segunda-feira, 22 de agosto de 2011

TdL em Mutirão 16

A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E A CRISE DA NOSSA ÉPOCA


A Teologia da Libertação (=TdL) estaria em crise? Pelo que parece, sim. Os sinais são bastante claros: a TdL tem menos visibilidade, não faz mais notícia, publica menos e vende menos. E é menos tema de conversa. Para alguns não é mais assunto in mais sim out. Aliás, pergunta-se por todo o lado o que houve com ela: se hibernou ou se de fato não morreu.

 
Sem dúvida, há certo recuo de interesse por sua temática: compromisso social, opção pelos pobres, comunidades de base (=CEBs), mudança do sistema, injustiça estrutural e por aí afora. São questões que não têm a audiência de antes. Não dispõem do crédito anterior.

 
Os próprios militantes de frente na igreja mostram menos convicção e entusiasmo naquilo que pensam e fazem. Sem falar dos que desanimaram da luta e da "caminhada".

 
É o que parece. Não se deve porém tomar as correntes de um tempo por critério de valor e menos ainda por coisa definitiva. Isso vale, sobretudo, para as correntes da mídia, do mercado e da política. Muitas vezes se trata de movimentos que agitam a superfície da história, simples conjuntas, quando não meros modismos, e não correntes profundas.

 
TdL: o "espírito da coisa"

 
Aqui, precisamos ser claros. Que seja dito logo de entrada: a TdL não é um processo assim tão orgânico que possa ser colocado em crise de um momento para outro. Certo, a crise atual pode ser profunda, mas mais profundo é o fundamento da TdL.

 
Antes de refletir analiticamente como a TdL enfrenta a crise do momento atual, importa dizer como os teólogos a vivem. Pois, mais que ficar esmiuçando as razões da TdL, é preciso ver sua razão de fundo.

 
Nesse sentido, digamos de imediato que a TdL, mais que ser uma teoria é um "modo de teologizar". Antes de ser um método específico, é uma sensibilidade. Tonrou-se um hábito. É o jeito habitual de se fazer teologia na América Latina.

 
E isso não é o fato de um ou dois teólogos, ou mesmo de um grupo apenas. A TdL é coisa de toda uma corrente, para não dizer - como se verá logo - de toda a igreja. Por seu significado amplo, é um processo que tem tudo para ser qualificado de "histórico". E quando se diz TdL não se diz só teologia, diz-se catequese, liturgia, espiritualidade, vida consagrada, pastoral. Em suma, TdL é Igreja e é Povo - um tipo de ser igreja e uma forma de ser povo.

 
Como estilo próprio de fazer teologia, a TdL aborda qualquer problema que aparece pela frente numa determinada maneira, isto é, pensando em termos de povo, comunidade, participação, compromisso, transformação social. Quem acha que ela só pensa em política não captou o "espírito da coisa". Pois se pegar a TdL pelo seu lado certo, isto é, em sua fonte, o processo vivo, e não apenas em seus discursos, vai logo perceber que essa teologia pensa toda problemática do povo: a política e tudo o mais; tudo, mais a política.

 
Que aí entra a política e não certamente a conta-gotas, só pode ficar admirado quem não sabe como vive o povo e o quanto ele é vítima de um modo errado de organizar a sociedade. Mas não julgue que por isso o povo vai deixar de ser mais religioso, porque a síntese viva aqui desafia a análise abstrata.

 
Pois bem, quem tem experiência de povo e sabe o que o povo vive e sofre não tem outra alternativa teológica. É possível fazer responsavelmente outra teologia neste continente? A menos de fechar os olhos à realidade e fazer teologia para minorias. Mas teríamos outra coisa aqui que uma "teologia decondomínio"?

 
É, portanto, esta atitude de fundo, feita mais de espírito que de método, mais de vida que de teria, que "faz a diferença" entre a TdL e qualquer outra. por isso, esse jeito de fazer teologia está por demais arraigado, "naturalizado", para se considerar assim tão facilmente superado. E tem custado um preço por demais alto para ser assim tão rapidamente abandonado.

 
E ainda que o fosse, vá que os teólogos da libertação "tirem o time do campo", fica sempre a realidade nua e crua do povo gritando por uma TdL qualquer. Porque, enfim, teologizar essa realidade é preciso! A TdL é a teologia "necessária". Não há como escapar.

 
Mas, e a falência do socialismo real? E o ascenso do neoliberalismo? E o domínio da modernidade tecnológica? E o controle do Vaticano? A primeira reação é dizer: Danem-se! A realidade grita mais alto. A TdL é uma teologia imperativa. É o que tem que ser. E "o que tem que ser, tem força". Ou se imaginou que a TdL era só de brincadeira? Que não era para valer?

 
E partindo deste espírito que a TdL ataca todo o feixe dos problemas que estão hoje emergindo. Ela não tem uma agenda fechada. Pois se define como um modo de ver as coisas e não tanto por essa ou aquela temática.

 
Ora, a partir de suas bases, a TdL está se reformulando, ampliando dialeticamente suas grandes intuições, especialmente a dupla referência aos pobres e ao evangelho, e incorporando novas questões. Eis algumas tarefas que está levando em frente:

 
No nível metodológico , vai assumindo uma Mediação Sócio-Analítica mais plural, mesmo se o marxismo permanece como referência importante.

 
No nível eclesiológico, trabalha, em articulação com a problemática das Comunidades Eclesiais de Base e o "novo modo de ser igreja", questões como: religião popular, papel social e religioso das massas, realidade urbana, inculturação da fé, importância da mídia, lugar das novas classes médias, discernimento dos novos movimentos religiosos.

 
No nível político, revaloriza em novos termos a relação direta e imediata com os "excluídos" (caridade, assitência); dá lugar às alianças estratégicas com esquerdas e aos acordos táticos com direitas.

 
No nível da espiritualidade , passa a redescobrir a gratuidade da contemplação, pondo decididamente a "mística de Deus", como ponto de partida, polo dialético e centro para a "mística da luta".

 
Falando sem rodeios, a TdL é uma "teologia de coisas" e não apenas de idéias: ela faz da realidade vivida pelo Povo seu tema de reflexão.

 
Ora, uma vez que se captou qual é o "espírito" que anima, sustenta e garante TdL, pode-se examinar agora pacata e objetivamente como ela reage à crise que envolve tudo e todos.

 
Crise nas mediações, não nas raízes

 
Na análise da TdL e a crise, nossa posição é esta: se a crise toca essa teologia é no nível das mediações, não no nível das raízes. Expliquemos.

 
Quais são as raízes da TdL? Em síntese: a experiência de Deus no pobre. Analiticamente: sustentada inspiração evangélica e compromisso com o abandonado da sociedade. Ora, a crise atual não abalou estas duas convicções de fundo. E a TdL nasceu precisamente do encontro fé e opressão.

 
As questões históricas que levantou não foram de modo algum solucionadas. Longe disso. Antes, se transformaram e se agravaram: a miséria cresceu e tomou a forma de exclusão em massa. E com exclusão, a dialética senhor-escravo passou em segundo plano em favor de outra: a dialética integrado (embora dependente) e excluído. A perspectiva da igualdade está novamente distante e sua visibilidade histórica mais problemática. Portanto, a TdL, mais que há dez ou vinte anos atrás, continua "oportuna, útil e necessária", afirmava João Paulo II, aos bispos do Brasil (abril 1984).

 
Seja como for, a realidade do sofrimento social e da desigualdade assim como o desejo de mudar a sociedade e a vida são fenômenos estruturais. Continuam socialmente presentes e, embora reprimidos, pulsam com toda a sua incontestável urgência histórica. A crise atual não os resolveu, só mudou-lhes, para pior, o aspecto.

 
Certamente, as questões da fé e do pobre são objetivamente atingidas pela crise e necessitam de aprofundamento e de um novo equacionamento. Mas ao nível subjetivo , aquelas duas convicções continuam sendo, aos olhos dos teólogos da libertação, os pilares incontestes de seu discurso.

 
De resto, falando em geral, pode-se sustentar que, entre todos os grupos atingidos pela gigantesca crise cultural que estamos vivendo, os militantes de igreja não se encontram em condições mais desavantajosas que os outros. Não se sentem em absoluto desarvorados. Ao contrário, dispõem de recursos que nem toda a esquerda tem: uma sólida referência religiosa e uma sustentada vinculação com os pobres, sem falar no apoio em uma instituição - a igreja - que possui lá sua vitalidade e crédito sociais.

 
Quanto às mediações concretas da TdL, ou seja, às formas específicas que podem assumir a dupla referência acima (a fé evangélica e solidariedade com o oprimido), aí sim há muito que rever e muito que mudar.

 
Efetivamente, a crise atual trouxe para a TdL a necessária relativização de muitos pontos de vista. Ela purificou-a de alguns equívocos. Constitui, assim, para ela um exercício de despojamento.

 
Ao nível de suas mediações, muitas certezas falsas foram para o chão. Essas certezas se situavam a um tríplice nível: (1) certezas de análise sobre o que era o sistema social (capitalista); (2) certezas sobre o projeto histórico de sociedade, de como devia ser o sistema (socialista) alternativo; (3) certezas sobre as estratégias corretas (de classe e revolucionárias) para se chegar a encarnar a utopia.

 
A TdL tornou-se mais humildade e transigente. Passa a perceber a realidade de modo mais vário e complexo. Faz-se sensível à parte de verdade que está nas outras propostas, tidas outrora com pouco sem-cerimônia como "alienadas" ou coisa "fora da linha certa".

 
Por outro lado, a crise não deixou de fortalecer a TdL em suas raízes. Essencializou-a seus príncípios básicos. Operou nela uma concentração em torno de suas convicções de fundo: a fé bíblica e a opção pelos pobres. Disso, em verdade, não há como arredar pé. Antes pelo contrário: é só firmando-se aí que a TdL tem condições de enfrentar a crise e propor saídas criativas.

 
Agora, se examinarmos porque a TdL hoje adota um "perfil baixo", podemos identificar três circunstâncias responsáveis, de peso e de valor desiguais: (1) a incorporação da temática da TdL pela Igreja Institucional em seu discurso oficial, (2) a dominância da ideologia neoliberal no atual debate social; (3) o deslocamento da relevância social para a questão do "sagrado".

 
1 - TdL: uma "teologia difusa"

 
Umas das razões por que se fala menos da TdL é que, em boa parte, esta teologia já foi incorporada pela Igreja Institucional. Isso é bom. E, no fim das contas, um ganho. Fala-se menos e faz-se mais TdL.

 
Há quem se tenha surpreendido (L. Sartori) com a rapidez com que Roma assumiu o melhor desta teologia. Bastaram quinze anos: da publicação do livro "Teologia da Libertação " de Gutiérrez em 1971 à instrução romana " Libertatis Conscientiae" em 1986. Ou se pensa que Roma se move por bagatelas?

 
Efetivamente, as bandeiras principais da TdL, que são, a nosso ver, a opção pelos pobres, dimensão sócio-libertadora da fé e a constituição de comunidades populares (CEBs), não são mais só dela. Pertencem à igreja como um todo. Assim também, as idéias de "pecado social", de "conscientização", de "missão profética", de "transformação das estruturas" e outras mais já circulam com mais naturalidade dentro da área eclesial. Nesse sentido, a TdL enriqueceu realmente a consciência social da Grande Igreja.

 
Circula no grande público uma visão equivocada segundo a qual a TdL teria sido "condenada" pelo Vaticano. A verdade é o contrário: como proposta teológica nova, ela foi substancialmente legitimada. Sim, foram-lhe feitas duas reservas sérias: o uso perigoso do marxismo e o risco da redução da fé à política. Mas a mídia insistiu tanto nessas reservas que o público acabou vendo a TdL reduzida a isso e portanto colocada globalmente sob suspeita. Contudo, falando jornalisticamente, o Vaticano aprovou a TdL: se não deu nota 10, ao menos nota 7.

