quinta-feira, 11 de outubro de 2012

MEMÓRIA E PROFECIA!


MEMÓRIA E PROFECIA!


O que vivi nestes dias aqui na Unisinos, em São Leopoldo – RS, em meio a tantas pessoas maravilhosas, oriundas de todos os cantos do continente americano, não tem explicação. Pela primeira vez participei do Congresso Continental de Teologia, no momento, enquanto aluno do bacharelado em Teologia, pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, e confesso, boquiaberto, que tudo o que ouvi e vi fortaleceram ainda mais a minha fé numa Igreja que quer ser verdadeiramente a Igreja dos Pobres e tornar mais evidente a abertura iniciada pelo Beato João XXIII em 1962. Volto para Vila Velha, Espírito Santo, com a certeza que tenho muito a fazer por minha Igreja. Me comprometo, de coração e alma com a Opção pelos Pobres, com a defesa permanente da Vida, em levar adiante o legado e a herança da Teologia da Libertação, que aqui foi me entregue e a todos que participaram do Congresso.
Passaram por aqui os pais da Teologia da Libertação de todo o continente americano. Com carinho, amor, paciência, sapiência e humildade, comum de quem muito caminhou, escutou, ascultou, acima de tudo, viveu o Evangelho encarnado nas paixões de nossa gente afroameríndia foram mostrando que é nossa a hora de continuarmos o legado.
É claro que senti falta de nossas matriarcas da Teologia da Libertação, mas em todas as missas e momentos de espiritualidade que participei pedi a Deus que as abençoasse onde estivessem e que as mantivessem fortes na caminhada, sempre fiéis ao Povo Santo de Deus.
Um grupo de corajosos bispos rezaram e compartilharam suas memórias e experiências. E puderam comprovar, que as pessoas estavam ali para aprenderem um pouco mais, e não cometerem heresias, como pensam alguns.  Em especial, D. José Maria Pires, padre conciliar, testemunha ocular do Concílio Ecumênico Vaticano II, que aos 95 anos, voz firme e humor inabalável, nos fez viajar aos anos de 1962 – 1965.
Seria injustiça da minha parte esquecer, por ventura, o nome de algum conferencista ou novos amigos que fui conhecendo pelos corredores e no restaurante universitário, por isso não citarei nominalmente, mas guardarei em meu coração todas as palavras que ouvi e que recebi, dos experientes teólogos da libertação e também de novos teólogos que estão surgindo no cenário. Acredito que a passagem está sendo feita: da primeira geração de teólogos da libertação, para uma segunda e finalmente para uma terceira geração – a minha e a de muitos que lá estavam.
Confesso que retorno cheio de alegrias e esperanças, mas também de muitas crises... Crises, que bem ou mal, me farão crescer teologicamente, humanamente.
A nossa missão a partir desse Congresso Continental de Teologia só tende a aumentar, desistir não é uma palavra que eu irei usar, não importa o que possa acontecer, pois não sou inocente e sei que o cenário de Igreja atual não vê com bons olhos essa organização, esse modo de pensar e ser Igreja. Já diria um profeta mártir de nossos dias atuais: “PREFIRO VIVER PELA VIDA, DO QUE VIVER PELA MORTE”!
Neste momento histórico, sinto o quanto é urgente e necessário não deixar cair a profecia e pude conversar, ouvir, abraçar, sorrir e beijar, profetisas e profetas, que não se calam e que continuam a testemunhar um Deus que se coloca ao lado dos mais fracos, dos espoliados, violentados, excluídos e esquecidos.
Que o sangue de nossos mártires não nos deixem esquecer, acomodar e parar nunca!
Que o cuidado entre os seres e para com os seres seja por toda a Terra, por ela devemos doar nossas vidas se for preciso, é o mínimo pelo muito que ela nos oferece.
A Ecologia é o novo paradigma, é a nova preocupação, é a nova crise hodierna. É o viés pelo qual teremos que refletir e colocar em prática neste século, ou pereceremos todos.
Me perguntaram outro dia: o que sobrou da Teologia da Libertação?
Eu respondi: Deus e os Pobres!
Hoje eu responderia: Deus, os Pobres e bons teólogos e teólogas da libertação que participaram do Congresso Continental de Teologia, e que irão escrever, irão divulgar, farão chegar a todos os lugares a fiel esperança.
Que nos 50 anos do Concílio Ecumênico Vaticano II, não pensemos no Concílio Ecumênico Vaticano III, mas no Jerusalém II.

