Lojas de comércio alternam: “Precisamos de vendedores”. Infelizmente não podemos colocar nas portas das Igrejas: “Precisamos de profetas e profetizas”. Entretanto, é bom espalhar por aí que isso é uma necessidade urgente e que se apresentem os/as candidatos/as. Não estranhem o fato de que, diferentemente de outros ofícios, a missão de profeta quase nunca é bem aceita e reconhecida. Muitas vezes, gera até incompreensões e rejeições injustas. No tempo em que viveu no sertão do Nordeste, o padre Alfredo Kunz dizia: “Aqui, os urubus é que fazem o serviço de limpeza pública, já que as prefeituras não assumem. Todo mundo sabe disso. Entretanto, eu já vi gente criando todo tipo de pássaros, mas nunca vi ninguém criar urubu. Os urubus são necessários, mas ninguém os quer perto. Urubus me lembram os profetas de Deus, necessários, mas frequentemente rejeitados”.

Não é difícil celebrar a memória de profetas mortos. O evangelho denuncia que os fariseus e mestres da lei matam os profetas e depois erguem para eles belos túmulos, contanto que continuem mortos (Mt 23). Atualmente, em certos ambientes eclesiásticos, quando alguém fala em profetas como Mons. Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado por militares da ditadura salvadorenha e, aqui no Brasil, Dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife, há quem os elogie, mas conclua com certo cinismo: “o tempo deles era outro. Hoje não pode mais ser assim”. E assim, estes religiosos dos tempos novos se recolhem em seu mundinho de paramentos, ritos paroquiais e segredos de cúria.

Para quem a espiritualidade significa caminho de amor e solidariedade universal, o mês de agosto recorda a memória de vários mártires da justiça do reino divino. No dia 10 de agosto de 1974, frei Tito Alencar, terrivelmente torturado em seu corpo e sua alma, procurava a paz na morte. No 12 de agosto de 1983, na Paraíba, era assassinada Margarida Alves, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande. Além de vários homens e mulheres que deram a vida pela causa do reino, em agosto, partiram deste mundo três bispos católicos que marcaram muito a caminhada da Igreja no Brasil como profetas da paz e da justiça: Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, no Ceará e um dos primeiros bispos ligados à Teologia da Libertação; Dom Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana, MG, e ex-presidente da CNBB que, em 2006, partiu no dia 27 de agosto, mesma data em que, sete anos antes, no Recife, nos tinha deixado Dom Hélder Câmara.

A missão de uma pessoa religiosa é ser testemunha da presença divina no mundo e atuar para que a sociedade se transforme de acordo com o projeto divino de paz e justiça para todos. Por isso, é bom recordarmos a profecia de pastores como Hélder Câmara, Antônio Fragoso e Luciano Mendes de Almeida. Todos os três, cada qual em sua área de atuação e do seu modo, conduziram a Igreja do Brasil pelo caminho da profecia.

Na memória destes três profetas da Igreja, nos damos conta da herança profética que recebemos e, junto com cristãos, pessoas de outras confissões e todos os homens e mulheres que acreditam no amor e na justiça, renovamos nosso compromisso de serviço aos irmãos e luta pacífica para transformarmos este mundo.

Em 1994, Dom Hélder mandava esta mensagem ao movimento italiano Mani Tesi (Mãos Estendidas): “Não estamos sós. Por isso, não aceito nunca a resignação nem o desespero. Um dia, a fome será vencida e haverá paz para todos. A última palavra neste mundo não pode ser a morte mas a vida! Nunca pode ser o ódio, mas o amor! Precisamos fazer com que não haja mais desespero e sim esperança. Nunca mais vençam as mãos enrijecidas contra o outro e sim o que o movimento de vocês valoriza: Mãos estendidas! Unidas na solidariedade e no amor para com todos”.

Marcelo Barros
monge beneditino e autor de 40 livros, dos quais o mais recente é "Para onde vai Nuestra América” (Espiritualidade socialista para o século XXI). São Paulo, Ed. Nhanduti, 2011. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


terça-feira, 9 de agosto de 2011

TdL em Mutirão 9

QUARENTA ANOS DE TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

.Teologia da Libertação celebra neste ano de 2011 40 anos de existiencia. Em 1971 Gustavo Gutiérrez publicana no Peru seu livro fundador “Teologia da Libertação.Perspectivas”. Eu publicava também em 1971 em forma de artigos, numa revista de religiosas – Grande Sinal – para escapar da repressão militar o meu Jesus Cristo Libertador, depois lançado em livro. Ninguém sabia um do outro. Mas estávamos no mesmo espírito. Desde então surgiram três gerações de teólogos e teólogas que se inscrevem dentro da Teologia da Libertação. Hoje ela está em todos os continentes e representa um modo diferente de fazer teologia, a partir dos condenados da Terra e da periferia do mundo.Aqui vai um pequeno balanço destes 40 anos de prática e de reflexão libertadoras.

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A Teologia da Libertação participa da profecia de Simeão a respeito do menino (Jesus): ela será motivo de queda e de elevação, será um sinal de contradição (Lc 2,34). Efetivamente a Teologia da Libertação é uma teologia incomprendida, difamada, perseguida e condenada pelos poderes deste mundo. E com razão. Os poderes da economia e do mercado a condenam porque cometeu um crime para eles intolerável: optou por aqueles que estão fora do mercado e são zeros econômicos. Os poderes eclesiásticos a condenaram por cair numa “heresia”prática ao afirmar que o pobre pode ser construtor de uma nova sociedade e também de outro modelo de Igreja. Antes de ser pobre, ele é um oprimido ao qual a Igreja deveria sempre se associar em seu processo de libertação. Isso não é politizar a fé mas praticar uma evangelilzação que inclui também o político. Consequentemente, quem toma partido pelo pobre-oprimido sofre acusações e marginalizações por parte dos poderosos seja civis, seja religiosos.

Por outro lado, a Teologia da Libertação representa uma benção e uma boa nova para os pobres. Sentem que não estão sós, encontraram aliados que assumiram sua causa e suas lutas. Lamentam que o Vaticano e boa parte dos bispos e padres construam no canteiro de seus opressores e se esquecem que Jesus foi um operário e pobre e que morreu em consequência de suas opções libertárias a partir de sua relação para com o Deus da vida que sempre escuta o grito dos oprimidos.
De qualquer forma, numa perspectiva espiritual, é para um teólogo e uma teóloga comprometidos e perseguidos uma honra participar um pouco da paixão dos maltratados deste mundo.

1. A centralidade do pobre e do oprimido


O punctum stantis et cadentis da Teologia da Libertação é o pobre concreto, suas opressões, a degradação de suas vidas e os padecimentos sem conta que sofre. Sem o pobre e o oprimido não há Teologia da Libertação. Toda opressão clama por uma libertação. Por isso, onde há opressão concreta e real que toca a pele e faz sofrer o corpo e o espírito ai tem sentido lutar pela libertação. Herdeiros de um oprimido e de um executado na cruz, Jesus, os cristãos encontram em sua fé mil razões por estarem do lado dos oprimidos e junto com eles buscar a libertação. Por isso a marca registrada da Teologia da Libertação é agora e será até o juizo final: a opção pelos pobres contra sua pobreza e a favor de sua vida e liberdade.
A questão crucial e sempre aberta é esta: como anunciar que Deus é Pai e Mãe de bondade num mundo de miseráveis? Este anúncio só ganhará credibilidade se a fé cristã ajudar na libertação da miséria e da pobreza. Então tem sentido dizer que Deus é realmente Pai e Mãe de todos mas especialmente de seus filhos e filhas flagelados.
Como tirar os pobres-oprimidos da pobreza, não na direção da riqueza, mas da justiça? Esta é uma questão prática de ordem pedagógico-política. Identificamos três estratégias.
A primeira interpreta o pobre como aquele que não tem. Então faz-se mister mobilizar aqueles que têm para aliviar a vida dos que não têm. Desta estratégia nasceu o assistencialismo e o paternalismo. Ajuda mas mantém o pobre dependente e à mercê da boa vontade dos outros. A solução tem respiração curta.
A segunda interpreta o pobre como aquele que tem: tem força de trabalho, capacidade de aprendizado e habilidades. Importa formá-lo para que possa ingressar no mercado de trabalho e ganhar sua vida. Enquandra o pobre no processo produtivo, mas sem fazer uma crítica ao sistema social que explora sua força de trabalho e devasta a natureza, criando uma sociedade de desiguais, portanto, injusta. É uma solução que ajuda favorece o pobre, mas é insuficiente porque o mantém refém do sistema, sem libertá-lo de verdade.
A terceira interpreta o pobre como aquele que tem força histórica mas força para mudar o sistema de dominação por um outro mais igualitário, participativo e justo, onde o amor não seja tão difícil. Esta estratégia é libertária. Faz do pobre sujeito de sua libertação. A Teologia da Libertação, na esteira de Paulo Freire, assumiu e ajudou a formular esta estratégia. É uma solução adequada à superação da pobreza. Esse é o sentido de pobre da Teologia da Libertação.
Só podemos falar de libertação quando seu sujeito principal é o próprio oprimido; os demais entram como aliados, importantes, sem dúvida, para alargar as bases da libertação. E a Teologia da Libertação surge do momento em que se faz uma reflexão crítica à luz da mensagem da revelação desta libertação histórico-social.