 
A verdade é que existe hoje uma TdL em estado difuso no corpo de toda a Igreja. É como um cubo de açucar que se diluiu no café. Como corrente específica, não se recorta mais, no panorama eclesial, com os contornos claros de antes. Os teológos da libertação não fazem mais a figura de "blocos" de antes. Tome-se a associação dos teológos brasileiros, a SOTER. É difícil dizer quem é e quem não é aí dentro "teólogo da libertação". E, no entanto, o fermento "libertacionista" vigora com força nessa organização.

 
Esse fato possui um lado inegavelmente positivo. Pois não era esse mesmo o destino da TdL, destino esse inscrito em sua própria origem? Não queria representar toda a mensagem da fé, ainda que numa perspectiva particular, como aliás, acontece com toda teologia? Não entendia ser uma teologia "substancial", sem acréscimo? A TdL não pode ser uma teologia à parte ou de parte. Se assim apareceu num primeiro momento, foi para fermentar toda a teologia e toda a igreja e em seguida poder retirar-se.

 
Poder-se-ia objetar que a relativa "recuperação" do discurso libertador pela oficialidade representa uma "vitória de Jonas": a TdL teria sido engolida pela instituição. Mas, como observou com perspicácia o demitido vice-diretor do "Osservatore Romano", Virgilio Levi, talvez tenha sido justamente assim que ela foi salva da marginalização e até do esmagamento de que estava ameaçada pelas forças mais reacionárias da Igreja e da Sociedade.

 
Certo, se por um lado as grandes intuições da TdL tiveram relativa "recepção" no seio da grande Igreja, é preciso também dar-se conta de que elas não mantém aí o mesmo vigor profético e evangélico das origens. Seu mordente acha-se aí naturalmente enfraquecido e relativizado.

 
Pois a assimilação de um discurso "profético" ou "revolucionário" por uma instituição qualquer (religião ou partido) não leva necessariamente a uma redução de seu vigor originário? Não é o preço a pagar para que esse discurso ganhe, via instituição, amplitude social e continuidade histórica?

 
No caso da instituição católica deve-se levar em conta ainda um agravante: sua conjuntura interna inegavelmente restauradora. Basta lembrar o que foi Santo Domingo, o Sínodo Africano, qual é o perfil dos bispos nomeadosdurante este pontificado e toda a série de documentos "normatizadores" recentemente publicados pelo vaticano.

 
Todavia, apesar de sua centralização, não falta à igreja, para fora, certa capacidade de intervenção crítica. E só lembrar o papel exercido pela Igreja (leia papado) na derrubada das ditaduras no Sul e dos regimes totalitários do Leste. Mais: em várias igrejas locais e mesmo regionais, as propostas de uma teologia libertadora foram assimiladas de modo ainda mais extenso e profundo, como, por exemplo, no Brasil.

 
Pois bem, na medida em que a dimensão sócio-libertadora da fé se torna nas igrejas o "discurso normal", a TdL de certo modo recua para o fundo. É o precursor frente ao Messias, afirmando: "Importa que ele cresca e que eu diminua".

 
Mas ter-se-ia deste modo esgotado a força da TdL? Teria ela preenchido sua função histórica? De modo algum. A assimilação do discurso do compromisso social pelas comunidades cristãs tem pela frente ainda um longo caminho. Por isso, a TdL mantém sua vigência, inclusive como movimento específico na Igreja. Todavia, a questão não é tanto salvar a TdL como discurso específico, mas aquilo para o qual ela aponta e que concerne toda a Igreja: o compromisso político da fé, a causa do oprimido e a constituição de uma igreja de participação e engajamento.

 
Efetivamente, a TdL se situa no seio da eclesialidade. E aí dentro ela faz o papel de uma "corrente de opinião", que busca sensibilizar o conjunto da igreja para a questão específica da justiça social do ponto de vista dos pobres. Se neste sentido ela ainda aparece como uma teologia "de parte" (não à parte) é precisamente in partibus pauperum. Nada há aqui de sectarismo, porque a parte que ela defende vem sempre situada dentro do todo e em função do todo; e também porque essa "parte" é, do ponto de vista social, a maior e a "preferida" do ponto de vista teológico.

 
Mas, como dissemos, essa "parcialidade" da TdL é hoje menos aparente, porque boa parte da TdL já está integrada, como devido, no todo do discurso institucional.

 
Contudo, em relação à Igreja institucional, fica para a TdL um problema imenso: é "novo modo de ser igreja", um "novo modo" não apenas como simples inspiração e realização setorial, mas enquanto feito nova institucionalidade através de estruturas de efetiva "comunhão e participação", coisa que alguns preferem chamar "democracia eclesial".

 
A TdL tem aí um dos seus imensos desafios históricos. Desafio esse ligado à sua dupla referência fundante, pois as perguntas que estão por trás são: Que tipo de igreja responde concretamente ao projeto de Jesus? E que tipo de igreja serve efetivamente aos pobres?

 
Não vai longe, em seu testemunho público, um Cristianismo que deixa intocado o atual sistema autoritário de igreja, como não vai longe em sua eficácia histórica, uma opção pelos pobres levada em frente por uma instituição paternalista.

 
Sem dúvida, as CEBs são, nos fatos, "células eclesiais iniciais", como queria Medellín. Mas quantos anos ou "semanas de anos" são ainda precisos para que toda a Igreja institucional se deixe fermentar pelo que elas representam?

 
2 - A gritaria neoliberal

 
Que o neoliberalismo avance e os movimentos de mudanças recuem, isso constitui na verdade o efeito duplo da mesma dialética histórica.

 
Como são ainda audíveis as vozes e clamores dos excluídos nessa verdadeira "gritaria de mercado" em que se reduziu o discurso do mercado? Os assuntos in hoje são: tecnologia, modernização, planetarização, inserção no mercado mundial, desregulamentação, privatização, ajustes estruturais, volatilização do capital, competitividade, flexibilidade do mercado e assim por diante.

 
Até há poucos anos podia-se dizer que, em geral, o discurso "de esquerda", para usar uma distinção de Gramsci, se não era o discurso dominante, era pelos menos o discurso hegemônico. Era o discurso mais dinâmico e criativo no campo cultural. Era por isso também o discurso mais temido no mundo político e mais respeitado na área acadêmica.

 
No que toca à TdL podia-se dizer que na Igreja da América Latina como um todo, era a teologia "hegemônica": ela dava a direção moral e intelectual à caminhada pastoral das igrejas. Ela estabelecia a agenda do debate eclesial, como se viu deste Medellín (1968), passando por Puebla (1979) até os meados dos anos 80. Desde então, em virtude da conjugação de fatores sociais (crise do "socialismo real") e de fatores eclesiais, ("restauração católica"), começou a perder terreno, até se encontrar no ponto que hoje se encontra e que estamos por ora analisando.

 
O certo é que a crise que afeta a TdL não é exclusiva dela. É antes uma crise que envolve todas as forças de esquerda (sindicais, partidárias, populares, etc.) no mundo moderno depois da "queda do muro de Berlim" (1989).

 
Esclarecemos que por "forças de esquerda" entendemos aqui as que se distinguem: (1) por buscarem antes de tudo a superação da miséria das grandes massas (questão da igualdade social ); e (2) por acreditarem na possibilidade de um projeto alternativo ao atual sistema capitalista (questão do socialismo). A quesão da revolução como estratégia, entendida em termos de ruptura pontual, e a questão do internacionalismo não parecem constituir características próprias da "esquerda moderna".

 
Não que a "esquerda" esteja estagnada ou indo para trás. Não. Ela segue em frente. Mas avança mais devagar que no passado recente.

 
Expliquemos. Que a "esquerda", pelo menos no Brasil, continue a tocar em frente, basta ver, por exemplo, o avanço parlamentar do PT, algumas lutas sindicais bem sucedidas, os novos movimentos populares, sem falar na máscara social-democrata que a direita viu-se obrigada a envergar, na pessoa do novo presidente Fernando Henrique Cardoso, para se fazer creditar junto ao eleitorado. Por outro lado, é também verdade: a "esquerda" anda mais devagar que nos anos recentes. Dito numa palavra: desacelerou.

 
Algo disso vale também para os teólogos da libertação. Continuam dando suas aulas na perspectiva global da transformação social; seguem pesquisando, abrindo novas frentes de discussão, sempre dentro da "ótica da libertação": a inculturação, a espiritualidade, a feminino, a modernidade a partir das vítimas, a ecologia, etc.; continuam escrevendo, publicando. Mas não há dúvida: se o fogo não apagou, o gás certamente baixou. Também, com a investida maciça e sem freios do neoliberalismo e açambarcante refluxo católico, pode-se esperar mais?

 
Todavia, como aventam alguns, o neoliberalismo não perde por esperar. Pois não é uma fatalidade que continue a dominar, triunfante, de modo indefinido. É, ao contrário, muito provável que contra ele se prepare uma reação .vigorosa e ainda mais profunda e plural que no passado, reação no seio da qual o Cristianismo há de ter um papel não desprezível. E nesse frente cabe à TdL tomar o lugar que lhe compete.

 
3 - A relevância epocal da questão do "misticismo"

 
Por fim, a crise desse final de milênio toca a TdL não só, como vimos, pelo fato de ser "de libertação", mas também e, talvez mais ainda, pelo fato de ser em sua base "teologia". Como assim?

 
É que a crise epocal não se dá apenas ao nível do compromisso sócio-político. Não é apenas crise de sociedade. É crise de civilização: crise de valores e de sentido. Entre as necessidades que "doem" hoje na alma dos "modernos" não se contam apenas as necessidades materiais, mas também as "não-materiais": carência de perspectiva, de idealidade e de esperança. Para que serve uma "vida" sem vitalidade? Poucos como Saint-Exupéry exprimiram de modo mais enfático a necessidade que devora o nosso tempo de dar um "sentido à vida".

 
Que significa isso para a TdL? Significa que não é apenas a fé libertadora, mas a fé como tal , como fonte de sentido, que há de ser retomada e consolidada. Aos olhos da fé cristã, que a "memória dos pobres" se perca é dramático, mas sempre resta uma esperança, ainda que extrema - a escatológica; mas que a "memória do divino" desapareça é muito pior: é trágico. Aí a história toda se torna, no final de contas, opaca, aporética, absurda. E então, como viu muito bem Nietzsche, se profila no horizonte o abismo sinistro do nihilismo. Se não se responde à pergunta "para que, finalmente?", a própria luta histórica por uma sociedade melhor é posta em causa e, faltando-lhe a esperança, perde sua força propulsiva.

 
A teologia tem pela frente não só a questão da miséria material, mas também a da miséria existencial e espiritual do mundo moderno. Ela não é só chamada a ser profética, mas também kerigmática. As demandas que lhe são dirigidas não são apenas por pão, mas também por sentido. A isso a Bíblia chama antonomasticamente "Palavra" e diz que disso também vivem os humanos!

 
Isso significa que a teologia é chamada não só a ser libertadora, mas também a afirmar sua específica teologicidade. São suas bases que devem ser renovadas e de novo garantidas.

 
A primeira TdL (dos anos 70), aquela dos "Pais fundadores", possuía os princípios primeiros (as verdades da fé) como pontos de partida. Ela arrancava da fé cristã do "povo" como de pressupostos assegurados. Mas pelos meados de 80, esses pressupostos evidenciavam uma perda crescente de sua "plausibilidade" social. Já nos anos 90, mostravam claramente a necessidade pastoral de serem revistos, pastoralmente repostos e teologicamente refundados.

 
Como testemunhas da época, observem-se os jovens dos anos 90, como são e que pensam: neles a tradição da fé já não funciona por vias da tradição cultural. O mundo moderno não lhes aparece apenas injusto, mas também sem-sentido. Em nome de que mudar as estruturas, se a vida mesma não vale a pena? Não suceda que enquanto os teólogos continuam indo para o social, boa parte dos jovens esteja voltando, em busca de "outra coisa", de "algo a mais". O que é finalmente relevante hoje? Não se dá atualmente um deslocamento das relevâncias?