Emerson Sbardelotti

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

TdL em Mutirão 39

ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA & MÍSTICA



“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá!” Gilberto Gil



A juventude é o sacramento do novo, e ela pode dar pistas para uma mística e espiritualidade libertadora no seguimento do Moreno de Nazaré.

O caminho para quem quer viver, não adianta falar apenas de mística e de espiritualidade, com características pejoteiras, não é nada fácil de ser percorrido, principalmente, por se espelhar no itinerário feito por Jesus e as Primeiras Comunidades.

A mística e a espiritualidade libertadora é regada com o sangue dos mártires!

E com o sangue dos mártires não se deve brincar.

Essa é a nossa herança enquanto desejosos de experimentar a mística e a espiritualidade de Jesus.

A juventude (mesmo se sabendo que na atualidade, grande parte dela, não vive num contexto cristão católico, numa família cristã católica e não foi ou não quer ser iniciada na fé) já poderia dizer, que a mística e a espiritualidade, juntas, são um caminho a ser trilhado...com sacrifícios e sorrisos...erros e acertos...mas o que é mística? O que é espiritualidade?

Para entender tais palavras e compreender seus conceitos é preciso ir às suas raízes: Mística, tem sua raiz na palavra mistério (mystérion – em grego – cf. Mc 4,11; 1Cor 2,1.7; Cl 1,27; Ef 1,9).

Leonardo Boff nos diz que o “mistério não equivale a enigma que, decifrado, desaparece. Mistério designa a dimensão de profundidade que se inscreve em cada pessoa, em cada ser e na totalidade da realidade e que possui um caráter definitivamente indecifrável. [...] Mistério, portanto, não constitui uma realidade que se opõe ao conhecimento. Pertence ao mistério ser conhecido. Mas pertence também ao mistério continuar mistério no conhecimento. Aqui está o paradoxo do mistério. Ele não é o limite da razão. Ao contrário. É o ilimitado da razão. Por mais que conheçamos uma realidade, jamais se esgota nossa capacidade de conhecê-la mais e melhor. Sempre podemos conhecê-la mais e mais. E isso indefinidamente”.

Quando falamos de mística nos referimos ao mistério que nos faz viver. É o mistério que comunica, é o sentido que tende a construir uma fraternura na Terra: harmonia com a Natureza, com as coisas todas, entre nós, com Deus.

É cantar aquele refrão do amigo Zé Vicente: “Todas as coisas são mistério! Todas as coisas são mistério!”.

Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a História e a Utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa, uma grande celebração!

Boff diz ainda que, “a mística não é pois, o privilégio de alguns bem-aventurados. Mas é uma dimensão da vida humana, à qual todos têm acesso, quando descem a um nível mais profundo de si mesmos, quando captam o outro lado das coisas e quando se sensibilizam diante da riqueza do outro e da grandiosidade, complexidade e harmonia do universo. Todos, pois, somos num certo nível, místicos. [...] Os místicos dão nome ao mistério. É sua ousadia, pois o mistério é inominável”.

A mística é o inominável!

Há vários conceitos e definições de espiritualidade, pois há várias espiritualidades. A que se propõe trabalhar aqui é a espiritualidade da libertação, cristã, católica, “pé-no-chão”.

Espiritualidade, tem sua raiz na palavra Espírito (ruah – em hebraico – cf. Gn 2,7).