2.Teologia da Libertação e movimentos por libertação

Entretanto, só entenderemos adequadamente a Teologia de Libertação se a situarmos para além do espaço eclesial e dentro do movimento histórico maior que varreu as sociedades ocidentais no final dos anos 60 do século passado. Um clamor por liberdade e libertação tomou conta dos jovens europeus, depois norte-americanos e por fim dos latino-americanos.
Em todos os âmbitos, na cultura, na política, nos hábitos na vida cotidina derrubaram-se esquemas tidos por opressivos. Como as igrejas estão dentro do mundo, membros numerosos delas foram tomados por este Weltgeist. Trouxeram para dentro das Igrejas tais anseios por libertação. Começaram a se perguntar: que contribuição nós cristãos e cristãs podemos dar a partir do capital específico da fé cristã, da mensagem de Jesus que se mostrou, segundo os evangelhos, libertador? Esta questão era colocada por cristãos e cristãs que já militavam politicamente nos meios populares e nos partidos que queriam a transformação da sociedade.
Acresce ainda o fato de que muitas Igrejas traduziram os apelos do Concilio Vaticano II de abertura ao mundo, para o contexto latinoamericano, como abertura para o sub-mundo e uma entrada no mundo dos pobres-oprimidos. Deste impulso, surgiram figuras proféticas, nasceram as CEBs, as pastorais sociais e o engajamento direto de grupos cristãos em movimentos políticos de libertação. Para muitos destes cristãos e cristãs e mesmo para uma significativa porção de pastores não se tratava mais de buscar o desenvolvimento. Este era entenddo como desenvolvimento do subdsenvolvimento, portanto, como uma opressão. Demandava, portanto, um projeto de libertação.
Portanto, a Teologia da Libertação não caiu do céu nem foi inventada por algum teólogo inspirado. Mas emergiu do bojo desse movimento maior mundial e latino-americano, por um lado político e por outro eclesial. Ela se propôs pensar as práticas eclesiais e políticas em curso à luz da Palavra da Revelação. Ela comparecia como palavra segunda, crítica e regrada, que remetia à palavra primeira que é a prática real junto e com os oprimidos. Alguns nomes seminais merecem ser aqui destacados que, por primeiro, captaram a relevância do momento histórico e souberam encontrar-lhe a fórmula adequada, Teologia da Libertação: Gustavo Gutiérrez do Peru, Juan Luiz Segundo do Uruguai, Hugo Asmann do Brasil e Enrique Dussel e Miguez Bonino, ambos da Argentina. Esta foi a primeira geração. Seguiram-se outras.

3. Os muitos rostos dos pobres e oprimidos

A Teologia da Libertação partiu diretamente dos pobres materiais, das classes oprimidas, dos povos desprezados como os indígenas, negros marginalizados, mulheres submetidas ao machismo, das religiões difamadas e outros portadores de estigmas sociais. Mas logo se deu conta de que pobres-oprimidos possuem muitos rostos e suas opressões são, cada vez, específicas. Não se pode falar de opressão-libertação de forma generalizada. Importa qualificar cada grupo e tomar a sério o tipo de opressão sofrida e sua correspondente libertação ansiada.
Desmascarou-se o sistema que subjaz a todas estas opressões, construido sobre o submetimento dos outros e da depredação da natureza. Dai a importância do diálogo que a Teologia da Libertação conduziu com a economia políica capitalista. De grande relevância crítica foi a releitura da história da América Latina a partir das vítimas, desocultando a perversidade de um projeto de invasão coletivo no qual o colono ou o militar vinha de braço dado com o missionário. Esse casamento incestuoso produziu, segundo o historiador Oswald Spengler, o maior genocídio da história. Até hoje nem as potências outrora coloniais nem a Igreja institucional tiveram a honradez de reconhecer esse crime histórico, muito menos de fazer qualquer gesto de reparação.
Sem entrar em detalhes, surgiram várias tendências dentro da mesma e única Teologia da Libertação: a feminista, a indígena, a negra, a das religiões, a da cultura, a da história e da ecologia. Logicamente, cada tendência se deu ao trabalho de conhecer de forma crítica e científica seu objeto, para poder retamente avaliá-lo e atuar sobre ele de forma libertadora à luz da fé.

4. Como fazer uma teologia de libertação

Aqui cabe uma palavra sobre o como fazer uma teologia que seja libertadora, quer dizer, cabe abordar o método da Teologia da Libertação. O método seja talvez uma de suas contribuições mais notáveis que este modo de fazer teologia trouxe ao quefazer teológico universal. Parte-se antes de mais nada de baixo, da realidade, a mais crua e dura possível, não de doutrinas, documentos pontifícios ou de textos bíblicos. Estes possuem a função de iluminação mas não de geração de pensamento e de práticas.
Face à pobreza e à miséria, a primeira reação foi, tipicamente, jesuânica, a do miserior super turbas, de compaixão que implica transportar-se à realidade do outro e sentir sua paixão. É aqui que se dá uma verdadeira experiência espiritual de encontro com aqueles que Bartolomeu de las Casas no México e Guamán Poma de Ayala no Peru chamavam de os Cristos flagelados da história. Há um encontro de puro espírito com o Cristo crucificado que quer ser baixado da cruz. Esta experiência espiritual de compaixão só é verdadeira se der origem a um segundo sentimento o de iracundia sagrada que se expessa: “isso não pode ser, é inaceitável e condenável; deve ser superado”.
Destes sentimentos surge imediatamente a vontade de fazer alguma coisa. É nesse momento que entra a racionalidade que nos ajuda a evitar enganos, fruto da boa vontade mas sem crítica. Sem análise corre-se o risco do assistencialismo e do mero reformismo que acabam por reforçar o sistema. O conhecimento dos mecanismos produtores da pobreza-opressão nos mostra a necesidade de uma transformação e libertação, portanto de algo novo e alternativo. Em seguida, buscam-se as mediações concretas que viabilizam a libertação, sempre tendo como protagonista principal o próprio pobre. Aqui entra a funcionar outra lógica, aquela das metas, das táticas e estratégias para alcançá-las, das alianças com outros grupos de apoio e da avaliação da correlação de forças, do juizo prudencial acerca da reação do sistema e de seus agentes e da possibilidade real de avanço. Alcançada a meta, vale a celebração e a festa que congraçam as pessoas, lhes conferem sentimento de pertença e do reconhecimento da própria força transformadora. Então constatam empiricamente que um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte, porque a união faz a força histórica transformadora.

Resumindo: estes são os passos metodológicos da Teologia a Libertação: (1) um encontro espiritual, vale dizer, uma experiência do Crucificado sofrendo nos crucificados. (2) uma indignação ética pela qual se condena e rejeita tal situação como desumana que reclama superação;(3) um ver atento que implica uma análise estrutural dos mecanismos produtores de pobreza-opressão; (4)um julgar crítico seja aos olhos da fé seja aos olhos da sã razão sobre o tipo de sociedade que temos, marcada por tantas injustiças e a urgência de transformá-la; (5) um agir eficaz que faz avançar o processo de libertação a partir dos oprimdiso; (5) um celebrar que é um festejar coletivo das vitórias alcançadas.
Esse método é usado na linguagem do cotidiano seja pelos meios populares que se organizam para resistir e se libertar, seja pelos grupos intermediários dos agentes de pastoral, de padres, bispos, religiosos e religiosas e leigos e leigas cujo discurso é mais elaborado, seja pelos próprios teólogos que buscam rigor e severidade no discurso.

5. Contribuições da Teologia da Libertação para a teologia universal

A Teologia da Libertação, por causa da perspectiva dos pobres que assumiu, revelou dimensões diferentes e até novas da mensagem da revelação. Em primeiro lugar, ela propiciou a reapropriação da Palavra de Deus pelos pobres. Em suas comunidades e círculos bíblicos aprenderam comparar página da Bíblia com a página da vida e dai tirar consequências para sua prática cotidiana. Lendo os Evangelhos e se confrontando com o Jesus de Nazaré, artesão, factotum e campones mediterrâno, perceberam a contradição entre a condição pobre de Jesus e a riqueza da grande instituição Igreja. Esta está mais próxima do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. Com respeito aprenderam a fazer suas críticas ao exerício centralizado do poder na Igreja e ao fechamento doutrinal face a questões importantes para a sociedade como é a moral familiar e sexual.