 
Certamente, a fé cristã nunca foi totalmente funcional a qualquer cultura ou sociedade. A fé é essencialmente crítica já ao nível antropológico-existencial, justamente porque ela põe em crise o destino do humano, confrontando-o com o Mistério transcendente. Por isso será, em princípio, disfuncional ao sistema do mundo. Mas na sociedade moderna, secularizada e pluralista, a criticidade intrínseca da fé se duplica em criticidade histórica e cultural.

 
O que há é um deslocamento da problemática histórica. O acento passa da libertação social para a do sentido espiritual da vida, de tal modo que esta se torna uma questão vital e prioritária. E isso não apenas para os "indivíduos", mas para amplos setores da sociedade, mesmo se não é propriamente problema social (para retomar uma distinção clássica).

 
Poder-se-ia pensar que a aguda "situação espiritual" do mundo moderno não passa de uma "onda" do momento, a qual deverá refluir dentro de poucos anos, talvez depois que o novo milênio se normalizar. Mas é difícil que a coisa vá por ai, pois o fenômeno é por demais vasto e agudo para constituir mera conjuntura passageira.

 
A problemática moderna (ou pós-moderna?) da "busca de sentido", da "sede de sagrado", da "fome de transcendência" ou como se queira chamá-la, está recebendo os mais variados tipos de respostas. Da parte da Igreja católica, temos a "Nova Evangelização", lançada pelo pontificado atual e assumida também por Santo Domingo. Temos também os "Movimentos" de renovação católica. Fora do Catolicismo se conhecem outras respostas, como os "novos movimentos religiosos" (seja os grupos neo-gnósticos nos meios de classe média, como as chamadas "seitas" junto às classes populares), os movimentos fundamentalistas e outros.

 
Ora, a problemática do depauperamento espiritual, produzido pelo "desencantamento do mundo", via racionalidade técnico-científica, não foi advertida pela TdL com a velocidade e a acuidade com que o foi pela igreja institucional e pelos "movimentos" leigos.

 
Mas podia a TdL, a partir de sua ótica própria, ter percebido isso? Tinha ela olhos pra ver? E mesmo se a evangelização se impõe à responsabilidade missionária da Comunidade eclesial, podia ela entrar na agenda da TdL?

 
Como não? E isso pelo simples fato de que a TdL é e só pode ser teologia, e teologia integral. Nela a opressão/libertação nunca foi um sistema mas uma dimensão, ainda que a mais urgente. Ela sempre se articulou com a totalidade da fé em sua transcendência. Hoje, ela se dá melhor conta da distinção, teologicamente irrespondível, entre a "libertação soteriológica" e a "libertação ético-social" e do primado axiológico da primeira sobre a segunda.

 
A dimensão espiritual tem sem teologia uma primazia axiomática. É coisa que a TdL professou mas que nem sempre conseguiu transformar em efetiva regra de construção teórica. Sim, os princípios próprios da TdL como teologia específica são "princípios segundos". Repousam sobre os "princípios primeiros" de toda teologia. Ora, esses são os da fé originária (apostólica) e comum (católica).

 
Agora, se a dimensão "mística" da fé parece hoje tomar a dianteira sobre a dimensão "política", seria um engano só por isso considerar superada a TdL enquanto corrente específica. Ela conserva a impreterível tarefa de garantir estas duas coisas: que a fé cristã permaneça voltada, por exigência intrínseca, à "questão do pobre" e que a solidariedade com o pobre fique, na igreja, firmemente ancorada às bases de fé e, na sociedade, aberta à questão religiosa.

 
Nessa ótica, a questão da transformação social não perde relevo em proveito da preocupação "religiosa", como poderia parecer à primeira vista, mas antes é elevada à sua dimensão mais alta, que é também a dimensão originária e definitiva.

 
Por certo, as duas grandes questões evocadas, respectivamente ético-social e religioso-metafísica, estão de tal modo ligadas que uma não se resolve a contento sem a outra. A história recente é nisso instrutiva.

 
Mas, ficando dentro da perspectiva sociológica, não seria a "problemática do sentido" uma problemática típica das classes "privilegiadas" (Max Weber)? É verdade, mas é também verdade que não é exclusiva delas. E isso não só pela influência socializadora da mídia, instrumento privilegiado da mentalidade classe-média, mas por causa da cultura racionalizadora moderna que envolve a todos, ricos e pobres, e que suscita em todos a busca da "outra dimensão".

 
E nem falemos da dimensão filosófico-antropológica da questão. A menos que se creia que os pobres não sejam "gente". Não é também para serem reconhecidos como "gente", mesmo se é pelo viés da solução das "necessidades imediatas", que os excluídos frenqüentam as chamadas "seitas"? Ou se acredita que os pobres se fazem "crentes" apenas por efeito do abandono social, sem outros ideais mais elevados?

 
Mas, então, com a onda atual de misticismo fica superada a questão da justiça social? Como? Essa não é uma questão teórica que se possa eludir a bel prazer; é antes um problema prático que se impõe com a objetividade de uma montanha. É a montanha dos 80% do planeta - o Sul - que só dispõe dos 20% da renda mundial. Esta disparidade proíbe qualquer consciência tranqüila e qualquer ordem mundial segura. E não tem misticismo algum, ainda que ajudado pelo neoliberalismo, que consiga esconder esse escândalo que brada aos céus.

 
Frente ao mudado cenário tanto da fé quanto da política, é dever da TdL repor a relação fé-política em novos termos. Tudo indica que a fé, como sempre política, tenderá a sê-lo em menor medida, por entender enfatizar com maior vigor sua autonomia específica. Quanto à política, tenderá a ser mais vulnerável à penetração da religião, com o perigo de sua "colonização" sob a forma da integralismo político. Na verdade, hoje o indicador "política" baixa, enquanto que o da "fé" sobe.

 
Flexibilidade em ajustar-se à nova situação

 
Em relação aos novos desafios, os teólogos da libertação não pensam que se trate simplesmente de "pegar ou largar". Nada de endurecer-se nas velhas posições, nem de entrar na nova onda. O importante é sempre discernir. Para isso, ajuda a distinção prática, tomada de empréstimo aos pós-modernos (valha esse recurso), entre "pensamento forte" e "pensamento fraco".

 
Cumpre-nos manter uma "pensamento forte" frente às convicções de fundo, às intuições originais. Isso tudo é da ordem do irrenunciável porque se refere à própria identidade e, por isso, é também inegociável. É a parte relativa aos princípios específicos da TdL, mas também e, sobretudo, aos princípios gerais da fé, nos quais TdL está e só pode estar assentada.

 
É adotar um "pensamento fraco" no que concerne às questões secundárias e relativas, como as referentes às "mediações teóricas da TdL, tais as análises, estratégias e projetos concretos. É especialmente nesse campo que os teólogos da libertação estão prontos a incorporar elementos novos, sejam eles metodológicos, éticos ou espirituais; aprender das outras correntes, para além de todas as cercas de escola, confissão e partido.

 
O que importa hoje à TdL é ser pluralista, relativizante (não relativista) e aberta a toda forma de diálogo. Busca ganhar em tolerância, deixando de lado toda forma de intransigência, de espírito sectário e de purismo. Entende que é necessário ser capaz de negociar e aliar-se o quanto seja possível, seja que se trate de fazer a "análise" da sociedade, de organizar as "estratégias" ou de elaborar "projetos" específicos da sociedade.

 
Deste modo, o que ela quer é evitar as tentações extremas que a situação de crise provoca: o dogmatismo e o relativismo.

 
O perigo maior atualmente é o relativismo. Este segue a lei do "tudo vale". Mas então se passa facilmente ao "vale tudo". Nesse caso, Sartre tem razão: "Dirigir um império ou embebedar-se é a mesma coisa". Ora, frente ao relativismo rampante impõe-se não abandonar as convicções centrais de que acima se falou.

 
O relativismo moderno chama à baila a "filosofia" da moda: o pós-moderno. Esse se apresenta como o pensamento da diferença, do fragmento, do simulacro, do que não tem fundamento nem finalidade. Mas como deixar-se seduzir por um pensar que renunciou à busca da verdade e se crê incapaz de qualquer totalidade? Pois, quando o pensamento frente às "questões fortes" se faz "pensamento fraco", então já não merece outro nome que o de "pensamento covarde". Esta aí um claro sinal da decadência de uma cultura, de uma filosofia de baixo-império.

 
Mas é preciso também guardar-se do segundo perigo, o dogmatismo, ao qual nem sempre se tem resistido. Impossível tratar tudo na base do "pensamento forte". Isso leva ao integrismo, ao fundamentalismo e à alienação da história profunda. Fica-se, então, falando sozinho ou entre pares. É o enrijecimento mental, fruto do medo.

 
É, pois, nessa dialética entre um "núcleo" de algumas poucas convicções firmes e uma "margem" de muitas posições relativas que há de estar o segredo para se mover com sucesso dentro da atual crise de época. É a média áurea, que permite mudar, ficando-se, contudo, substancialmente fiel a si mesmo.

 
Frei Clodovis Boff é teólogo católico e um dos principais teóricos da Teologia da Libertação na América Latina.

FONTE: Agenda Latinoamericana: http://servicioskoinonia.org/

TdL em Mutirão 15

A OPÇÃO PELOS POBRES É OPÇÃO PELA JUSTIÇA, E NÃO É PREFERENCIAL - PARA UM REENQUADRAMENTO TEOLÓGICO-SISTEMÁTICO DA OPÇÃO PELOS POBRES


Situação da questão



Sempre dissemos que a Opção pelos Pobres fundamenta-se em Deus mesmo, no ser de Deus, e tem, portanto, natureza “teocêntrica”[1] : De certa maneira, podemos dizer que Deus mesmo faz opção pelos pobres, Deus “é” opção pelos pobres. Era um consenso universalmente sentido que esta Opção pelos Pobres baseava-se precisamente no Amor-Justiça do Deus bíblico e cristão[2].



Entretanto, com o advento da “crise da Teologia da Libertação”, alguns autores suavizaram seu discurso sobre a Opção pelos Pobres, preferindo abandonar a perspectiva do Amor-Justiça[3], substituindo-a quase completamente pela da “gratuidade” de Deus como fundamento da Opção pelos Pobres. Neste novo posicionamento, Deus, simplesmente “prefere” os pobres, tem uma “fraqueza” misericordiosa, uma “ternura” incontida para com eles, e não se deverai buscar muitas razões para esse fato, precisamente porque é “gratuito”.



A Opção pelos Pobres resultaria ser uma espécie de “capricho” de Deus com relação aos “pequenos”, aos “fracos”, aos “insignificantes”. É destes que hoje se deveria falar, e já não mais dos “pobres” no sentido forte[4] do discurso clássico, o qual hoje estaria já ultrapassado. A própria teologia da Opção pelos Pobres deveria desvincular-se do tema forte da justiça e ser adjudicada ao tema suave da gratuidade.



Minha tese é que este deslocamento do acento da Justiça para a Gratuidade de Deus como fundamento da Opção pelos Pobres deteriora e finalmente faz uso indevido dessa opção – consciente ou inconscientemente –, ao convertê-la em uma simples “preferência”, em um “amor preferencial”, uma simples prioridade de ordem na caridade[5], deixando de ser uma verdadeira “opção”, uma tomada de partido disjuntiva e excludente, como uma opção fundamental, fundada para nós na própria natureza de Deus.