O teólogo chileno, Segundo Galilea , nos diz que “a espiritualidade é conjunto de práticas e atitudes que manifestam a experiência de Deus (do Espírito Santo), numa pessoa, numa cultura, ou numa comunidade. É toda existência humana que põe em marcha a existência pessoal e comunitária. Trata-se de um estilo de vida que dá unidade profunda ao nosso orar, nosso pensar e nosso agir”.

A espiritualidade é o andar nos caminhos de Deus!

É fazer nosso o olhar de Deus. O olhar contemplativo de quem descobre o que não vê.

É fazer nosso o escutar de Deus. O escutar contemplativo de quem ausculta o que não se ouve.

D. Pedro Casaldáliga nos diz que “o espírito de uma pessoa é o profundo e o dinâmico de seu próprio ser: suas motivações maiores e últimas, seu ideal, sua utopia, sua paixão, a mística pela qual vive e luta e com a qual contagia. “Espírito” é o substantivo concreto, e “espiritualidade” é o substantivo abstrato. [...] Toda pessoa está animada por uma espiritualidade ou por outra, porque todo ser humano – cristão ou não, religioso ou não – é um ser também fundamentalmente espiritual. [...] O Deus de Jesus é o nosso Deus. Ele é a nossa profundidade máxima de nossa vida. A causa de Jesus é a nossa causa. Nosso viver é o Cristo (cf. Fl 1,21). Ele é a nossa paixão e seu Espírito é nossa espiritualidade”.

Todos nós carregamos nas costas uma pergunta fundamental: “qual é o sentido da minha vida, da minha existência?”.

Essa pergunta ganha um contorno novo quando uma crise se abate sobre a humanidade, sobre a sociedade, sobre a Igreja, sobre a família...

E é aí que acontece o fenômeno da fé mágica. A busca do milagrismo: “Deus vai aparecer, e vai dar um jeito em tudo. Ele vai dar um jeito na minha vida!”

E o que é o milagrismo?

É a transferência da responsabilidade dos seres humanos para Deus!

Por causa da situação caótica, transferimos para Deus a responsabilidade da mudança. Para que isso aconteça cada um deve conhecer a sua história pessoal, pois a ação de Deus se dá através da nossa ação.

E pode se perguntar: “Deus faz milagre na História?”. Faz! Mas jamais fora das coordenadas da História!

Não adianta ter somente fé, antes de qualquer coisa, está a experiência de Deus. Somente depois, com o tempo, vem a fé.

Experimentar Deus para se ter fé em Deus!

Quem não experimenta a Deus não tem fé em Deus!

Boff nos diz que “a fé só tem sentido e é verdadeira quando significa resposta à experiência de Deus, feita pessoal e comunitariamente. Fé é então, expressão de um encontro com Deus que envolve a totalidade da existência, o sentimento, o coração, a inteligência, a vontade. Os lugares e os tempos deste encontro se transformam em sacramentais, pontos referenciais da experiência de uma superabundância de sentido inesquecível”.

A CNBB em seu documento sobre a Evangelização da Juventude, destaca alguns meios para o crescimento da fé:

A oração pessoal: diálogo íntimo, profundo com Jesus Cristo, no Espírito que fortalece a dignidade enquanto filhas e filhos diante do Pai.

A oração comunitária: em comunidade é apresentado a Deus, os sucessos, as fraquezas, os sonhos, as lutas do povo, as celebrações dominicais. O domingo é o dia de encontrar-se com outros/as jovens e revigorar-se espiritualmente.

A participação na comunidade: a comunhão fraterna é essencial na vida cristã e toda juventude é convidada, desde cedo, a fazer esta experiência através de seu envolvimento nas diversas responsabilidades na comunidade.

A leitura orante da Sagrada Escritura: crer na Palavra de Deus é essencial para um processo de crescimento do/a jovem que quer se comprometer cada vez mais com o projeto do Criador. São quatro passos ou atitudes da Leitura Orante (Lectio Divina) da Bíblia:

1º. Passo: a leitura – o que o texto diz em si?