A Teologia da Libertação nos fez descobrir Deus como o Deus da vida, o Pai e Padrinho dos pobres e humildes. A partir de sua essência, como vida, se sente atraido pelos que menos vida têm. Deixa sua transcendência e se curva para dizer:”ouvi a opressão de meu povo…desci para libertá-lo”(Ex 3,7). A opção pelos pobres encontra seu fundamento na própria natureza de Deus-vida.
Revelou-nos também a Jesus como libertador. Ele é libertador, não porque assim o chamam os teólogos da libertação, mas por causa do testemunho dos Apóstolos. Ele libertou do pecado mas também da doença, da fome e da morte. Jesus não morreu. Foi assassinado porque viveu uma prática libertária que ofendia as convenções e tradições da época. Anunciou uma proposta – o Reino de Deus – que implicava uma revolução em todas as relações; não apenas entre Deus e os seres humanos, mas também na sociedade e nos cosmos. O Reino de Deus se contrapunha ao Reino de César, o que representava um ato político de lesa-majestade. O Imperador revindicava para si o título de Deus e até de “Deus de Deus”, coisa que o credo cristão mais tarde atribuirá a Cristo. A ressurreição, ao lado de outros significados, emerge como a inauguração do “novissimus Adam”(1Cor 15,45), como uma “revolução na evolução”.

Permitiu-nos identificar em Maria, não apenas aquela humilde serva do Senhor que diz sim mas a profetiza que clama pelo Deus Go’El, o vingador dos injustiçados, aquele que derruba dos tronos os poderosos e eleva os humildes (Lc 1, 51-52). Ela clarificou também a missão da Igreja que é atualizar permanentemente, para os tempos e lugares diferentes, a gesta libertadora de Jesus e manter vivo seu sonho de um Reino de Deus que começa pelos últimos, os pobres e excluidos e que se estende até à criação inteira será finalmente resgatada, onde vige a justiça, o amor incondicional, o perdão e a paz perene.

6. A Teologia da Libertação como revolução espiritual

As reflexões que acabamos de fazer nos permitem dizer: a Teologia da Libertação produziu uma revolução teológico-espiritual. Não houve muitas revoluções espirituais no Cristianismo. Mas sempre que elas ocorrem, se resignificam os principais conteúdos da fé, como assinalamos acima, emerge uma nova vitalidade e a mensagem cristã libera dimensões insuspeitadas, gerando vida e santidade.
É a primeira teologia histórica que nasceu na periferia do cristianismo e distante dos centros metropolitanos de pensamento. Ela denota uma maturação inegável das Igrejas-filhas que conseguem articular, com sua linguagem própria, a mensagem cristã, sem romper a unidade de fé e a comunhão com as Igrejas-mães.
Nunca na história do cristianismo os pobres ganharam tanta centralidade. Eles sempre estiveram ai na Igreja e foram destinatários dos cuidados da caridade cristã. Mas aqui se trata de um pobre diferente, que não quer apenas receber mas dar de sua fé e inteligência. Trata-se do pobre que pensa, que fala, que se organiza e que ajuda a construir um novo modelo de Igreja-rede-de-comunidades. Os pastores de estilo autoritário não temem o pobre que silencia e obedece. Mas tremem diante do pobre que pensa, fala e participa na definição de novos rumos para a comunidade. São cristãos com consciência de sua cidadania eclesial.
A irradiação da Teologia da Libertação alcançou o aparelho central da Igreja Católica, o Vaticano. Influenciadas pelos setores mais conservadores da própria Igreja latinoamericana e das elites políticas conservadoras, as instâncias doutrinárias sob o então Card. Joseph Ratzinger reagiram, em 1984 e 1986, com críticas contra a Teologia da Libertação.
Mas se bem repararmos, não se fazem condenações cerradas. Tais autoridades chamam a atenção para dois perigos que acossam este tipo de teologia: a redução da fé à política e o uso não-crítico de categorias marxistas. Perigos não são erros. Evitados, eles deixam o caminho aberto e nunca invalidam a coragem do pensamento criativo. Apesar das suspeitas e manipulações que se fizeram destes dois documentos oficiais, a Teologia da Libertação pôde continuar com sua obra.
Por esta razão entendemos que o Papa João Paulo II, com mais espírito pastoral que doutrinal, tenha enviado uma Mensagem ao Episcopado do Brasil no dia 6 de abril de 1986 na qual declara que esta a Teologia da Libertação, em condições de opressão, “não é somente útil mas também necessária”.
Mas sobre a figura do então Card. Joseph Ratzinger pesa uma acusação irremissivel, que seguramente passará negativamente para a história da teologia: a de ter-se revelado inimigo da inteligência dos pobres e de seus aliados e de ter condenado a primeira teologia surgida na periferia da Igreja e do mundo que conferia centralidade à dignidade dos oprimidos.
Efetivamente, proibiu que mais de cem teólogos de todo o Continente elaborassem uma coleção de 53 tomos- Teologia e Libertação – como subsídio a estudantes e a agentes de pastoral que atuavam na perspectiva dos pobres. Mais que um erro de governo, foi um delito contra a eclesialidade e um escárneo aos pobres pelos quais deverá responder diante de Deus. Também para ele vale o dito: na tarde sua vida, os pobres serão seus juizes dos quais esperamos que tenham para com o Cardeal mais misericórdia que severidade, diante de tanta ignorância e arrogância de quem se poderia esperar apoio entusiasmado e acompanhamento diligente.

Ao contrário, muitos teólogos foram postos por ele sob vigilância, advertidos, marginalizados em suas comunidades, acusados, proibidos de exercer o ministério da palavra, afastados de suas cátedras ou submetidos a processos doutrinários com “silêncio obsequioso”. Esta rigidez não dminuiu ao fazer-se Papa, mas continuou com renovado fervor. Et est videre miseriam.
A Teologia da Libertação devolveu dignidade e relevância à tarefa da Teologia. Conferiu-lhe um inegável caráter ético. Os teólogos desta corrente, sem renunciar ao estudo e à pesquisa, se associaram à vida e a causa dos condenados da Terra. No apoio a seus movimentos correram riscos. Muitos conheceram a prisão, a tortura e outros o martírio. Ousamos dizer que a Teologia da Libertação junto com a Igreja da Libertação que lhe subjaz é um dos poucos movimentos eclesiais que no século XX conheceu o martírio, curiosamente praticados por cristãos repressores, atingindo leigos e leigas, religosas e religiosos, pastores, teólogos e teólogas não poupando mesmo bispos como Dom Angelelli da Argentina e Dom Oscar Arnulfo Romero de El Salvador. É o sinal da verdade desta opção pelos pobres.
Por fim, a Teologia da Libertação chama as demais teologias à sua responsabilidade social no sentido de colaborarem na gestação de um mundo mais justo e fraterno. Sua missão não se esgota numa diligência ad intra, ao espaço eclesial. Se ela não quiser escapar da indiferença e do cinismo deve se deixar mover pelo grito dos oprimidos que sobe das entranhas da Terra. Poucos são os que escutam esse clamor. Uma teologia que silencia diante do tragédia dos milhõs de famélicos e condenados a morrer antes do tempo, não tem nada a dizer sobre Deus ao mundo.

7. A Teologia da Libertação como revolução cultural


Por fim, a Teologia não representou apenas uma revolução espiritual. Ela significou também uma revolução cultural. Contribuiu para que os pobres ganhassem visibilidade e consciência de suas opressões. Gestou cristãos que se fazeram cidadãos ativos e a partir de sua fé se empenharam em movimentos sociais, em sindicatos e em partidos no propósito de dar corpo a um sonho, que tem a ver com o sonho de Jesus, o de construir uma convivência social na qual o maior número possa participar e todos juntos possam forjar um futuro bom para a humanidade e para a natureza.
É mérito da Igreja da Libertação com sua Teologia da Libertação subjacente ter contribuido decididamente na construção do Partido dos Trabalhadores, do Movimento dos Sem Terra, do Conselho Indigenista Missionário, da Comissão da Pastoral da Terra, da Pastoral da Criança, dos Hansenianos e dos portadores do virus HIV que foram os instrumentos para praticar a libertação e assim realizar os bens do Reino. Aqui o cristianismo mostrou e mostra a primazia da ortopraxis sobre a ortodoxia e a importância maior das práticas sobre as prédicas.
Nascida na América Latina, esta teologia se expandiu por todo o terceiro mundo, na Africa, na Asia, especialmente naquelas Igrejas particulares que penetraram no universo dos pobres e oprimdos e em movimentos dos paises centrais ligados à solidariedade internacional e ao apoio às lutas dos oprimidos, na Europa e nos Estados Unidos. De forma natural, ela se associou ao Forum Social Mundial e encontrou lá visibilidade e espaço de contribuição às grandes causas vinculadas ao um outro mundo possível e necessário, articulando o discurso social com o discurso da fé.
Em todas as questões abordadas, a preocupação é sempre essa: como vai a caminhada dos pobres e dos oprimdos no mundo? Como avança o Reino com seus bens e que obstáculos encontra pela frente, vindos da própria instituição eclesial, não raro tardia em tomar posições e insensível aos problemas do homem da rua e aqueles derivados principalmente das estratégias dos poderosos, decididos em manter invisíveis e silenciados os oprimidos para continuarem sua perversa obra de acumulação e dominação.