Não nego que tenha algum sentido afirmar que “Deus tem uma preferência gratuita pelos pequenos e pelos fracos”; mas sustento que tal “preferência” não pode ser identificada, em um sentido preciso, com a Opção pelos Pobres, nem muito menos pode ser posta como fundamento da mesma. Confundir a Opção pelos Pobres com essa “preferência de Deus para com os pequenos e fracos”, ou com o assim chamado “amor preferencial pelos pobres”, e aplicar-lhe o mesmo nome de Opção pelos Pobres, é ser vítima da confusão, ou ceder diante da estratégia de quem tentou re-significar e ocupar o termo Opção pelos Pobres para despojá-lo de seu conteúdo próprio. A Opção pelos Pobres original e clássica latino-americana, a típica da teologia e da espiritualidade da libertação, a Opção pelos Pobres pela qual morreram nossos/as mártires, e que também nós consideramos “firme e irrevogável”, é outra, e deve ser diferenciada de qualquer sucedâneo. Uma fidelidade valente e lúcida deve refutar consciente e expliticamente esta pretensa fundamentação da Opção pelos Pobres na “gratuidade” de Deus. É o que quero ajudar a esclarecer. Para tanto, nada melhor que tratar de reajustar sistematicamente a própria natureza da Opção pelos Pobres.

 
Primeira tese: em sentido estrito, Deus ama sem preferências nem discriminações.



Afirmar o contrário seria, em boa parte, um antropomorfismo. Deus ama a todos/as igualmente, com um amor tão peculiar para cada pessoa, e ao mesmo tempo tão infinito, que não há possibilidade de quantificações nem de comparações nesse amor. Toda pessoa pode sentir-se amada infinitamente por Deus, e ninguém deve sentir-se “preferido” ou discriminado, nem positiva nem negativamente. Não é possível falar seriamente de “amores preferenciais” de parte de Deus com relação a alguns seres humanos em detrimento de outros. A suprema dignidade da pessoa humana e a equanimidade infinita de Deus o exigem. E tudo que se afaste disso, somente podem ser formas inadequadas de falar, “demasiado humanas”, antropomorfismos.



Deus não tem parcializações, nem faz “acepção de pessoas”. Não o faz por questões de raça, nem de cor, de gênero ou de cultura… Deus ama a todas suas criaturas, com amor realmente “inquantificável e incomparável”, e nisso não cabem nem preferências nem discriminações.

 

Segunda tese: Deus opta pela justiça, não preferencialmente, mas sim alternativa e excludentemente.



Há, contudo, um campo em que Deus é necessariamente radical e inflexivelmente parcial: o campo da justiça. Aí Deus coloca-se do lado da justiça e contra a injustiça, sem a menor concessão, sem a menor “neutralidade”, e sem simples “preferências”: Deus está contra a injustiça e coloca-se do lado dos “injustiçados” (as vítimas da injustiça). Deus não faz nem pode fazer uma “opção preferencial pela justiça”[6]:, ao contrário, opta por ela posicionando-se radicalmente contra a injustiça e assumindo de uma maneira total a Causa dos injustiçados.



Esta opção de Deus pela justiça não se fundamenta em sua “gratuidade”, nem é uma espécie de “capricho” divino que poderia ter sido de outra maneira ou simplemente não ter sido, como se a sanção divina da justiça obedecesse a um simples voluntarismo ético[7].



A opção de Deus pela justiça fundamenta-se em seu próprio ser: Deus não pode ser de outra maneira, não poderia não fazer essa opção sem contradizer-se e sem negar seu próprio ser. Deus é, “por natureza”, opção pela justiça, e essa opção não é gratuita (e sim axiologicamente inevitável), nem contingente (e sim necessária), nem arbitrária (e sim fundada per se no próprio ser de Deus), nem “preferencial” (e sim alternativa, exclusiva e exludente[8]).

 
Terceira tese: a Opção pelos Pobres é opção pelos “injustiçados”.



O conceito “pobres”, como parte da expressão “opção pelos pobres”, causou certa confusão. De fato, se a opção é “pelos pobres”, explica-se que sobrevenha a tentação de situar na “pobreza” o fundamento de tal opção, seja identificando falsamente pobreza com santidade (o que se evitou desde o princípio), ou re-elaborando metaforicamente o conceito de “pobreza” em diferentes direções[9], ou derivando-o em direção a qualquer um dos grupos que no Antigo Testamento parecem ser objeto de uma “preferência” por parte de Deus (os “fracos e pequenos”…), ou por outros muitos caminhos[10].



Poder-se-á evitar estes desvios tranzendo-se à luz o papel teológico que o conceito de “pobres” tem concretamente na expressão “opção pelos pobres”. Teologicamente falando, “pobres” significa aí exatamente “injustiçados”. Porque Deus não opta pelos pobres porque sejam pobres (material e/ou economicamente), mas sim porque são “injustiçados”. A pobreza econômica não é por si mesma uma categoria teológica; o é a injustiça, que pode dar-se nessa pobreza econômica. Teologicamente considerada, a “opção pelos pobres” é na realidade “opção pelos injustiçados”[11]. Se é chamada opção “pelos pobres”, isso se deve a que, quoad nos, os pobres (econômicos) são o analogatum princeps da injustiça e sua expressão máxima ou por antonomásia.



Falando com precisão teológica, os destinatários desta Opção pelos Pobres não podem ser identificados sem mais como os “pobres econômicos” por si mesmos, nem com os “pobres que são bons”, nem com os que são “pobres em algum sentido”, ou os que têm “espírito de pobres”... (delimitações todas elas muito flexívies, escorregadias, por causa dos jogos metafóricos da linguagem), mas sim com os “injustiçados”, sejam pobres econômicos ou não, metafóricos ou não.



Ao contrário, os “pequenos e os fracos”, ou seja, todos aqueles cuja “pobreza” não pode ser medida em termos de injustiça[12], não devem ser identificados pura e simplesmente como destinatários da Opção pelos Pobres, e sim por extensão metafórica. Podem ser objeto de uma “ternura especial” e gratuita por parte de Deus e nossa, mas este sentimento e esta atitude não devem ser confundidas com a Opção pelos Pobres.



Toda problemática humana que possa ser convertida em injustiça – mesmo que não tenha que ver com a “pobreza” em sentido literal ou econômico – é objeto da Opção pelos Pobres (porque esta é opção pela justiça). Assim, a discriminação étnica, de gênero, cultural… como formas de injustiça que são, e ainda que não se dêem juntamente com situações de pobreza econômica, são objeto da Opção pelos Pobres. Não o são por serem formas de pobreza – o que elas de fato não são –, mas sim por serem formas de injustiça.



A opção pela cultura desprezada, pela raça marginalizada, pelo gênero oprimido… não são opções diferentes da Opção pelos Pobres, mas sim concretizações diversas da única “opção pelos injustiçados”, a qual chamamos de Opção pelos Pobres.

 
Quarta tese: a essência teológico-sistemática da Opção pelos Pobres e seu fundamento é a opção de Deus pela justiça.



Teologicamente falando, em sentido dogmático-sistemático, a verdadeira natureza da Opção pelos Pobres é a opção de Deus pela justiça. A “radiografia teológica” da Opção pelos Pobres, o fundamento sobre o qual se sustenta, o que realmente a constitui, é a opção de Deus pela justiça.



Se ignoramos sua relação com a justiça e a referimos a uma simples “vontade gratuita” de Deus, a Opção pelos Pobres extravia-se por caminhos que a desvirtuam, a mistificam e a desnaturalizam, acabando por convertê-la em um simples “amor preferencial”, ou uma opção opcional, facultativa, gratuita, arbitrária, contingente, desvinculada da justiça, reduzida a “caridade” ou beneficência.



A Opção pelos Pobres de Deus é maior que – e anterior – ao que a Teologia da Libertação latino-americana captou e expresou como Opção pelos Pobres. A Opção pelos Pobres não é mais do que uma percepção – importante, mas que não esgota a totalidade – dessa opção de Deus pela justiça. A Opção pelos Pobres é uma forma nossa de perceber, de expressar e de assumir essa opção de Deus pela Justiça.



“Opção pelos Pobres” é um nome pastoral, histórico, escolhido em função de sua compreensão imediata. Contudo, teológico-sistematicamente considerada, ou seja, dando atenção à sua essência teológica mais profunda, a Opção pelos Pobres “é” opção pela justiça e o nome que melhor expressaria sua natureza teológica seria o de “opção pelos injustiçados”[13]. Não advogamos uma mudança de nome; simplesmente chamamos a atenção sobre o fato de que o nome não corresponde ao que seria uma “definição essencial”[14] da Opção pelos Pobres.

 
Quinta tese: Sendo opção pela justiça, a Opção pelos Pobres não é preferencial, mas sim disjuntiva e excludente. Ao contrário, a Opção Preferencial pelos Pobres é simplesmente uma prioridade e nem sequer é uma “opção”.



A Opção pelos Pobres é uma tomada de posição espiritual, integralmente humana, e, portanto, também social e política, a favor dos pobres no âmbito do conflito social histórico, e por isso é uma opção disjuntiva e excludente[15].



A “Opção (não preferencial) pelos Pobres” pertence ao campo da justiça e fundamenta-se na própria opção de Deus pela justiça. Ao contrário, a “Opção Preferencial pelos Pobres» pertence ao âmbito da caridade[16] e pode ser posta em relação com a gratuidade de Deus. A Opção pelos Pobres não tem aplicabilidade diante das pobrezas naturais. A Opção Preferencial pelos Pobres, ao contrário, somente tem validade para as pobrezas naturais.



A Opção pelos Pobres vê a pobreza como uma injustiça a ser erradicada mediante o amor político e transformador, mediante uma práxis social, como ato de justiça. A O Opção Preferencial pelos Pobres, por sua parte, vê a pobreza como algo lamentável mas talvez natural, como algo que simplesmente deve ser compensado com atos de generosidade gratuita, assistencialmente.



A “preferencialização” da Opção pelos Pobres, ou seja, o deslocamento ou a substituição da Opção pelos Pobres pela Opção Preferencial pelos Pobres, funciona como um ocultamento das coordenadas da justiça para olhar a realidade somente a partir da perspectiva da beneficência ou do assistencialismo. Ou como a redução do amor cristão a uma misericórdia privatizada e a uma solidaridade espiritualizada. Um cristianismo com Opção Preferencial pelos Pobres, mas sem Opção pelos Pobres, é funcional para qualquer sistema injusto. A oposição à Opção pelos Pobres – e, em geral, à teologia e à espiritualidade da libertação em cujo seio aquela nasceu – serviu como o principal objetivo daqueles que tentaram reverter a renovação pós-conciliar da teologia e da espiritualidade latino-americanas com Medellín e Puebla, e como a volta a uma Igreja que legitima o sistema capitalista e neoliberal que também hostilizou frontalmente a Igreja da libertação latino-americana e a seus inumeráveis mártires.



Aplicado à Opção pelos Pobres, o adjetivo “preferencial”, ao implicar uma relação de simples prioridade entre termos isentos de disjuntiva ou mútua exclusão, desnaturaliza a Opção pelos Pobres, convertendo-a em uma simples prioridade ou preferência de ordem, e isso também ao negar a possibilidade de uma opção radical por um dos termos submetidos à relação de preferência. Por isso, rigorosamente falando, a Opção Preferencial pelos Pobres não é Opção pelos Pobres, mas sim, como expressaram seus teóricos, um simples “amor preferencial” ou uma “forma especial de primazia no exercício da caridade cristã”. É uma prioridade, e nem sequer é uma “opção”, no sentido forte da palavra[17]. A adição do adjetivo “preferencial” serviu em muitos casos como “cavalo de Tróia” que introduziu na Opção pelos Pobres o germe de sua própria desnaturalização. Felizmente, são muitos os que adotaram só externamente o uso do adjetivo, pelas pressões do contexto ao seu redor, sem abandonar interiormente a compreensão e a vivência radical do que é a genuína natureza da Opção pelos Pobres, não preferencial, mas exclusiva e excludente.

 
Aplicações e corolários



Opção pelos Pobres : transcendental no nível da norma normans.