2º. Passo: a meditação – o que o texto diz para mim/nós?

3º. Passo: a oração – o que o texto me/nos faz dizer a Deus?

4º. Passo: a contemplação – começar a ver o mundo em que vivemos com os olhos dos pobres, com os olhos de Deus.

A vivência dos sacramentos: encontrar-se com Jesus, também na celebração dos sacramentos: de se tornar adulto na fé (batismo), de ser ungido para a missão (crisma), de ser testemunha da misericórdia e do perdão (reconciliação) e de ser pão para as necessidades do próximo (eucaristia).

A devoção a Nossa Senhora: o/a jovem se sente abraçado pela Mãe, meditando junto com ela os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

Os diversos encontros espirituais: momentos especiais para a juventude quando confrontamos com a pessoa, a proposta, a prática e a pedagogia de Jesus.

As leituras e reflexões: são de grande valia as leituras teológicas e espirituais, sempre com a ajuda de um bom dicionário bíblico, litúrgico, de símbolos, de mística e espiritualidade.


Emerson Sbardelotti
Estudante de Teologia do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo
Assessor Paroquial da Pastoral da Juventude na Paróquia NS da Conceição Aparecida, Cobilândia, Vila Velha - ES

TdL em Mutirão 38

A MÍSTICA E A ESPIRITUALIDADE DA PASTORAL DA JUVENTUDE



“Uma Igreja que não confere centralidade aos pobres e não assume a causa da justiça dos pobres não está na herança de Jesus”. Leonardo Boff – Teólogo.



Na América Latina e no Caribe, no Brasil, precisamente, o compromisso com as causas do Reino, nas causas do Povo, fizeram da Pastoral da Juventude, um ponto de encontro para as discussões sócio-políticas, econômicas e religiosas que não podem ser vividas, entendidas e interpretadas separadamente: eis o longo Caminho de Emaús a ser percorrido!

Falar de Mística e Espiritualidade, nos dias atuais, dias de muita violência, pode representar e significar FUGA! E está significando fuga. Está significando: uma falta de compromisso com a realidade a qual estamos inseridos.

Falaremos aqui, da Mística e da Espiritualidade da Pastoral da Juventude, portanto, uma mística e uma espiritualidade pé-no-chão, cristã, católica e da Libertação.

É encontrar em nós e na comunidade o Mistério que nos faz viver com os pés no chão, mesmo quando voamos alto em nossos sonhos e utopias, atentos aos apelos, aos clamores de nossa gente simples, espoliada, excluída, marginalizada.

Tenho dito nas assessorias que presto aos grupos de base que:

Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a História e a Utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa .

Espiritualidade é aquilo que faz no ser humano uma transformação. O nosso modo de entender o que há de transcendente à nossa volta .

Entendo por transcendente, aquilo que vai além dos limites da experiência, o que nos ultrapassa. Assim dizemos que Deus e as realidades espirituais são transcendentes.

Mística e Espiritualidade não são terrenos onde só andam os que possuem algum tipo de religião. Religiosos ou ateus, todos possuem seus critérios de interpretar os fatos, de enxergar o invisível em tudo o que lhes chega ao conhecimento. As pessoas são diferentes, mas todas têm uma mística e uma espiritualidade.

Nestes anos todos de diakonia e koinonia à Pastoral da Juventude e principalmente ao Reino, entendo que o único espaço de revelação do transcendente que nos é concedido nesta Vida passa exatamente pelas realidades mundanas nas quais existimos, e por elas optamos, sofremos e nos alegramos. Nossos sonhos, nossos valores fazem parte da nossa mística e da nossa espiritualidade porque eles modificam o filtro através do qual enxergamos e interpretamos o mundo. Eles modelam a qualidade da nossa mística e espiritualidade e principalmente do nosso agir enquanto seres humanos.