8. O futuro da Teologia da Libertação


Que futuro tem e terá a Teologia da Libertação? Muitos pensam e lhe interessa pensar assim que ela é coisa dos anos 70 do século passado e que já perdeu atualidade e relevância. Só mentalidades cínicas podem alimentar tais desejos, totalmente alienadas com o que passa com o planeta Terra e com o destino dos pobres no mundo. O desafio central para o pensamento humanitário e para a Teologia da Libertação é exatamente o crescente aumento do número de pobres e o acelerado aquecimento global e a opressão dos pobres. Lamentavelmente, cada vez menos pessoas, grupos e igrejas estão dispostos a ouvir seu clamor canino que se dirige ao céu. Uma Igreja e uma teologia que se mostram insensíveis a esta paixão se colocam a quilômetros luz da herança de Jesus e da libertação que ele anunciou e antecipou.
A Teologia da Libertação não morreu. Ela é atualmente mais urgente do que quando surgiu no final dos anos 60 do século XX. Apenas ficou mais invisível pois saiu do foco das polêmicas que interessam a opinião pública. Enquanto existirem neste mundo pobres e oprimidos haverá pessoas, cristãos e Igrejas que farão suas as dores que afligem a pele dos pobres, suas as angústias que lhes entristecem a alma e seus os golpes que lhes atingem o coração. Estes atualizarão os sentimentos que Jesus teve para com a humanidade sofredora.
No contexto atual de degradação da Mãe Terra e da devastação continuada do sistema-vida, a Teologia da Libertação entendeu que dentro da opção pelos pobres deve incluir maximamente a opção pelo grande pobre que é o Planeta Terra.
Ele é vítima da mesma lógica que explora as pessoas, subjuga as classes, domina as nações e devasta a natureza. Ou nos libertamos desta lógica perversa ou ela nos poderá levar a uma catástrofe social e ecológica de dimensões apocalípticas, não excluída a possibilidade até da extinção da espécie humana. A inclusão desta problemática, quiça, a mais desafiante de nosso tempo, fez nascer uma vigorosa Ecoteologia da Libertação. Ela se soma a todas as demais iniciativas que se empenham por um outro paradigna de relação para com a natureza, com outro tipo de produção e com formas mais sóbrias e solidárias de consumo.
Que futuro tem a Teologia da Libertação? Ela tem o futuro que está reservado aos pobres e oprimidos. Enquanto estes persistirem há mil razões para que haja um pensamento rebelde, indignado e compassivo que se recusa aceitar tal crueldade e impiedade e se empenhará pela libertação integral.
Ela não terá lugar dentro do atual sistema capitalista, máquina produtora de pobreza e de opressão. Ela só poderá existir na forma de resistência, sob perseguições, difamações e martírios. Mesmo assim, porque nenhum sistema é absolutamente fechado, ela poderá colocar cunhas por onde o pobre e o oprimido construirão espaços de liberdade. Por isso, a Teologia da Libertação possui uma clara dimensão política: ela quer a mudança da sociedade para que nela se possam realizar os bens do Reino e os seres humanos possam conviver como cidadãos livre e participantes.
Que futuro tem a Teologia da Libertação dentro do tipo de Igreja-instituição que possuimos? Mantido o atual sistema, cujo eixo estruturador é a sacra potestas, o poder sagrado, centralizado somente na hierarquia, ela só poderá ser uma teologia no cativeiro e relegada à marginalidade. Ela é disfuncional ao pensamento oficial e ao modo como a Igreja se organiza hierarquicamente: de um lado o corpo clerical que detém o poder sagrado, a palavra e a direção, e do outro, o corpo laical, sem poder, obrigado a ouvir e a obedecer. Na esteira do Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação se baseia num conceito de Igreja comunhão, rede de comunidades Povo de Deus e poder sagrado como serviço.
Esta visão de Igreja foi nos últimos decênios praticamente anulada por uma política curial de volta à grande disciplina e pelo reforço à estrutura hierárquica de orgnização eclesial.
Assim se fecharam as portas à conciliação tentada pelo Concílio Vaticano II entre Igreja Povo de Deus e Igreja Hierárquica, entre Igreja-poder e Igreja-comunhão. O difícil equilíbrio alcançado foi logo rompido ao se entender a comunhão como comunhão hierárquica, o que anula o conteúdo inovador deste conceito que supõe a participação equânime de todos e a hierarquia funcional de serviços e não a hiierarquia ontológica de poderes. A burocracia vaticana e os Papas Wojtyla e Ratzinger nterpretaram o Vaticano II à luz do Vaticano I centralizando novamente a Igreja ao redor do poder do Papa e esvaziando os poucos órgãos de colegialidade e participação.
Não devemos ocultar o fato de que ao optar pelo poder a Igreja institituição optou pelos que também têm poder, numa palavra, os ricos. Os pobres perderam centralidade. A eles está reservada a assistência e a caridade que nunca faltaram. Mas quem opta pelo poder fecha as portas e as janelas ao amor e à misericórdia. Lamentavelmente ocorreu com o atual modelo de Igreja, burocrático, frio e nas questões concernentes à sexualidade, a homoafetividade, à AIDS e ao divórcio, sem misericórdia e humanidade.
Nestas condições, não há como fazer uma Teologia da Libertação como um bem da Igreja local e universal que toma a sério a questão dos pobres e da justiça social. Ela subverte a ordem estabelecida das coisas. Seu destino será a deslegitimação e a perseguição. Não será exagero dizer que ela vive e viveu o seu mistério pascal: sempre rejeitada, sempre sepultada e também sempre de novo ressuscitada porque o clamor dos pobres não permite que ela morra.
Mas na Igreja instituição, apesar de suas graves limitações, sempre há pessoas, homens e mulheres, padres, religiosos e religiosas e bispos que se deixam tocar pelos crucificados da história e se abrem ao chamado do Cristo libertador. Não apenas socorrem os pobres mas se colocam do lado deles e com eles caminham buscando formas alternativas de viver e de expressar a fé.
Qual o futuro da Teologia da Libertação? Ecumênica desde seus inícios, ela vicejará naquelas Igrejas que se remetem ao Jesus dos evangelhos, àquele que proclamou benaventurados os pobres e que se encheu de compaixão pelo povo faminto e que, num gesto de libertação, multiplicou os pães e os peixes. Estas Igrejas ou porções delas, ousadamente mantem a opção pelos pobres contra a sua pobreza. Entenderão esta opção como um imperativo evangélico e a forma, talvez a mais convincente, de preservar o legado de Jesus e de atualizá-lo para os nossos tempos.

9.Onde encontrar hoje a Teologia da Libertação


Qual será o futuro da Teologia da Libertação? Está em seu presente. Ela continua viva e cresce, com caráter ecumênico, na leitura popular da Bíblia, nos círculos bíblicos, nas comunidades eclesiais de base, nas pastorais sociais, no movimento fé e política e nos trabalhos pastorais nas periferias das cidades e nos interiores do paises. Neste nivel e por sua natureza ecumênica e popular esta teologia, de certa forma, escapa da vigilância das autoridades doutrinárias.
Ela é a teologia adequada àquelas práticas que visam a transformação social e a gestação de um outro modo de habitar a Terra. Se alguém quiser encontrar a Teologia a Libertação não vá às faculdades e institutos de teologia. Ai encontrará fragmentos e poucos representantes. Mas vá às bases populares. Ai é seu lugar natural e ai viceja vigorosamente. Ela está reforçando o surgimento de um outro modelo de Igreja mais comunitário, evangélico, participativo, simples, dialogante, espiriual e encarnado nas culturas locais que lhe conferem um rosto da cor da população, em nosso caso, indio-negro-latinoamericano.
Alçando a vista numa perspectiva universal, tenho uma como que visão. Vejo a multidão de pobres, de mutilados, aqueles que o Apocalipse chama “de sobreviventes da grande tribulação” (7,14) cujas lágrimas são enxugadas pelo Cordeiro, organizados em pequenos grupos erguendo a bandeira do Evangelho eterno, da vida e da libertação. Seguidores do Servo sofredor e do Profeta perseguido e ressuscitado a eles está confiado o futuro do Cristianismo, disseminado no mundo globalizado em redes de comunidades, enraizado nas distintas culturas locais e com os rostos dos seres humanos concretos. Deixando para trás a pretensão de excepionalidade que tantas separações trouxe, se associarão a outras igrejas, religiões e caminhos espirituais no esforço de manter viva a chama sagrada da espiritualidade presente em cada pessoa humana.
Dentro deste tipo comunional e de mútua aceitação das diferentes igrejas, a Teologia da Libertação terá um lugar natural. Ela recolherá reflexivamente os esforços dos cristãos pelo resgate da dignidade dos pobres e da dignidade e dos direitos da Terra e animará a caminhada da humanidade rumo a um mundo que ainda não conhecemos mas que cremos estar alinhado àquele que Jesus sonhou.
Então, Teologia da Libertação terá cumprido a sua missão. Comprenderá que no binômio Teologia da Libertação, o decisivo não é a Teologia mas a Libertação real e histórica, porque esta e não aquela é um dos bens do Reino de Deus.