Em seu sentido teológico-sistemático (antes, portanto, ou mais além de sua aplicação concreta a mediações não-teológicas, e bem distinta destas), a Opção pelos Pobres é um transcendental que ultrapassa e atravessa as dimensões teológicas e pertence essencialmente à própria imagen do Deus bíblico e cristão. Nosso Deus “é” – pelo mais nuclear da revelação bíblica[18] e cristã, e por si mesmo – opção pela justiça[19], com absoluta precedência e com total independência de toda escola teológica ou de qualquer carisma ou espiritualidade em que nos movamos. Nessa qualidade, a Opção pelos Pobres não é suscetível de ser normada por dimensões subalternas[20] (situa-se no nível máximo da norma normans); e, percebida em consciência, deve ser obedecida como obediência a Deus mesmo, como disposição de espírito para a prova do amor maior.



Neste mesmo sentido, a Opção pelos Pobres não é uma “teoria” da teologia latino-americana da libertação, mas sim uma dimensão transcendental do cristianismo, dimensão que essa teologia teve o mérito de redescobrir – para o cristianismo universal – como vinculada à própria essência de Deus. Esta redescoberta é efetivamente “o maior acontecimento da hisória do cristianismo nos últimos séculos”[21], e marca um antes e um depois para aqueles que na sua Opção pelos Pobres fizeram uma experiência espiritual de conversão ao Deus dos pobres, a qual não pode ser apagada e da qual não se pode mais retroceder. A Opção pelos Pobres deve ser considerada como “firme e irrevogável” e como uma “nota da verdadeira Igreja”.

 
Pobreza, riqueza e injustiça.



Com relação à identificação da Opção pelos Pobres como opção pela justiça, podemos estender-nos em linguagem mais aplicada.



• Se a pobreza de uma pessoa ou grupo se deve ao fato de que tenha sido vítima da injustiça[22] – e nessa medida –, Deus está do lado desse pobre, contra sua pobreza, e contra as causas dessa pobreza-injustiça. E está, necessariamente, de um modo “excludente” da injustiça dos injustos, e não simplesmente com uma “opção preferencial não excludente”.



Se se trata de alguma “pobreza” que não tenha a ver com a justiça (“pobrezas naturais”, de raça, de gênero, de cultura…), Deus não faz discriminações a respeito disso, nem “prefere”, nesse campo, a ninguém. Deus não prefere nem despreza a nenhuma raça ou gênero ou cultura por si mesmos.



• Se a riqueza de uma pessoa ou grupo implica injustiça – e nessa medida –, Deus está decididamente contra essa riqueza, contra o modo de vida que a gera, porque Ele está do lado dos que sofrem as conseqüências da injustiça e está contra os que a causam. E está nessa atitude de um modo necessário e de um modo que exclui essa injustiça, e não com uma opção somente “preferencial pelo pobre”, mas sim radicalmente excludente do “modo de vida do rico”[23] que produz essa injustiça.



Se há alguma riqueza que não tem a ver com a injustiça (qualidades psicológicas, gênero, dons corporais e/ou espirituais, acaso…) Deus não faz aí discriminações: nem prefere nem despreza ninguém.

 
O conceito de justiça como mediação.



Logicamente, os princípios teológicos devem necessariamente passar pelo filtro ulterior de diversas mediações filosóficas, sociológicas e até políticas, na hora de serem postos em prática na arena da realidade.



Por exemplo: o próprio conceito de “justiça”, com todas suas implicações filosóficas, sociológicas, políticas e até culturais, será uma mediação especialmente influente no campo desta “opção pelos pobres”. Há um conceito capitalista de justiça, há outro socialista, há outro neoliberal, há outro imperialista… as pessoas são influenciadas por um ou outro segundo o “lugar social” que ocupam, ou pelo qual optam. Àquele para o qual a justiça é simplesmente “dar a cada um o que é seu”, um mundo de extremas desigualdades pode parecer justo se – por exemplo – só valoriza a atual legalidade da propriedade privada absolutizada. Não o pareceria, porém, a nenhum dos Padres da Igreja, nem a quem faça seu o conceito de justiça social distributiva e democrática da doutrina social da Igreja, porque estas pessoas operam com um conceito de justiça muito diferente.



Neste sentido, apesar de referir-nos teoricamente a um mesmo Deus, e apesar de aceitarmos talvez como evidente sua opção pela justiça, a visão da vontade de Deus sobre o mundo pode ser diversa ou até contrária em uns cristãos e em outros. Onde está a origem dessa discrepância?



Poderia não estar no próprio conceito que tenhamos de Deus nem de seu Projeto ou Vontade, mas sim no conceito de justiça com o qual construímos nossos juízos morais. A origem pode estar no juízo moral que, a partir do conceito de justiça de cada um, fazemos sobre a pobreza e a riqueza e sobre os mecanismos sociais ou estruturas que as geram ou produzen, se as julgamos como naturais ou como históricas, como fatais ou como corrigíveis, como casuais ou como causadas, culpáveis ou inculpáveis, estruturais ou conjunturais, produto essencial do sistema perverso ou subproduto acidental negativo de um sistema social não necessariamente negativo. Assim, por exemplo:



- aqueles para os quais a atual divisão tão desigual da riqueza no mundo (a famosa “taça de champanhe” dos informes do PNUD) pareça “natural”, pensarão também – com boa lógica – que Deus não se pronuncia sobre ela, ou que somente nos exorta à esmola, à beneficência, à gratuidade generosa… para oferecer paleativos a essas lamentáveis diferenças “naturais”…;



- aqueles, pelo contrário, para os quais pareça que tal divisão do mundo é injusta e pecaminosa, pensarão – também com boa lógica – que Deus está irritado com ela e que deseja ardentemente que seja abolida, e que quer que o ajudemos a combater essa injusta desordem com um compromisso radical pela justiça;



- a aqueles que pensem que essa situação do mundo é o maior drama da humanidade atual..., lhes parecerá também que sua superação urgente expressa a maior e mais premente vontade de Deus;



- aqueles que considerem que o neoliberalismo é inocente, ou que é “o menos pior dos sistemas”.., pensarão que Deus quer que o apoiemos, ou inclusive que o “melhoremos” em algumas de suas “deficiências acidentais”;



- aqueles que, ao contrário, são de opinião que o neoliberalismo é injusto, ou inclusive a maior injustiça, a mais estrutural, pensarão que Deus quer que combatamos esta estrutura de pecado do modo mais empenhado possível.



Pareceria claro, desta forma, que o problema teológico dirige-se para a discussão e a análise das mediações, e que as discrepâncias se situariam não no nível propriamente teológico dos princípios, mas no nível prudencial das mediações. Contudo, isto é só a metade da verdade, porque nosso conceito de justiça faz parte de nossa escolha de Deus. “Dize-me que entendes por justiça, e te direi qual é teu Deus”. Dize-me em que justiça crês, e te direi a qual Deus adoras.



Costumamos pensar que nosso conceito de justiça nos venha do Deus em que cremos, mas tambémn o contrário é certo: só cremos no Deus que cabe em nosso conceito de justiça. A opção mais fundamental de nossa vida pode ser aquela na qual optamos por um conceito ou outro de justiça, justiça que é ao mesmo tempo nossa utopia para o mundo. Nossa imagen de Deus é filha da opção na qual escolhemos nosso conceito de justiça e sua correspondente utopia para o mundo. E vice-versa: muitos não chegan a assumir um conceito utópico de justiça porque previamente fizeram a opção pelo Deus do egoísmo e de suas riquezas.



A Opção pelos Pobres é, pois, ao mesmo tempo, uma opção por Deus (dos pobres) e uma opção pela justiça utópica (do Reino). A “opção pelos ricos” é, ao mesmo tempo, uma renúncia ao Deus dos pobres e uma opção por uma justiça resignada ao egoísmo. A opção pelos pobres ou pelos ricos, a justiça utópica e a justiça resignada, e o Deus dos pobres ou sua recusa, estão mutuamente implicados em um círculo hermenêutico. Nossa obediência a Deus não se dá em relação direta com Deus, mas na escolha de um ideal de justiça utópica ou de uma justiça resignada[24]. Princípios e mediações estão mais mutuamente implicados do que pareceria. Deus é justo, e a justiça é divina. A opção pelos pobres é, ao mesmo tempo, um ato de fé no Deus dos pobres e uma opção ética e humanizante pela justiça (a dos pobres e a de Deus simultaneamente). De sua parte, a opção pelo egoísmo é, ao mesmo tempo, uma injustiça e uma recusa de (do) Deus (dos pobres). Voltando ao princípio, Deus e a Opção pelos Pobres não se podem separar, porque a Opção pelos Pobres fundamenta-se em Deus mesmo, em Sua justiça. A gratuidade de Deus é outro tema.



Publicado sobre papel em:

 
«Perspectiva Teológica» XXXVI/99(maio/agosto 2004)241-252 Belo Horizonte, Brasil.
«Vida Pastoral» 245(novembro-dezembro 2005)22—27, São Paulo (sem notas).

 
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[1] “Digamo-lo com clareza: a razão última dessa opção está no Deus em quem cremos. (...) Trata-se, para o crente, de uma opção teocêntrica, baseada em Deus”. G. GUTIÉRREZ, “El Dios de la Vida”, Christus 47(1982)53-54, G. GUTIÉRREZ, La fuerza histórica de los pobres, Lima, 1980, pp 261-262.
[2] Apesar de ser uma obviedade, ver a tese doutoral de J. LOIS, Teología de la Liberación: opción por los pobres. Madrid: IEPALA 1986. Aí se estuda a Opção pleos Pobres em vários dos principais teólogos da libertção do período clássico.

 
[3] Um caso claro pode ser o de Gustavo GUTIÉRREZ. Em uma palestra pronunciada diante de Ratzinger, afirma: “A temática da pobreza e da marginalização convida-nos a falar de justiça e a ter presentes os deveres do cristão a respeito. Na verdade é assim, e esse enfoque é sem dúvida fecundo. Mas não se deve perder de vista o que faz que a opção preferencial pelos pobres seja uma perspectiva tão central. Na raiz dessa opção está a gratuidade do amor de Deus. Este é o fundamenteo último da preferência”. A partir desse momento, já não volta a aparecer a palavra “justiça” em sua dissertação e toda a Opção pelos Pobres gira em torno à “gratuidade”. Cf. G. GUTIÉRREZ, Una teología da liberación en el contexto del tercer milenio, in VÁRIOS, El futuro de la reflexión teológica en América Latina. Bogotá: CELAM, 1996, p. 111. Não se trata de um texto isolado, mas sim, em minha modesta opinião, de uma perspectiva suavizada comum na teologia da Opção pelos Pobres de G. Gutiérrez já há mais de uma década; cfr. G. GUTIÉRREZ, Pobres y opción fundamental, in Mysterium Liberationis, San Salvador, UCA Editores, 1991, pp. 303ss, 310.

 
[4] Pobres que eram uma realidade “coletiva, conflitiva e socialmente alternativa”: C. BOFF, ¿Quiénes son hoy los pobres, y por qué?, in J. PIXLEY / C.BOFF, Opción por los pobres, Madrid: Paulinas, 1986, pp. 17ss.

 
[5] Um amor igual para todos mas que começa pelos pobres e continua pelos ricos, sem fazer entre eles nenhuma diferença; um “amor igualitário, mas com uma orden de prioridade”, simplesmente.

 
[6] Quem opta “preferencialmente” pela justiça, opta também, ainda que seja menos preferencialmente, pela injusticia. No dilema de justiça e injustiça não há “simples preferências” possíveis: a opção está diante de alternativas de uma disjuntiva excludente.

 
[7] Recordemos a posição teológica medieval (o “voluntarismo ético”) de quem sustentava que a ordem moral atual não era necessário, mas sim contingente, e que obedecia a uma vontade positiva e gratuita (arbitrária) de Deus. A ordem moral – esta doutrina sustentava – teria podido ser outra, inclusive a contrária da atual, se Deus assim o tivesse querido em um inescrutável desígnio arcano de sua vontade.

 
[8] J.M. VIGIL, Opción por los pobres, ¿preferencial y no excluyente?, in J.M. VIGIL, Sobre la opción por los pobres, Santander: Sal Terrae, 1991, pp. 57ss. Editado também na Nicarágua (Editorial Nicarao, 1991), Chile (Rehue, 1992), Colômbia (Paulinas, 1994), Equador (Abya Yala, 1998), Itália (Citadella, 1992), Brasil (Paulinas, 1992).