Necessitamos do mistério, necessitamos do invisível.

A palavra mística tem a sua raiz na palavra MISTÉRIO = O QUE ESTÁ VELADO, OCULTO. Este mistério, para nós da Pastoral da Juventude, é o Mistério Pascal do Moreno de Nazaré, Vivo-Crucificado-Ressuscitado; é a partir dele que a nossa mística acontece, e demais nenhuma outra.

Assim também nossa espiritualidade. A palavra espiritualidade tem sua raiz na palavra ESPÍRITO = SOPRO, HÁLITO DE VIDA. É o Espírito Santo de Deus que nos faz caminhar em direção aos jovens, aos pobres, ao Povo, nas causas do Reino, inclusive no martírio.

Nossa mística e espiritualidade busca mais o sentido da Vida!

Se encaramos, se assumimos que somos apenas seres humanos, por isso mesmo, imperfeitos, devemos deixar Deus ser Deus, e daí nossa felicidade será intensa, completa.

Estamos vivendo uma crise da pós-modernidade: guerras, corrupção, violência, aumento do consumo de drogas, AIDS. Neste contexto, o retorno do sagrado é muito forte e desordenado.

Desordenado, pois vários deuses aparecem como se fossem águas represadas. E aparecem aos montes e para todos os gostos. Deuses, no plural, costuma a se equivaler a ÍDOLOS. Aqui na América Latina e no Caribe, o problema não é a falta de Deus, mas o excesso de deuses. Nós temos deuses para tudo quando é lado.

Então qual é o Deus verdadeiro?

Deus verdadeiro é o Deus desconhecido que Paulo falava!

Deuses conhecidos são feitos para satisfazer nossa imagem e semelhança, são deuses do escambo, são deuses do lucro.

Quando se conhece muito Deus, é que deixou de ser Deus, passou a ser um produto em nossas mãos.

O Deus verdadeiro é sempre desconhecido!

O Deus desconhecido se descobre no INFERNO: no inferno do sofrimento humano! No momento em que já quase não existe a dignidade humana, onde toda fiel esperança quase desaparece.

Se a mística e a espiritualidade não levam à liberdade, não é mística e espiritualidade.

Se não faz com que o ser humano possa caminhar, não tem sentido acreditar em sua existência.

O Moreno de Nazaré desce ao inferno do sofrimento humano para caminhar e abraçar o Deus Verdadeiro!

Não há outra forma de chegar a Deus se não for pelo sofrimento humano, não tem jeito. Fazer um deus segundo a própria vontade, somente irá justificar toda pequenez e egoísmo que há dentro de cada um.

Acreditar nos passos que podem e devem ser dados, um de cada vez, viver intensamente cada um desses passos é o primeiro caminho para se viver a mística e a espiritualidade da Pastoral da Juventude.

É preciso voltar às fontes primordiais de nossa fé, de nossa vida.

Melhor do que receber o copo d’água é ir a fonte!

A fonte de toda atividade profética da Pastoral da Juventude é o Moreno de Nazaré!

Deve-se tentar segui-lo na medida do possível; seus passos devem ser passos dados no cotidiano; é tentar cumprir o mandamento novo: amar a Deus como elemento fundante de uma mística e espiritualidade que brota do chão de nossos dias, que germina de nossa realidade dura e sofrida.

Os bispos diziam em Puebla (1979): “a opção preferencial pelos jovens é a mais notável tendência da vida religiosa latino-americana” , e é a mais notável tendência da vida da juventude que se coloca à disposição do Reino neste Continente da Esperança.

Jovens comprometidos com a realidade na qual se está inserido se tornam referenciais para toda a comunidade, para toda a Igreja e para toda a sociedade. Ao se afastarem de suas bases por conta de compromissos assumidos na estrutura eclesial, o elo se que quebra, se isso acontece com frequência, algo está errado na caminhada.