Leonardo Boff
09 de agosto de 2011

Leonardo Boff, 1938, doutorado em teologia e filosofia, foi durante mais de 20 anos professor de teologia sistemática no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em várias universidades estrangeiras e galardoado com vários dr.h.c. Escreveu mais de 80 livros nas várias áreas teológicas e humanísticas e sempre se entendeu no âmbito da Teologia da Libertação.

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da-libertacao/



quinta-feira, 14 de julho de 2011

TdL em Mutirão 8

Entre os dias 16 e 17 de Julho de 2011, acontecerá em Ribeirão Cascalheira - MT, na Prelazia de São Félix do Araguaia, a ROMARIA DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA, como tema: TESTEMUNHAS DO REINO. A cada cinco anos, no mês de julho, milhares de pessoas se encontram em Ribeirão Cascalheira - MT, para realizar uma romaria dedicada à memória daqueles que foram mortos defendendo a vida. É um encontro que celebra causas: a indígena, a de negros e negras, mulheres marginalizadas, meninos e meninas de rua, dos operários. Os participantes da caminhada renovam seu compromisso com as lutas pela Vida e pela Justiça.


História da Romaria dos Mártires da Caminhada de Ribeirão Cascalheira- MT


Vindos de um encontro indigenista na área dos Tapirapés, o bispo de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, e o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier, coordenador-regional do Conselho Indigenista Missionário (CIMI/MT), desembarcam no povoado com a intenção de participar da festa em homenagem à padroeira. Informados da situação, seguem direto à delegacia para interceder pelas mulheres.
Santana e Margarida são respectivamente a nora e a irmã de um sitiante que, na defesa do próprio filho, atirou e matou um soldado da região. “O soldado tinha prometido matar o filho dele. Quando foi à fazenda cumprir a promessa, o velho já estava esperando e atirou. No dia seguinte, um grupo de dez militares veio atrás”.
Como não encontraram o autor do disparo, levaram presas as duas mulheres e iniciaram uma sessão de tortura para forçá-las a revelar seu paradeiro. “Elas foram forçadas a ajoelhar no milho, em tampas de garrafa, tiveram as unhas e o bico dos seios furado com agulha”, relata outra testemunha do episódio, Eva Domingues da Rocha.
Ao chegar à delegacia, Casaldáliga e Burnier encontram quatro soldados de prontidão. Eva, que mora nas proximidades do local, é capaz de ouvir quando o padre avisa aos militares que a situação será denunciada às autoridades em Cuiabá. A advertência, porém, não surte efeito algum.
Em vez disso, os policiais se mostram cada vez mais tensos e passam a chamar os religiosos de comunistas e subversivos. Dentre eles, quem decide tomar a iniciativa é o soldado Ezy Ramalho Feitosa, que ataca Burnier com um soco e, em seguida, desfere uma coronhada que o lança ao chão.
Depois, um tiro na cabeça. “Ouvimos tudo, sem poder mostrar reação”, lamenta o marido de Eva, José Carlos da Rocha, um dos primeiros a socorrer o padre em agonia. “Foi como se todo o povoado tivesse parado no tempo, sem saber para onde ir”.
A partir daí, o que se seguiu foi uma tentativa desesperada de salvar a vida do missionário. Atendido em condições precárias no próprio povoado, o padre foi levado em um avião monomotor até o Instituto Neurológico de Goiânia (GO), onde morreu, no dia seguinte.
Responsável pelo despertar, sete dias depois, de uma pequena revolução naquele distante povoado do Araguaia , a morte de Burnier ainda hoje é um dos mais fortes símbolos da luta travada entre os grandes grupos econômicos apoiados pela ditadura militar e os milhares de peões, índios e posseiros que insistiam em ficar e construir na região o seu futuro.
Simboliza também o destino de tantos outros que, no mais das vezes de forma anônima, perderam a vida em favor de quem menos podia. Desde a sexta-feira, no mesmo local onde Burnier foi assassinado, estes mártires são lembrados por milhares de romeiros, vindos de todas as partes de Mato Grosso, de vários estados do Brasil e até do exterior.
A Romaria dos Mártires da Caminhada - realizada em julho para facilitar a participação dos visitantes, jovens da cidade apresentaram uma peça teatral que reconstituiu o episódio trágico ocorrido há mais de três décadas.
“Essa é uma história passada de geração em geração em Ribeirão Cascalheira”.

TdL em Mutirão 7

Cidadania da juventude e espiritualidade


Mesmo que haja pessoas que ainda pensam que uma coisa nada tem a ver com a outra, todas as grandes e antigas tradições espirituais procuram ligar o céu com a terra; o caminho de auto-aperfeiçoamento com a missão de construirmos juntos um mundo mais justo e solidário. E a Bíblia chama especialmente as pessoas jovens para esta vocação. No primeiro testamento, quando quis solidificar a experiência do reinado, Deus chamou Davi, o mais jovem dos sete filhos de um pastor, para assumir o encargo de chefiar o povo. Desde então, o povo descobriu que Deus preferia jovens para cumprir as tarefas mais profundas de serviço ao povo. No Novo Testamento, Jesus declarou que o mais novo e o último seria o primeiro no reino de Deus.

De fato, o termo “cidadania” é novo e não aparece nos antigos livros sagrados. Entretanto, o que ele denota e a realidade para a qual aponta está presente sim como dignidade humana e responsabilidade de cada pessoa diante de si mesma, dos outros e do Espírito, Mãe da Vida e fonte de amor universal. O Budismo fala na vocação humana para a Compaixão como grande solidariedade. O Islã em ser dócil à misericórdia divina no trato com todas as criaturas. O Judaísmo fala de amor ao próximo e na construção de uma sociedade justa. O Cristianismo procura desenvolver isso como missão de testemunhar que somos todos e todas cidadãos do reinado divino no mundo.

Os antigos livros da Bíblia insistem que todo ser humano tem uma dignidade real. É como um povo de sacerdotes que representa Deus para o universo e, ao mesmo tempo, eleva toda criação até Deus. Os cristãos herdaram das escrituras judaicas esta noção de cidadania do reino. Jesus viveu em um mundo no qual a maioria do povo pobre era excluída da participação social e política. E como a sociedade era patriarcal, também os jovens eram excluídos. Conforme o evangelho de Mateus, a primeira palavra pública que ele pronuncia é justamente o anúncio de que os empobrecidos serão felizes porque terão plena cidadania no reinado divino neste mundo, os aflitos encontraram conforto, os sem-terra e sem teto possuirão toda a terra como herança (Mt 5). Ele mostrou sua predileção pelos pequenos que no seu tempo significavam os empobrecidos, mas também os jovens.

Muitas vezes na história, estas palavras de Jesus foram lidas e interpretadas como se ele dissessem: “aceitem sofrer e ser marginalizados neste mundo que eu lhes prometo a pátria celeste”. Entretanto, ele ensinou os discípulos e discípulas a pedir não para irem ao reino dos céus (como um grupo religioso que conheço costuma orar: Vamos ao vosso reino) e sim ele insistiu que pedíssemos: “Venha (para cá entre nós) o teu reino”. Esta é a tarefa de toda pessoa que busca uma verdadeira espiritualidade: saber-se cidadão do mundo inteiro, para lá dos nacionalismos e das divisões que se erguem entre nações e raças e, lutar pacificamente para que sejam respeitados os direitos de cidadania de todas as pessoas. Nos anos 70, no Centro-oeste, os lavradores costumavam cantar: “Queremos terra na terra. Já temos terra no céu”. Ser cidadãos do céu como diz Paulo na carta aos filipenses (Fl 3) nos garante o direito de ser plenamente cidadãos\ãs da terra.


Marcelo Barros

TdL em Mutirão 6

Bom viver para todo o mundo

 
Em julho, os povos indígenas da Ameríndia recordam a figura de Bartolomeu de las Casas, o primeiro bispo católico que ainda nos primeiros tempos da colonização assumiu o papel de defensor dos índios contra os conquistadores. Este primeiro bispo de Chiapas, no sul do México, faleceu no dia 17 de julho de 1586. Nos Andes, um encontro de povos indígenas propõe ao mundo que, para salvar o planeta Terra, a humanidade deveria aprender o Bom Viver como regra ética e critério de organização das sociedades. É o Suma Kwasay dos quétchuas, ou o “Suma Kamana” dos aymara. O povo Guarani o chama lekil Kuxlejal, sinônimo de “vida boa”. Significa o que hoje denominamos de “qualidade de vida” e o Evangelho chama de “Vida em plenitude” (Jo 10, 10).

O mundo capitalista sempre prometeu às pessoas a possibilidade de se viver melhor e fala em otimização da produção e do trabalho. Os povos tradicionais não querem apenas isso. Almejam transformar profundamente o modo de viver. Priorizam a sacralidade da vida humana e de todos os seres vivos. Compreendem isso como compromisso de viver de modo sadio, feliz e harmonioso consigo mesmo, com os outros humanos e com todos os seres vivos. Para os povos tradicionais, não é um ideal irrealizável e sim uma utopia possível que temos de construir.