 
[9] Como quando se argumentava que os ricos eram os verdadeiros pobres (pobres em riquezas espirituais, das quais os pobres materiais eram muito ricos)… Chegou-se a verdadeiros jogos de palavras ou malabarismos conceptuais para não entender o óbvio. Casaldáliga deu testemunho poético disso em suas Bem-aventuranças da conciliação pastoral.

 
[10] Pobreza de espírito, pobres de Javé, virtude da pobreza, anawin, infância espiritual…

 
[11] “Opção pelos injustiçados” é uma expressão precisa, que escapa à possibilidade de ser mistificada ou metaforizada.

 
[12] Como é o caso das pobrezas “naturais”, não históricas, sem culpa de ninguém.

 
[13] Por isso os novos sujeitos não necessitam de uma “opção” pela mulher, pelo/a indígena ou afro… uma vez que a própria opção pelos “injustiçados” inclui a todos/as eles/as.

 
[14] “Definição essencial”, no dizer da lógica clássica, é aquela que não somente discrimina adequadamente seu objeto, mas que o faz em referência à sua essência (e não, por exemplo, com base em um ”próprio” ou a um conjunto de acidentes suficientemente discriminante.

 
[15] J.M. VIGIL, Opción por los pobres, ¿preferencial y no excluyente?, in J.M. VIGIL, Sobre la opción por los pobres, Santander: Sal Terrae, 1991, pp. 57ss.

 
[16] O das classicamente chamadas “obras de misericórdia”; por isso, a Opção Preferencial pelos Pobres pode ser chamada com propiedade, efetivamente, “amor preferencial pelos pobres”. Isso é o que é. A Opção pelos Pobres é outra coisa.

 
[17] O ato pelo qual uma pessoa faz sua Opção pelos Pobres ou escolhe seu lugar social participa do caráter antropológico existencial que a assim chamada “opção fundamental” tem.

 
[18] Deus não tem favoritismos (Rm 2,11). O Soberano de todos não faz diferença entre as pessoas e não fará caso de grandeza (Sb 6,7). Um juízo implacável espera os poderosos; o pequeno tem desculpas e merece compaixão, mas os poderosos serão castigados severamente. Ele criou os grandes e os pequenos e de todos cuida igualmente. Os poderosos serão examinados com mais rigor. (Sb 6,6.7b.8). Mestre, sabemos que és justo e que não fazes acepção de pessoas… (Mt 22,16). O ser humano olha as aparências, mas Javé olha o coração… (1Sm 16,7).

 
[19] “A luta pela justiça é como outro nome do Deus do Antigo Testamento e do Deus de Jesus»: R. VELASCO, La Iglesia de Jesús, Estella: Verbo Divino,1992, p. 33.

 
[20] Eclesiásticas ou disciplinares, por exemplo.

 
[21] “Pessoalmente opino que com a opção preferencial pelos pobres produziu-se a grande e necessária revolução copernicana no seio da Igreja, cujo significado transborda o contexto eclesial latino-americano, concerne à Iglesia universal. Sinceramente, creio que esta opção significa a mais importante transformação teológico-pastoral aconctecida desde a Reforma protestante do século XVI». L. BOFF, citado por J. LOIS, Teología de la liberación: opción por los pobres, Madrid: IEPALA, 1986, p. 193.

 
[22] É o que se queria dizer com a preferência do adjetivo dinâmico “empobrecidos” (como dinâmico é também o conceito de “injustiçado”) sobre o nome estático de “pobres”.

 
[23] Por “modo de vida do rico” entendemos tudo o que implica o rico – exceto sua própria pessoa –: seu estilo de vida, seu papel social, a Causa à qual objetivamente serve, seu luxo, sua exploração dos pobres, sua participação no sistema que os explora…

 
[24] Casaldáliga expresava o conflito entre os dois deuses e as duas justiças em seu poema “Equívocos”: Onde tu dizes lei / eu digo Deus. / Onde tu dizes paz, justiça, amor, / eu digo Deus! / Onde tu dizes Deus, / eu digo liberdade, / justiça, / amor!

José Maria Vigil

Fonte: Agenda Latinoamericana - http://servicioskoinonia.org/

TdL em Mutirão 14

O SIGNIFICADO TEOLÓGICO E PASTORAL DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A Teologia da Libertação é o sinal de um novo momento da História da Igreja na América Latina. Apresenta-se com a originalidade de incluir, como inerente a ela, a situação histórica e a realidade social dos povos latino-americanos. Apresenta-se pela primeira vez, como teologia especificamente latino-americana. Não no sentido de romper de alguma forma a catolicidade de toda autêntica teologia, mas no sentido de uma teologia elaborada a partir das Igrejas da América Latina, que vivem uma situação pastoral comum e original.

Também não é teologia latino-americana no sentido de que sirva somente para este continente. É chamada a levar sua contribuição para toda a Igreja, e de fato já o está fazendo. Seu significado e influência foi captado pelo mais alto magistério. Paulo VI a levou em consideração explicitamente ao desenvolver um dos capítulos centrais da Evangelli Nuntiandi: a evangelização inclui "uma mensagem particularmente vigorosa em nossos dias sobre  a libertação" (29). Diz João Paulo II: "A teologia da libertação com frequência está relacionada exclusivamente com a América Latina, mas é preciso reconhecer que é exigência de alcance universal. A função da teologia é achar o verdadeiro significado da libertação nos diferentes e concretos contextos históricos contemporâneos. É parte da verdade chamar por seu nome a injustiça, a exploração do homem pelo homem e pelo Estado, dos mecanismos e sistemas econômicos" (Discurso em Roma, 21.02.1979, ao regressar da América Latina).

A teologia da libertação não pretende esgotar todas as tarefas atuais da teologia do continente, mas acentua uma das mais importantes e urgentes, se não a mais importante e urgente: a reflexão teológica sobre o sentido do compromisso da Igreja e de seus cristãos na justiça, na defesa da dignidade humana, na libertação dos pobres e oprimidos, em ordem à evangelização.

Nesta reflexão eclesial há atualmente várias correntes e acentos, mas entre elas são maiores os consensos, as coincidências e convergências. Ora, para identificar o que há de de comum na teologia da libertação, é necessário diferenciá-la e distingui-la de outras formas de reflexão em torno da libertação, que não são propriamente teológicas, e que são abundantes. Existe a teologia da libertação propriamente dita, que se inscreve numa preocupação de fé e evangelização, como toda teologia católica. E existe a reflexão de cristãos sobre a libertação, num nível mais ideológico, sócio-político, pedagógico ou estratégico... Ambos os níveis de reflexão são necessários para os cristãos que vivem na cidade temporal, mas o segundo não é propriamente teológico, não se constrói em nome da fé e do Evangelho. A confusão está em que para muitos, toda reflexão sobre a libertação - teológica ou não - já é "teologia da libertação". Manifestos, panfletos, documentos de grupos cristãos de conteúdo "libertador"...

A confusão entre ambos os níveis, o dos teólogos da libertação e o dos cristãos que em torno do tema da libertação fazem reflexão primordialmente sócio-política, prejudicou a própria teologia da libertação, fazendo-a objeto de críticas que propriamente não lhe pertencem ou reduzindo-a simplesmente ao nível político, sem suficiente dimensão teológica e pastoral.

Em razão desta confusão - e também por desconhecimento ou falta de discernimento - em alguns setores eclesiais da América Latina a teologia da libertação ainda é "suspeita", com o perigo de se constituir numa espécie de "teologia não oficial", tolerada, ou, pior ainda, meio clandestina. Isso é reforçado pelos centros de poder políticos e econômicos, e pela pressão sistemática que exercem pelos meios de comunicação. Não interessa ao "sistema estabelecido" um catolicismo e um apostolado libertadores, fundamentado numa teologia da libertação. O prejuízo desta situação não recai tanto sobre os teológos da libertação , mas sobre a própria Igreja, e sobre sua missão de comunhão e participação. Acontece que as afirmações fundamentais desta teologia são tão importantes para a Igreja latino-americana e para sua tarefa de evangelização, que é urgente reivindicá-la nos setores onde ainda não foi compreendida. Um pouco ironicamente, diante de muitos presságios que se haviam feito, foi o próprio papa João Paulo II e a Conferência de Puebla que a reivindicaram, purificaram e reintroduziram nos meios eclesiais da América Latina. Nunca houve tanto interesse como agora em nossas Igrejas pela teologia da libertação.

Três maneiras de fazer teologia

A teologia da libertação não aparece no panorama latino-americano como um fato isolado, que nasce de repente. Pertence a uma das formas mais tradicionais de fazer teologia católica.

Sabemos que há três "maneiras" de teologizar ou aprofundar a mensagem da fé. Uma delas denomina a teologia como "sabedoria". É muito antiga. Aparece já no Novo Testamento, nos primeiros escritos cristãos e, através da história, na literatura de muitos santos. Esta teologia é própria do gênero homilético, da reflexão espiritual. Procura fazer da Palavra de Deus alimento real para a vida. Não tem uma pretensão sistemática nem diretamente "científica".

Outra seria a teologia sistemática, "científica" ou ainda dogmática. Esta "maneira" foi adquirindo crescente importância na vida da Igreja até se tornar fortemente predominante nos últimos quatro séculos: ser teólogo era ser "teólogo dogmático". Esta forma de teologia  - indispensável - procura o encontro da fé e da razão humana no estudo da Revelação divina. Sistematizada em corpos doutrinais, precisa os alcances da Bíblia e do magistério etc.

Logo em seguida está a que poderíamos chamar de "teologia pastoral". Seu ponto de partida é, em essência, a vida da Igreja, a ação pastoral, o compromisso dos cristãos, a realidade humana na qual a Igreja exerce a sua missão. Neste caso vida e práxis da Igreja é um "lugar teológico", isto é, uma base para que possamos elaborar e refletir sobre a mensagem de Jesus Cristo. Assim sendo, a ação pastoral e a práxis cristã são o "ato primeiro", ao passo que a reflexão teológica  é o "ato segundo", que ilumina e reorienta a ação. A teologia da libertação, portanto, situa-se melhor nesta "maneira" de fazer  teologia. É uma teologia pastoral.

É necessário entender bem isto. Em primeiro lugar, nenhuma "maneira" de fazer teologia está sozinha, isolada. Todas elas incluem elementos dos três níveis. Na prática, não é fácil classificar a maneira de fazer teologia. Para ser boa teologia católica, nenhum destes três níveis pode prescindir de fazer referência aos demais. A teologia como sabedoria e a teologia pastoral devem apoiar-se sempre nos dados da teologia científica, ainda que não sejam explícitos, e a teologia científica, por sua vez, deve fazer referência permanente à vida espiritual e pastoral, para que não fique à margem da história.

Diz-se que teologia da libertação é uma "nova maneira" de fazer teologia. Deve-se entender muito bem isto, pois, tomando ao pé da letra, é excessivo. Já vimos seu método se inscreve no nível de uma "teologia pastoral" ou de uma "teologia das realidades" em que vivem os cristãos. Neste sentido, poder-se-ia considerá-la como "novidade" em relação a uma teologia que predominou até recentemente, muito abstrata e pouco pastoral. A teologia da libertação reivindica um modo muito tradicional de fazer teologia. E neste sentido, por conseguinte, não é uma "nova maneira", absoluta, porque se insere na melhor tradição teológico-pastoral: dar um conteúdo de fé à "práxis" cristã, neste caso a seu compromisso pela libertação dos oprimidos.

Segundo Galilea - teólogo
Adaptação do livro Teologia da Libertação - Ensaio de Síntese

TdL em Mutirão 13

CREDO DO POVO DE DEUS



Veneráveis irmãos e diletos filhos:

1. Encerramos, com esta Liturgia solene, tanto a celebração do XIX centenário do martírio dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, como este ano que denominamos "Ano da Fé". Nós o dedicamos à comemoração dos Apóstolos, não só com a intenção de testemunhar nossa vontade inquebrantável de conservar sem corrupção o depósito da Fé (cf. 1Tm 6,20) que eles nos transmitiram, senão também para confirmar o nosso propósito de relacionar a mesma Fé com a vida dos tempos atuais, em que a Igreja deve peregrinar no mundo.

2. Sentimo-nos na obrigação de agradecer publicamente a todos os fiéis que responderam ao nosso convite, fazendo com que o "Ano da Fé" produzisse o máximo de frutos, quer por uma adesão mais profunda à Palavra de Deus, quer pela renovação da profissão de fé em muitas comunidades, quer pela confirmação da própria fé, com o testemunho de uma vida autenticamente cristã. Por isso, ao mesmo tempo que expressamos nosso reconhecimento, sobretudo a nossos Irmãos no Episcopado e a todos os filhos da Santa Igreja, queremos dar-lhes nossa Bênção Apostólica.

3. Julgamos ainda que devemos cumprir o mandato, conferido por Cristo a Pedro, de quem somos Sucessor, embora o último na ordem dos méritos, a saber: o de confirmar na fé os irmãos (Lc 22,32). Portanto, ainda que estejamos conscientes de nossa pequenez, contando porém com toda a força desse mandato que nos impele, vamos fazer uma profissão de fé, recitar uma fórmula de "Credo" que, embora não se deva chamar estritamente definição dogmática, contudo repete, quanto à substância, a fórmula de Nicéia - a fórmula da imortal Tradição da Santa Igreja de Deus - com algumas explicações exigidas pelas condições espirituais de nossa época.

4. Ao fazer isto, bem sabemos que perturbações em relação à fé agitam hoje certos grupos de homens. Eles não escaparam à influência de um mundo que se está transformando profundamente e no qual tantas verdades são postas em discussão ou totalmente negadas. Mais ainda: vemos que até alguns católicos se deixam dominar por uma espécie de sede de mudança e novidades. A Igreja, sem dúvida, julga ser de sua obrigação continuar sempre o seu esforço em penetrar mais e mais os insondáveis mistérios de Deus, ricos de tantos frutos de salvação para todos, e em apresentá-los ao mesmo tempo, de modo cada vez mais apto, às gerações que se sucedem. Mas é preciso juntamente empregar o máximo cuidado a fim de que, ao cumprir o necessário dever da investigação, não se destruam verdades da doutrina cristã. Se isto acontecesse - e vemos dolorosamente como hoje de fato acontece - iria causar perturbação e dúvida no espírito de muitos fiéis.

5. A este respeito, muito importa advertir que, além daquilo que se pode observar e reconhecer cientificamente, a inteligência que Deus nos deu atinge o que é e não só as expressões subjetivas das chamadas estruturas ou da evolução da consciência humana. Aliás, devemos lembrar que pertence à interpretação ou hermenêutica, depois de examinar a palavra que foi pronunciada, procurarmos compreender e distinguir o sentido subjacente a qualquer texto e não inventar de certo modo esse sentido, segundo hipóteses arbitrárias.

6. Acima de tudo, porém, confiamos firmissimamente no Espírito Santo - alma da Igreja - e na fé teologal, em que se sustenta a vida do Corpo Místico. Por outra parte, não ignorando que o povo espera a palavra do Vigário de Cristo, correspondemos a essa expectativa com alocuções e homilias, que proferimos bem frequentemente. Hoje, todavia, se nos oferece a oportunidade para pronunciar uma palavra mais solene.

7. Neste dia, pois, que escolhemos para encerramento do "Ano da Fé", nesta solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, queremos prestar à Majestade Suprema de Deus a homenagem de uma profissão de fé. E como outrora, em Cesaréia de Felipe, Simão Pedro, em nome dos Doze Apóstolos, à margem das opiniões humanas, confessou ser Cristo verdadeiramente o Filho de Deus vivo, assim também hoje o seu humilde sucessor, Pastor da Igreja universal, em nome de todo o Povo de Deus, eleva a sua voz para dar firmíssimo testemunho da Verdade divina, que só foi confiada à Igreja para que ela anuncie a todas as nações. Queremos que esta nossa profissão de fé seja suficientemente explícita e completa para satisfazer, de maneira adequada, à necessidade de luz que angustia a tantos fiéis e a todos aqueles que no mundo buscam a Verdade, seja qual for o grupo espiritual a que pertençam. Portanto, para a glória de Deus onipotente e Senhor nosso, Jesus Cristo; confiando no auxílio da Santíssima Virgem Maria e dos Bem-Aventurados Pedro e Paulo; para utilidade e progresso espiritual da Igreja; em nome de todos os sagrados Pastores e de todos os fiéis cristãos; em plena comunhão convosco, irmãos e filhos caríssimos, vamos pronunciar agora esta profissão de fé:

8. Cremos em um só Deus - Pai, Filho e Espírito Santo - Criador das coisas visíveis - como este mundo, onde se desenrola nossa vida passageira -, Criador das coisas invisíveis - como são os puros espíritos, que também chamamos anjos(1) -, Criador igualmente, em cada homem, da alma espiritual e imortal(2).

9. Cremos que este Deus único é tão absolutamente uno em sua essência santíssima como em todas as suas demais perfeições: na sua onipotência, na sua ciência infinita, na sua providência, na sua vontade e no seu amor. Ele é Aquele que é, conforme Ele próprio revelou a Moisés (cf. Ex 3,14); Ele é Amor como nos ensinou o Apóstolo São João (cf. 1Jo 4,8); de tal maneira que estes dois nomes - Ser e Amor - exprimem inefavelmente a mesma divina essência Daquele que se quis manifestar a nós e que, habitando uma luz inacessível (cf 1Tm 6,16), está, por si mesmo, acima de todo nome, de todas as coisas e de todas as inteligências criadas. Só Deus pode dar-nos um conhecimento exato e pleno de si mesmo, revelando-se como Pai, Filho e Espírito Santo, de cuja vida eterna somos pela graça chamados a participar, aqui na terra, na obscuridade da fé, e, depois da morte, na luz sempiterna. As relações mútuas, que constituem eternamente as Três Pessoas, sendo, cada uma delas, o único e mesmo Ser Divino, perfazem a bem-aventurada vida íntima do Deus Santíssimo, infinitamente acima de tudo o que podemos conceber à maneira humana(3). Entretanto, rendemos graças à Bondade divina pelo fato de poderem numerosíssimos crentes dar testemunho conosco, diante dos homens, sobre a unidade de Deus, embora não conheçam o mistério da Santíssima Trindade.

10. Cremos, portanto, em Deus Pai que desde toda a eternidade gera o Filho; cremos no Filho, Verbo de Deus que é eternamente gerado; cremos no Espírito Santo, Pessoa incriada, que procede do Pai e do Filho como Amor sempiterno de ambos. Assim nas três Pessoas Divinas que são igualmente eternas e iguais entre si (4), a vida e a felicidade de Deus perfeitamente uno superabundam e se consumam na superexcelência e glória próprias da Essência incriada; e sempre se deve venerar a unidade na Trindade e a Trindade na unidade(5).

11.Cremos em Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele é o Verbo eterno, nascido do Pai antes de todos os séculos e consubstancial ao Pai, homoousious to Patri. Por Ele tudo foi feito. Encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem, e se fez homem. Portanto, é igual ao Pai, segundo a divindade, mas inferior ao Pai, segundo a humanidade(6), absolutamente uno, não por uma confusão de naturezas (que é impossível), mas pela unidade da pessoa(7).

12.Ele habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. Anunciou e fundou o Reino de Deus, manifestando-nos em si mesmo o Pai. Deu-nos o seu mandamento novo de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou. Ensinou-nos o caminho das bem-aventuranças evangélicas, isto é: a ser pobres de espírito e mansos, a tolerar os sofrimentos com paciência, a ter sede de justiça, a ser misericordiosos, puros de coração e pacíficos, a suportar perseguição por causa da virtude. Padeceu sob Pôncio Pilatos, Cordeiro de Deus que carregou os pecados do mundo, e morreu por nós pregado na Cruz, trazendo-nos a salvação pelo seu Sangue redentor. Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia pelo seu próprio poder, elevando-nos por esta sua ressurreição a participarmos da vida divina que é a graça. Subiu ao céu, de onde há de vir novamente, mas então com glória, para julgar os vivos e os mortos, a cada um segundo os seus méritos: os que corresponderam ao Amor e à Misericórdia de Deus irão para a vida eterna; porém os que os tiverem recusado até a morte serão destinados ao fogo que nunca cessará. E o seu reino não terá fim.

13.Cremos no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e que com o Pai e o Filho é juntamente adorado e glorificado. Foi Ele que falou pelos profetas e nos foi enviado por Jesus Cristo, depois de sua ressurreição e ascensão ao Pai. Ele ilumina, vivifica, protege e governa a Igreja, purificando seus membros, se estes não rejeitam a graça. Sua ação, que penetra no íntimo da alma, torna o homem capaz de responder àquele preceito de Cristo: "Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste" (cf. Mt 5,48).

14.Cremos que Maria Santíssima, que permaneceu sempre Virgem, tornou-se Mãe do Verbo Encarnado, nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo(8); e que por motivo desta eleição singular, em consideração dos méritos de seu Filho, foi remida de modo mais sublime(9), e preservada imune de toda a mancha do pecado original(10); e que supera de longe todas as demais criaturas, pelo dom de uma graça insigne(11).

15.Associada por um vínculo estreito e indissolúvel aos mistérios da Encarnação e da Redenção(12), a Santíssima Virgem Maria, Imaculada, depois de terminar o curso de sua vida terrestre, foi elevada em corpo e alma à glória celestial(13); e, tornada semelhante a seu Filho, que ressuscitou dentre os mortos, participou antecipadamente da sorte de todos os justos. Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja(14), continua no céu a desempenhar seu ofício materno, em relação aos membros de Cristo, cooperando para gerar e desenvolver a vida divina em cada uma das almas dos homens que foram remidos(15).

16.Cremos que todos pecaram em Adão; isto significa que a culpa original, cometida por ele, fez com que a natureza, comum a todos os homens, caísse num estado no qual padece as consequências dessa culpa. Tal estado já não é aquele em que no princípio se encontrava a natureza humana em nossos primeiros pais, uma vez que se achavam constituídos em santidade e justiça, e o homem estava isento do mal e da morte. Portanto, é esta natureza assim decaída, despojada de dom da graça que antes a adornava, ferida em suas próprias forças naturais e submetidas ao domínio da morte, é esta que é transmitida a todos os homens. Exatamente neste sentido, todo homem nasce em pecado. Professamos pois, segundo o Concílio de Trento, que o pecado original é transmitido juntamente com a natureza humana, pela propagação e não por imitação, e se acha em cada um como próprio(16).

17. Cremos que Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Sacrifício da Cruz, nos remiu do pecado original e de todos os pecados pessoais, cometidos por cada um de nós; de sorte que se impõe como verdadeira a sentença do Apóstolo: "onde abundou o delito, superabundou a graça" (cf. Rm 5,20).

18. Cremos professando num só Batismo, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para a remissão dos pecados. O Batismo deve ser administrado também às crianças que não tenham podido cometer por si mesmas pecado algum; de modo que, tendo nascido com a privação da graça sobrenatural, renasçam da água e do Espírito Santo para a vida divina em Jesus Cristo(17).