Antigamente, nas comunidades andinas, o bom viver era um método de vida e espiritualidade social. Com a invasão da cultura individualista e do consumo, para que alcancemos novamente este ideal, precisamos nos apoiar em um conjunto de princípios, critérios e iniciativas como alternativas ao tipo de desenvolvimento que privilegia o econômico, sem levar em conta a dimensão humana, social e ecológica. A Bolívia e o Equador inscreveram o bom viver nas suas constituições, como objetivo do Estado. Nestes países, inúmeras conferências e congressos procuram aprofundar um conhecimento cultural das diversas tradições indígenas e garantir uma conduta ética e espiritual que fundamente uma sociedade dirigida à realização de cada pessoa na comunidade e, a partir do cuidado social, garanta o equilíbrio nas relações entre as pessoas, povos, assim como com a Mãe Terra e toda a natureza.

Na sociedade capitalista, o desenvolvimento dos países era calculado pelo Produto Interno Bruto (PIB). Na década de 90, o economista indiano Amartya Sem propôs como critério o “Índice de Desenvolvimento Humano”. Isso significa levar em conta não só o aspecto econômico, mas a saúde, educação e liberdade social de cada povo. Já em 1970, no Bustão, país pouco conhecido da Ásia, o príncipe Jigme Singye Wangchuck propôs como critério de classificação, não a produção econômica e o desenvolvimento social, mas o “Índice de Felicidade interna”, qualidade de vida digna, baseada nos princípios espirituais do Budismo. A questão é como avaliar o grau de felicidade de uma comunidade e das pessoas na sociedade. Uma ONG inglesa (Friends of the Earth) publicou uma série de itens para medir o grau de felicidade coletiva. Alguns destes elementos são: saúde, estabilidade social, possibilidade de vida familiar, condições saudáveis de trabalho, liberdade e lazer. No começo deste século, esta ONG elaborou uma pesquisa na qual, segmentos da população de vários países responderam a um questionário. Além disso, estas famílias foram visitadas por voluntários que também se pronunciaram sobre as condições de vida nestes países. Os povos que se destacaram pelo índice de felicidade foram pequenos países como Costa Rica, estado desmilitarizado e relativamente pobre, a Colômbia depois da pacificação de sua guerra civil e mesmo Cuba, vítima do bloqueio americano. O povo brasileiro foi considerado dos mais felizes, apesar de tantos problemas sociais e políticos que enfrentamos. Nenhum país rico do G8 aparece na lista dos mais felizes. Os Estados Unidos ocupam o posto 150, igual ao Zimbabue, país africano pobre e ainda imerso em conflitos raciais.

Apesar de que existem grupos religiosos capitalistas que fazem do lucro e da prosperidade econômica um sinal de bênção divina, as grandes tradições espirituais sempre chamaram as pessoas a valorizar mais o ser do que o ter. No evangelho de Mateus, em seu primeiro discurso público, Jesus proclama oito bênçãos, bem-aventuranças ou situações de felicidade (Mt 5, 1- 12) e no evangelho de João, ele afirma: “Eu vim ao mundo para que todas as pessoas tenham vida e vida em plenitude” (Jo 10, 10).

Marcelo Barros

TdL em Mutirão 5

O TREM DAS CEB’S


De algum tempo para cá, tornou-se comum falar de crise das Pastorais Sociais, dos Movimentos Populares e das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s). Crise que, em grau considerável, é ampliada às esquerdas em geral. Semelhante crise estaria vinculada, entre outros fatores, à perplexidade que, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, dominou não poucos agentes e lideranças das organizações da sociedade civil quanto ao desempenho do governo capitaneado pelos caciques do Partido dos Trabalhadores. O projeto popular teria sido abortado com os ajustes da própria vitória de Lula, diluindo-se num marasmo indefinido de apatia, falta de estímulo e descontentamento.

No caso das CEB’s, entretanto, a crise vem crescendo como cizânia no terreno de uma Instituição milenar que, segundo alguns, volta-se gradativamente para o interior de si mesma, preocupada menos com a “questão social”, tão cara aos principais documentos da Doutrina Social da Igreja, e mais para os problemas de caráter moral e/ou doutrinário, bem como para um espiritualismo estéril e avesso a qualquer tipo de compromisso social. A exterioridade dessa opção se reveste de um liturgismo fortemente ritualista e rigoroso. Também a preparação do próprio clero, no interior das casas de formação, estaria priorizando a função e a visibilidade do sacerdócio. De acordo com outras vozes, a crítica é ainda mais severa.

Nas últimas décadas estaríamos assistindo, na Igreja Católica, a um retorno “à grande disciplina” (JB Libânio), à sacristia, à concepção de uma rígida hierarquia. Neste caso, tratar-se-ia de uma verdadeira involução frente à postura dos anos de 1960-70, no enfrentamento da ditadura militar. Os chamados movimentos religiosos de matiz espiritualizante, espécie de pentecostalismo católico, avançam nas lacunas deixadas por uma ação social mais incisiva, transformadora, libertadora. Em contrapartida, tanto as CEBS’s quanto a Teologia da Libertação (TdL), teriam encolhido de tamanho, ousadia e visibilidade sociopolítica. Até mesmo a “opção preferencial pelos pobres”, ainda que reconhecida e apoiada pela Santa Sé, pelas cartas encíclicas papais e pelos documentos do Conselho Episcopal Latinoamericano (CELAM), parece sofrer de uma timidez irreconhecível, se levarmos em conta a firmeza, o engajamento e coragem das décadas passadas.

Os direitos humanos e os problemas socioeconômicos e político-culturais teriam passado, assim, a um segundo plano. Num universo cada vez mais marcado pelo pluralismo cultural e religioso, de uma parte, e de progressivo crescimento das Igrejas Pentecostais, de outra, a instituição católica trata de desenhar os contornos de sua identidade. O que a leva, por outro lado, a esforçar-se laboriosamente para uma maior incidência na sociedade civil e política. Aqui não faltam os extremistas para preconizar, alto e bom som, o surgimento de uma nova cristandade.

Neste quadro, convido os leitores a uma viagem no trem das CEB’s, metáfora que acompanha sua caminhada ao longo do percurso, cujos vagões representam, cada um, os grandes encontros nacionais e/ou regionais. No decurso de nossa viagem, somos igualmente convidados a uma parada para reflexão em cinco estações: origem, luz, projeto popular, vitória e esperança. Evidente que, através das janelas da composição, o horizonte se alargará para um panorama mais vasto, levando em consideração o contexto da sociedade moderna ou pós-moderna.



1. Estação da Origem

Na primeira estação, detemo-nos para refletir sobre a origem das Comunidades Eclesiais de Base. A meu ver, desde o início elas se erguem sobre quatro pés: o clamor dos oprimidos na América Latina, de maneira particular sob o peso das ditaduras militares, que leva a uma nova práxis cristã; a força da Palavra de Deus que joga nova luz sobre essa situação de pobreza e opressão, com a releitura do Livro do Êxodo e dos profetas, da prática de Jesus nos Evangelhos e de outras passagens bíblicas; o impulso dos documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, em especial a nova eclesiologia da Constituição Dogmática sobre a Igreja, a Lumem Getium, e abertura aos desafios modernos da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo de Hoje, a Gaudium et Spes; por fim, a reflexão crítica da Teologia da Libertação, como reinterpretação da prática libertadora. Como pano de fundo está a concepção de Igreja, não mais hierárquica, e sim como Povo de Deus. A pirâmide medieval desfaz-se em um círculo de igualdade. Nele, Cristo ao centro, toda a Igreja deve tornar-se ministerial e seus vários serviços não são maiores ou menores em grau, mas apenas diferentes. Evidente que há um longo caminho a percorrer para atingir esse ideal.

Nesse esquema, é notória a noção de círculo hermenêutico: a realidade iluminada pela Palavra de Deus desencadeia uma prática cristã de natureza transformadora; esta, retroagindo sobre os livros bíblicos, provoca uma nova interpretação, tanto de seu conteúdo como de seu contexto histórico; a reinterpretação dos textos sagrados, por sua vez, incide sobre a práxis libertadora, levando a comunidade a uma ação cada vez mais comprometida. O círculo cresce de forma dinâmica, dialética e espiral, conduzindo a uma ampliação de horizontes. Alargam-se, de um lado, as possibilidades de uma leitura contextualizada dos livros do Antigo e Novo Testamento e, de outro, as potencialidades de mudança nas diferentes ações sociais e políticas.

A esta altura, vale um alerta. Muitas vezes se pergunta como está a Teologia da Libertação. Como diria Gustavo Gutierrez (autor do livro Teologia da Libertação), o que importa não é tanto a teologia, e sim a libertação. De fato, a ação libertadora é que desencadeia a dialética do círculo virtuoso acima descrito. A teologia é um discurso segundo e isto em duplo sentido: por uma parte, ela deve contar com os instrumentos teóricos das ciências sociais, que a ajudam a ler o complexo pergaminho da história; por outra, ela é chamada a refletir a partir da nova prática dos cristãos frente aos desafios da realidade. Sobre esse duplo terreno, a teologia busca na Palavra de Deus, na Doutrina Social da Igreja e na tradição teológica os elementos para entender e, ao mesmo tempo, iluminar essa prática. Resulta, com isso, uma reiterada potencialização da ação transformadora. E esta, por seu turno, também interpela e amplia o raio de conhecimento teórico da própria teologia.

Nem precisaria acrescentar que semelhante prática cristã foi grandemente influenciada pelo método de alfabetização e educação de Paulo Freire. Também este parte da realidade, dela retira palavras-chaves do cotidiano das pessoas para desencadear o processo de aprendizado, que é igualmente o processo de libertação sociopolítica. Fundindo ambas as práticas, poder-se-ia parafrasear Paulo Freire dizendo que ninguém educa ninguém e tampouco liberta ninguém; as pessoas se educam e se libertam mutuamente. É preciso reconhecer que livros como Pedagogia do Oprimido e Educação para a Liberdade, ambos de Paulo Freire, marcaram decisivamente as comunidades cristãs que procuravam unir fé e vida.



2. Estação da Luz

É justamente o binômio “fé e vida” que nos leva à segunda estação, luz. A palavra remonta ao túnel escuro das ditaduras militares, seja no Cone Sul, seja nos países bolivarianos, sejam, enfim, na América Central e Caribe. Nesse período sombrio, de perseguição, tortura e morte, as CEB’s representaram uma pequena luz em meio à escuridão. Não poucos agentes e lideranças sociais, políticas e sindicais encontraram abrigo no grande “guarda-chuva” da Igreja Católica. Não toda a instituição, evidentemente, mas em seus setores mais progressistas, afinados quer com a eclesiologia do Concílio Ecumênico Vaticano II e os documentos do CELAM, quer com a crescente produção teórica vinculada à Teologia da Libertação.

Restringindo-nos ao Brasil, um grupo relativamente pequeno de bispos ditos “progressistas” conseguiu elaborar e publicar documentos de um caráter espantosamente profético. Ouvi os clamores do meu povo, originário do nordeste brasileiro, é um texto emblemático a este respeito. Fundamentava-se no capítulo três do Livro do Êxodo e, corajosamente, denunciava as injustiças sociopolíticas e anunciava a necessidade de mudanças urgentes, para a construção de “um novo céu e uma nova terra”. Sem estender em demasiado a lista das figuras mais proeminentes, a reflexão faz emergir os nomes de Dom Hélder Câmara, de Dom Paulo Evaristo Arns, de Dom Pedro Casaldáliga, entre tantos outros.

Mas, da mesma forma que na eclesiologia do Povo de Deus os bispos não constituem toda a Igreja, somam-se ao profetismo deles uma infinidade de sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, os quais contribuíram para o aprofundamento dessa prática libertadora à luz da Palavra de Deus. Frei Tito, Frei Betto e Vladimir Herzog, além de numerosos teólogos, sindicalistas, professores, jornalistas, catequistas e políticos, poderiam encabeçar um desfile de mártires que nos levaria muito longe. Isto para sequer falar dos outros mártires, anônimos e inteiramente desconhecidos. A interação permanente e recíproca entre CEB’s e TDL abriu horizontes mais largos para a participação dos cristãos nas transformações socioeconômicas e políticas. Desnecessário lembrar que a “opção preferencial pelos pobres”, numa fé compromissada com os direitos humanos e a construção de uma nova sociedade, vale dizer o Reino de Deus, ganhou uma relevância inédita e temerária para os “donos do poder”. Fé e vida, termos fortemente entrelaçados e se interpelando mutuamente, representaram a nova aurora da práxis cristã e libertadora.

Ao mesmo tempo refúgio, proteção e luz, a Igreja das CEB’s converte-se em terreno fértil para milhares de iniciativas populares em luta para melhorar as condições reais de vida e trabalho. Tome-se como exemplo a “operação periferia”, na qual o arcebispo Dom Paulo Evaristo, junto com agências co-financiadoras internacionais, ajudou na proliferação de centenas de comunidades pela periferia de São Paulo, então em franco e desordenado crescimento demográfico, devido, particularmente, à forte migração interna do nordeste para o sudeste.



3. Estação do Projeto Popular

O projeto popular para o país constitui nossa terceira estação. Nela, nossa parada será um pouco mais prolongada. Mesmo no interior do regime de exceção, as comunidades cristãs significaram, na década de 1970 e início de 80, um dos igarapés que haveriam de formar o grande rio do projeto alternativo para o Brasil. Elas se juntaram a outras forças vivas e ativas na sociedade brasileira, tais como os movimentos populares, sindicais e estudantis, entre outras organizações não governamentais. Subdividiremos este item em duas partes.

a) Três esboços de projeto

De acordo com alguns analistas políticos, com destaque para José Luiz Fiori, é possível identificar no cenário da política brasileira três projetos mais ou menos distintos. Não são três propostas definidas, explícitas, com fronteiras precisas. Mas três tendências de caráter político e econômico que emergem no decorrer das últimas décadas.

A primeira pode ser chamada de nacional conservadora. Pressupõe as riquezas naturais do Brasil, aliadas à experiência de um povo criativo e trabalhador. Conta com a possibilidade de construir um país autônomo, livre e soberano, mas sem mexer nas estruturas assimétricas e injustiças que datam dos tempos coloniais. Desenvolve um grande parque industrial, para fabricar os produtos até então importados, mas cria leis trabalhistas baseadas na Carta del Lavoro (Itália de Mussolini). Não seria, por exemplo, o projeto do Estado Novo, de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek?

A segunda tendência é batizada de nacional popular. Também esta supõe a riqueza do solo e do povo brasileiro, visando construir um país autônomo, livre e soberano. Ela tem raízes na resistência indígena, negra e popular dos séculos passados. Mas nas décadas de 1950 e 1960, ela ganha contornos mais definidos. Exemplos disso são as Ligas Camponesas, o método de educação de Paulo Freire; Brizola e João Goulart, apesar de suas contradições; a universidade brasileira, especialmente com Darcy Ribeiro; o movimento estudantil; a música popular e a arte, e assim por diante. Há uma cara indefinida de projeto popular, de matizes socialistas.

Surge então a terceira tendência, de corte liberal/neoliberal, que com o golpe de 1964, corta a cabeça do “projeto popular”. Os militares atrelam o país ao mercado financeiro internacional e iniciam o processo de endividamento externo. O Brasil torna-se satélite dos países centrais como grande fornecedor de matéria-prima. Também esta tendência tem raízes na época do capitalismo mercantil, com os chamados ciclos econômicos. Além dos militares, serão os presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso que levarão a cabo o “entreguismo brasileiro” mais descarado, através das privatizações e da abertura ao capital internacional.

b) Projeto popular

No início da década de 1970, o projeto de tendência popular começa novamente a levantar a cabeça. Vários igarapés surgem: comunidades eclesiais de Base (CEB’s), iluminadas pela Teologia da Libertação; movimentos populares, contra a carestia e a favor de outras reivindicações; sindicalismo combativo, movimentos estudantis e a contribuição de “intelectuais orgânicos” (expressão de Gramsci). Estes igarapés convergem para formar um grande rio que, nos primeiros anos de 1980 reúne todas essas águas para fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT).

Desde então, assistiremos ao embate político de dois projetos cada vez mais definidos. De um lado, o projeto neoliberal, que aborta o movimento das Diretas Já, e toma as rédeas do poder, ganhando seguidamente as eleições majoritárias; de outro lado, o projeto nacional popular que, desde 1982, inicia a disputa pelo poder a partir dos municípios, depois dos Estados e por fim, em 2002, chega ao Palácio do Planalto com a eleição inédita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula não é um meteoro, ou um aventureiro que aparece do nada. Sua trajetória tem raízes profundas nos movimentos sociais e nas organizações de base das quatro décadas precedentes ao pleito eleitoral que o levou à Presidência.

Se, nos anos de 1980, os movimentos e organizações sociais se consolidam e se fortalecem, nos anos 90, passam a um entrelaçamento inédito de parcerias, ou de redes. Contribuiu para isso as Semanas Sociais Brasileiras, o Grito dos Excluídos, a Campanha Jubileu Sul, a Consulta Popular, O Seminário e Tribunal da Dívida Externa – redes que se ampliam em nível nacional e internacional e que vão desaguar na organização dos Plebiscitos e nas Assembléias Populares. É neste contexto que Lula chega à cadeira presidencial.



4. Estação Vitória

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, esconde uma armadilha. Quando chega ao Planalto Central, três fatores fizeram o novo presidente dar as costas ao projeto popular e contentar-se com a administração do projeto neoliberal. Primeiramente, as expectativas levantadas na população, pela vitória de um presidente operário, estavam muito acima da capacidade organizativa e mobilizadora das forças sociais. Lula é um político nato, tem faro para captar a atmosfera e a correlação das forças em jogo. Em segundo lugar, percebendo essa disparidade entre expectativas e condições reais de ação política, estabelece uma aliança pela governabilidade não com as organizações que o elegeram, mas com os representantes do Brasil “terra de contrastes” (Roger Bastide). Semelhante pacto, num cenário de forças tão desiguais, acaba necessariamente por fortalecer o mais forte. Não se faz aliança entre tubarões e sardinhas. Por fim, vem a famigerada Carta ao Povo Brasileiro, endereçada à população deste país, mas dirigida ao capital financeiro internacional, no sentido de acalmar os ânimos exaltados. Em seu conteúdo, Lula garante manter todos os compromissos, isto é, não haverá calote! Os banqueiros, latifundiários, industriais... Enfim, as classes dominantes podiam dormir tranqüilas.