19.Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica, edificada por Jesus Cristo sobre a pedra que é Pedro. Ela é o Corpo Místico de Cristo, sociedade visível, estruturada em órgãos hierárquicos e, ao mesmo tempo, comunidade espiritual. Igreja terrestre, Povo de Deus peregrinando aqui na terra, e Igreja enriquecida de bens celestes, germe e começo do Reino de Deus, por meio do qual a obra e os sofrimentos da Redenção continuam ao longo da história humana, aspirando com todas as forças a consumação perfeita, que se conseguirá na glória celestial após o fim dos tempos(18). No decurso do tempo, o Senhor Jesus forma a sua Igreja pelos Sacramentos que emanam de sua plenitude(19). Por eles a Igreja faz com que seus membros participem do mistério da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, pela graça do Espírito Santo que a vivifica e move (20). Por conseguinte, ela é santa, apesar de incluir pecadores no seu seio; pois em si mesma não goza de outra vida senão a vida da graça. Se realmente seus membros se alimentam dessa vida, se santificam; se dela se afastam, contraem pecados e impurezas espirituais, que impedem o brilho e a difusão de sua santidade. É por isso que ela sofre e faz penitência por esses pecados, tendo o poder de livrar deles a seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo.

20.Herdeira das promessas divinas e filha de Abraão segundo o Espírito, por meio daquele povo de Israel, cujos livros sagrados guarda com amor e cujos Patriarcas e Profetas venera com piedade; edificada sobrre o fundamento dos Apóstolos, cuja palavra sempre viva e cujos poderes, próprios de Pastores, vem transmitindo fielmente de geração em geração, no sucessor de Pedro e nos Bispos em comunhão com ele; gozando enfim da perpétua assistência do Espírito Santo, a Igreja tem o encargo de conservar, ensinar, explicar e difundir a Verdade que Deus revelou aos homens, veladamente de certo modo pelos Profetas, e plenamente pelo Senhor Jesus. Nós cremos todas essas coisas que estão contidas na Palavra de Deus por escrito ou por tradição, e que são propostas pela Igreja, quer em declaração solene quer no Magistério ordinário e universal, para serem cridas como divinamente reveladas (21). Nós cremos na infalibilidade de que goza o Sucessor de Pedro, quando fala ex cathedra(22), como Pastor e Doutor de todos os cristãos e que reside também no Colégio dos Bispos, quando com o Papa exerce o Magistério supremo(23).

21.Cremos que a Igreja, fundada por Cristo e pela qual Ele orou, é indefectivelmente una, na fé, no culto e no vínculo da comunhão hierárquica (24). No seio desta Igreja, a riquíssima variedade dos ritos litúrgicos e a diversidade legítima do patrimônio teológico e espiritual ou de disciplinas peculiares, longe de prejudicar a unicidade, antes a declaram(25).

22.Reconhecendo também que fora da estrutura da Igreja de Cristo existem muitos elementos de santificação e de verdade, que como dons próprios da mesma Igreja impelem à unidade católica(26), e crendo, por outra parte, na ação do Espírito Santo que suscita em todos os discípulos de Cristo o desejo desta unidade(27), esperamos que os cristãos que ainda não gozam da plena comunhão com a única Igreja, se unam afinal num só rebanho sob um único Pastor.

23.Cremos que a Igreja é necessária para a Salvação, pois só Cristo é o Mediador e caminho da salvação, e Ele se torna presente a nós no seu Corpo que é a Igreja (28). Mas o desígnio divino da Salvação abrange a todos os homens; e aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo e sua Igreja, procuram todavia a Deus com sincero coração, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir com obras a sua vontade, conhecida pelo ditame da consciência, também esses, em número aliás que somente Deus conhece, podem conseguir a salvação eterna (29).

24.Cremos que a Missa, celebrada pelo sacerdote, que representa a pessoa de Cristo, em virtude do poder recebido no sacramento da Ordem, e oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do seu Corpo Místico, é realmente o Sacrifício do Calvário, que se torna sacramentalmente presente em nossos altares. Cremos que, como o Pão e o Vinho consagrados pelo Senhor, na última ceia, se converteram no seu Corpo e Sangue, que logo iam ser oferecidos por nós na Cruz; assim também o Pão e o Vinho consagrados pelo sacerdote se convertem no Corpo e Sangue de Cristo que assiste gloriosamente no céu. Cremos ainda que a misteriosa presença do Senhor, debaixo daquelas espécies que continuam aparecendo aos nossos sentidos do mesmo modo que antes, é uma presença verdadeira, real e substancial(30).

25.Neste sacramento, pois, Cristo não pode estar presente de outra maneira a não ser pela mudança de toda a substância do pão no seu Corpo, e pela mudança de toda a substância do vinho no seu Sangue, permanecendo apenas inalteradas as propriedades do pão e do vinho, que percebemos com os nossos sentidos. Esta mudança misteriosa é chamada pela Igreja com toda a exatidão e conveniência transubstanciação. Assim, qualquer interpretação de teólogos, buscando alguma inteligência deste mistério, para que concorde com a fé católica, deve colocar bem a salvo que na própria natureza das coisas, isto é, independentemente do nosso espírito, o pão e o vinho deixaram de existir depois da consagração, de sorte que o Corpo adorável e o Sangue do Senhor Jesus estão na verdade diante de nós, debaixo das espécies sacramentais do pão e do vinho(31), conforme o mesmo Senhor quis, para se dar a nós em alimento e para nos associar pela unidade do seu Corpo Místico(32).

26. A única e indivísivel existência de Cristo nosso Senhor, glorioso no céu, não se multiplica mas se torna presente pelo Sacramento, nos vários lugares da terra, onde o Sacrifício Eucarístico é celebrado. E depois da celebração do Sacrifício, a mesma existência permanece presente no Santíssimo Sacramento, o qual no sacrário do altar é como o coração vivo de nossas igrejas. Por isso estamos obrigados, por um dever certamente suavíssimo, a honrar e adorar, na Sagrada Hóstia que os nossos olhos vêem, ao próprio Verbo Encarnado que eles não podem ver, e que, sem ter deixado o céu, se tornou presente diante de nós.

27.Confessamos igualmente que o Reino de Deus, começado aqui na terra na Igreja de Cristo, "não é deste mundo" (cf. Jo 18,36), "cuja figura passa" (cf. 1Cor 7,31), e também que o seu crescimento próprio não pode ser confundido com o progresso da cultura humana ou das ciências e artes técnicas; mas consiste em conhecer, cada vez mais profundamente, as riquezas insondáveis de Cristo, em esperar sempre com maior firmeza os bens eternos, em responder mais ardentemente ao amor de Deus, enfim em difundir-se cada vez mais largamente a graça e a santidade entre os homens. Mas com o mesmo amor, a Igreja é impelida a interessar-se continuamente pelo verdadeiro bem temporal dos homens. Pois, não cessando de advertir a todos os seus filhos que eles "não possuem aqui na terra uma morada permanente" (cf. Hb 13,14), estimula-os também a que contribuam, segundo as condições e os recursos de cada um, para o desenvolvimento da própria sociedade humana; promovam a justiça, a paz e a união fraterna entre os homens; e prestem ajuda a seus irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes. Destarte, a grande solicitude com que a Igreja, Esposa de Cristo, acompanha as necessidades dos homens, isto é, suas alegrias e esperanças, dores e trabalhos, não é outra coisa senão o ardente desejo que a impele com força a estar presente junto deles, tencionando iluminá-los com a luz de Cristo, congregar e unir a todos Naquele que é o seu único Salvador. Tal solicitude entretanto, jamais se deve interpretar como se a Igreja se acomodasse às coisas deste mundo, ou se tivesse resfriado no fervor com que ela mesma espera seu Senhor e o Reino eterno.

28.Cremos na vida eterna. Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo - quer as que se devem ainda purificar no fogo do Purgatório, quer as que são recebidas por Jesus no Paraíso, logo que se separam do corpo, como sucedeu com o Bom Ladrão -, formam o Povo de Deus para além da morte, a qual será definitivamente vencida no dia da Ressurreição, em que estas almas se reunirão a seus corpos.

29.Cremos que a multidão das almas, que já estão reunidas com Jesus e Maria no Paraíso, constituem a Igreja do céu, onde gozando da felicidade eterna, vêem Deus como Ele é (cf. 1Jo 3,2) (33), e participam com os santos Anjos, naturalmente em grau e modo diverso, do governo divino exercido por Cristo glorioso, uma vez que intercedem por nós e ajudam muito a nossa fraqueza, com a sua solicitude fraterna(34).

30.Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, a saber: dos que peregrinam sobre a terra, dos defuntos que ainda se purificam e dos que gozam da bem-aventurança do céu, formando todos juntos uma só Igreja. E cremos igualmente que nesta comunhão dispomos do amor misericordioso de Deus e dos seus Santos, que estão sempre atentos para ouvir as nossas orações, como Jesus nos garantiu: "Pedi e recebereis" (cf. Lc 11,9-10; Jo 16,24). Professando está fé e apoiados nesta esperança, nós aguardamos a ressurreição dos mortos e a vida do século futuro.

Bendito seja Deus: Santo, Santo, Santo! Amém.

Pronunciado diante da Basílica de São Pedro, dia 30 de junho do ano de 1968, sexto de nosso Pontificado.

PAPA PAULO VI

Fonte: http://www.vaticano.com/


domingo, 21 de agosto de 2011

TdL em Mutirão 12

A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NO BRASIL


 
Gustavo Gutiérrez confessou várias vezes que as intuições originárias da Teologia da Libertação nasceram no Brasil da década de 60. Reinava no país duplo fato de crescente dominação, aguçada pelo regime militar, e de ampla reação contra tal situação, especialmente no mundo universitário e em setores populares, alimentados pela pedagogia de Paulo Freire e pelos movimentos sociais. Este choque permitiu pensar a libertação. A Igreja do Brasil aí presente o fez em termos de fé. E assim interpretou o Concílio Vaticano II de maneira original, renunciando definitivamente reproduzir uma teologia que fosse mero reflexo da europeia.

Maneira simples de definir a teologia da libertação é relacioná-la com a práxis libertadora dos pobres. Plataforma fundamental para lançar ao ar diferentes expressões teológicas. Ela existe com o duplo propósito: realizar cristãmente a libertação dos pobres e nesse empreendimento pensar a fé cristã. Articula vida, práxis e ação transformadora com fé, reflexão teológica e experiência de Deus. Dois universos se conectam.

Com o uso de cinco preposições estabelecemos a relação entre a ação libertadora com a fé. Ela é teologia da práxis: assume dela a matéria de sua reflexão. Privilegia as perguntas teológicas que surgem da prática libertadora do cristão. Em vez de prender-se a questões abstratas ou a interesses puramente especulativos, escolhe os problemas que a prática da libertação do pobre e de todo oprimido levanta.

É teologia na práxis. Quem a pensa e produz, assume compromisso concreto de libertação. Está com a mão na massa. Aproxima-se e engaja-se no processo de libertação, para ser por ele estimulado, questionado.

É teologia para a práxis. A sua reflexão orienta-se a oferecer elementos de reflexão para os cristãos que nela estejam. Resolve-lhes os problemas que a práxis provoca em relação à fé. Aponta-lhes o seguimento de Jesus como modelo de compromisso.

É teologia pela práxis. Deixa-se criticar por aqueles que estão engajados para que não seja teologia alienada. A vida do cristão na práxis se faz instância crítica da teologia. No fundo, a caridade da ação libertadora critica a fé, purificando-a de restolhos conservadores e descolados da realidade do pobre.

Finalmente, é teologia motivada pela práxis da opção pela libertação dos pobres. Não se alinha na perspectiva do puro interesse acadêmico. O teólogo não se move a escrevê-la para debater questões com os colegas de métier. Mas a situação de opressão a pedir libertação leva-o a empenhar-se nesse tipo de teologia.

As comunidades eclesiais de base realizavam no coração da Igreja o projeto libertador que tal teologia elaborava. Elas são a face primordial e prática do que a teologia da libertação realiza em nível de pensamento, de reflexão. As CEBs vivem a teologia da libertação e esta se alimenta principalmente da vida e atividade das CEBs. Entre ambas reinam harmonia, estímulo, mútuo enriquecimento. Enquanto houver CEBs, haverá teologia da libertação e vice-versa. A atualidade de ambas se conectam.

João Batista Libanio
FONTE: http://www.jblibanio.com.br/