Em poucas palavras, a coligação liderada pelo PT ganhou o governo, mas não ganhou o Estado. O Estado brasileiro, com seus múltiplos órgãos e instâncias, histórica e estruturalmente mantém-se retrógrado ao extremo e avesso a qualquer tipo de mudança. O governo passa a ignorar essas forças, procura ganhar espaços no cenário internacional e entrega o controle do Banco Central a Henrique Meirelles, um dos grandes pivôs da política neoliberal. Ironia do destino, o governo do PT, criado no berço das organizações sociais, assume a ingrata tarefa de gerenciar a crise do neoliberalismo. Paralelamente a isso, nos eventos dos movimentos e organizações de base começa uma ladainha onde as palavras mais sublinhadas são: desilusão, desencanto, perplexidade, desestímulo, apatia, desmobilização, cooptação, indignação, entre tantas outras. Mais que um projeto de nação, prevalece um projeto de poder.

Para usar uma metáfora de Jean-Claude Guillebaud, se a nave Brasil foi colocada pelos governos anteriores no piloto automático do mercado global, o presidente Lula foi eleito para retomar o piloto manual e tentar uma guinada na direção das reformas básicas e urgentes, aspirações da população de baixa renda. As forças de direita não o permitiram fazer isso. Sobrou ao presidente eleito pouca margem de manobra. Por uma parte, cresciam os lucros do sistema financeiro e desenvolvia-se agronegócio, por outra, o governo procurava distribuir algumas migalhas aos pobres: bolsa-família e bolsa-escola, minha casa minha vida, crédito mais acessível, cotas nas universidades, aumento do salário mínimo, criação de novos empregos, entre outras. Trata-se aqui de políticas públicas ou políticas compensatórias? A pergunta remete a um debate nada ocioso nos dias atuais.



5. Estação Esperança

Paramos, finalmente, na quinta e última estação, a da esperança. Comecemos por retomar a ladainha da crise que se estabelece com a vitória de Lula e seu desempenho como presidente que, a partir da Senzala, alcança as salas da Casa Grande (para usar a consagrada expressão de Gilberto Freire). Seguem-se dois mandatos onde o modelo neoliberal não se altera, apesar de uma fatia um pouco menos magra para a população de baixa renda. Junto com esses anos, acumula-se certa amargura, perplexidade, desilusão, desencanto, indignação, apatia, entre tantos outros sentimentos adversos, explícitos ou implícitos. Os núcleos do PT, os movimentos e pastorais sociais e as organizações de base, para dizer o mínimo, assistem à desintegração do projeto popular. Consciente ou inconscientemente, segue-se, por parte do governo, a cooptação ou neutralização das energias de vanguarda.

a) Crise e encruzilhada

Se esse é o caso, por que estação da esperança? Porque toda crise é ambígua: tem seu lado negativo e seu lado positivo. Primeiro ela nos leva ao berço, ao muro das lamentações, ao “chororô”. Por mais crescidos que sejamos, carregamos uma saudade primordial do colo da mãe. Pelas minhas idas e vindas através do território nacional, entendo que já estamos superando o lado negativo da crise. Pouco a pouco, assamos a seu lado positivo, encaramos os desafios que estão pela frente. Aliás, após levar ao berço, a crise costuma deixar os fracos aí, numa lamentação saudosista e eterna, mas conduz os fortes a uma nova fronteira: é justamente a encruzilhada.

O conceito de encruzilhada é diferente da crise. Ela pressupõe bifurcação de alternativas e necessidade de escolha. Requer tomada de opções. O que nos dias de hoje nos ensina a encruzilhada? O que aprendemos? Basicamente que, além da via parlamentar, existem outras vias para a participação popular no processo político. Não podemos restringir nossa ação a um determinado partido, por mais avançado que seja. Aliás, nos países do ocidente democrático, em geral, a via parlamentar e uma “via para lamentar”! Sempre reconduz os poderosos ao poder, com se este tivesse cadeira cativa para uma minoria rica e dominante.

Aprendemos também que, do ponto de vista evangélico, o Reino de Deus não cabe em nenhum projeto político, em nenhuma formação social e histórica. Não cabe nos limites estreitos de uma classe, de uma coligação partidária de um projeto de nação. Menos ainda na inteligência, imaginação ou razão humana. Tampouco cabe nas estruturas da Igreja institucional. “O vento sopra onde quer”, diz o Evangelho. O Reino é uma instância evangélica que sempre nos interpela e nos chama a dar um passo à frente. O Espírito irrompe no mundo a partir do futuro, reabrindo toda e qualquer possibilidade histórica. Por isso é que cada ponto de chegada é um novo ponto de partida. “Deus não gosta dos que já chegaram” – diz o poeta – “nem dos que têm medo de partir; Deus gosta dos que estão a caminho”.

b) A semente

Convém concluir com uma das metáforas mais ricas de Jesus, a da semente. Esta contém várias lições para os dias que correm. Antes de tudo, encruzilhada é como um fosso na história, tempo de semear, não tanto de colher. E quem semeia nem sempre é quem colhe. Ao contrário, na imensa maioria dos casos, semeamos para que outros colham. Nós que estamos nesta sala já fizemos nossa colheita. Nossa tarefa agora é lançar a semente na terra.

Outra lição da semente. Lenta mas gradualmente, ela matura no silêncio escuro úmido e oculto da terra. Invisível e imperceptivelmente, cresce para baixo, antes de erguer-se para o sol, a luz e o céu. Cria raízes antes de tornar-se árvore e produzir folhas, flores e frutos. O mesmo ocorre com o projeto popular: primeiro ele mergulha suas raízes nas dores e esperanças, lutas e sonhos do povo, especialmente dos setores mais fragilizados da população, depois se ergue para o alto. Como a espiga, a flor e o edifício, ele se levanta a partir do chão. Mudança alguma vem de cima; antes, brota do solo da história, por mais árido que ele seja.

E aqui emerge outra lição da semente. Qualquer gesto, por menor e mais insignificante que seja, é fator de mudança na história. Um olhar, um sorriso, uma palavra, um toque, uma visita, uma presença, um telefonema, um e-mail... São gestos que custam muito pouco, mas fazem um bem que as palavras não bastam para definir. Diz o evangelista Lucas que Jesus passou pela vida “fazendo o bem”. Mas quando, na quinta-feira santa, às portas da morte, se depara diante do Pai, tem as mãos vazias. Ao lado, estão doze “gatos pingados” que logo o haverão de abandonar, trair, negar e fugir. Mas a semente não fora lançada em vão.

Nenhum gesto solidário se perde na história. Esta não avança de forma linear, mas através de mudanças mínimas e invisíveis, as quais vão acumulando forças para um salto qualitativo. A Revolução Industrial, a Revolução Francesa, o Concílio Vaticano II, a eleição de Lula... Embora em graus e campos distintos, são saltos qualitativos possibilitados por anos, décadas e até séculos de pequenas mudanças. São estas que acumulam as águas de uma represa capazes de gerar a energia suficiente para uma transformação mais substantiva e radical.

Por fim, a semente revela a esperança de que as mudanças não se realizam através de espetáculos. Estes, ao contrário, tendem a naturalizar as assimetrias e injustiças do cotidiano. Basta ver as manchetes da mídia: quando se espetaculariza uma notícia de extrema violência contra a mulher, por exemplo, a tendência do expectador é normalizar e cristalizar a violência diária, feita gota a gota, normalmente intra-familiar. Mas nem por isso menos perniciosa. Os espetáculos são como shows pirotécnicos: com a mesma velocidade que sobem e iluminam, descem e viram cinza. Ninguém garante a felicidade com os sucessos, pois estes são seguidos de freqüentes insucessos. A felicidade se constrói nas pequenas alegrias e doações do dia-a-dia.

No domingo costumamos presenciar algum espetáculo, cultural ou religioso. Mas todo o domingo tem sua segunda-feira, e então descobrimos que a cruz e o sofrimento precedem a ressurreição. Os espetáculos, além disso, nos levam a priorizar a pastoral dos eventos, em detrimento da pastoral do processo. Nada contra os eventos, desde que eles estejam conectados com uma rede capilar de organização de base, como são, de resto, os encontros nacionais de CEB’s. Os eventos, quando desconectados de uma ação responsável e contínua, como diz a própria palavra, nada mais são do que vento.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS [www.provinciasaopaulo.com]
(Assessoria à Assembleia das CEB’s, Arquidiocese de S. Paulo, 03/07/2011)