Um grupo de base da Pastoral da Juventude sempre reza, sempre ora, mas não esquece que toda discussão, parte de dentro para fora da Igreja, não há portas fechadas, não há línguas estranhas, nem anjos subindo ou descendo, pois se fala o que a juventude entende e compreende, não pode haver panelinhas, nem falsidades, deve prevalecer sempre: o respeito, a amizade, o diálogo e o perdão.

A mística e a espiritualidade nasce do sangue derramado pelos mártires da caminhada latino-americana e principalmente do sangue do primeiro mártir: o mártir Jesus!

A mística e a espiritualidade da Pastoral da Juventude não é para gente frouxa,não é para gente covarde; é mística e espiritualidade cristã que tem sua centralidade num ser humano, judeu, do século I E.C., um habitante das regiões do Oriente Médio, queimado de sol, agricultor, carpinteiro, contador de histórias, desde o nascimento: pobre (como a maioria dos pobres que encontramos nas ruas de nossas cidades todos os dias mas que não se dá a devida atenção).

Toda mística e espiritualidade da Pastoral da Juventude nasce de uma profunda vivência orante bíblico-litúrgica.

Como é prazeroso para um grupo de base poder degustar e refletir a Palavra de Deus a partir da realidade em que vive, usando inclusive, o método da Leitura Orante da Bíblia.

Iniciando a reunião, o encontro de irmãos, rezando o Ofício Divino: das comunidades, da juventude, dos mártires da caminhada...

Se colocando na frente de Deus, disposto a escutá-lo e saber o que Ele pede.

Todo grupo de base da Pastoral da Juventude inicia seu caminho místico, seu itinerário espiritual, a partir da Sagrada Escritura, da Sagrada Liturgia, inculturadas e encarnadas no cotidiano.

Deve construir suas experiências, escutando o que Deus fala hoje, agora mesmo.

Orar é escutar o que Deus tem a nos falar!

Orar é silenciar, mesmo no turbilhão barulhento de nossos dias!

Orar é auscultar o que a natureza-criação expressa cotidianamente!

Orar é agradecer-pedir quando todos os sentidos de nosso corpo embebedarem-se do sopro de Deus: RUAH – VIDA!

Quem está com sede quer água!

Mas beber em qual poço? Com qual vasilha? Com qual balde?

Como se está buscando esta fonte, aqui no grupo, na comunidade, na Igreja, no Brasil, na América Latina e no Caribe?

Que fonte é esta que me faz caminhar no deserto? Que deserto é este?

Que fonte é esta que me faz refletir sobre mística e espiritualidade?

Que fonte é esta que me faz praticar?

A fonte, a água, o poço: há um mistério que envolve todo o processo de procura e encontro, há algo que transcende.

A fonte Jesus é transcendente mas não está longe! Está aqui e agora. Está nas realidades mundanas nas quais existimos.

Beber em seu próprio poço: descobrir o caminho que leva de volta às alegrias-tristezas, conquistas-decepções...aquilo que busca o sentido da Vida!

Qual o sentido da tua vida?

Você faz parte da herança de Jesus de Nazaré?

Sim ou sim?







Emerson Sbardelotti

Estudante de Teologia do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo

Assessor paroquial da Pastoral da Juventude na Paróquia NS da Conceição Aparecida – Cobilândia, Vila Velha - ES

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

TdL em Mutirão 37

O VATICANO II - CINQUENTA ANOS DEPOIS

 
Pelo Pe. Prof. Dr. José Comblin *
In memorian

 
Síntese: Para o Autor, o Vaticano II chegou tarde. Não houve tempo suficiente para implementar seu espírito, porque, logo após seu encerramento, aconteceu a maior revolução cultural do Ocidente e os desafetos do Concílio acusaram-no dos problemas surgidos dessa revolução e foram ouvidos. Por isso, a Igreja não só continuaria tendo dificuldade de adequar sua linguagem segundo os novos tempos, mas, fixando-se em esquemas mentais do passado, até faria o movimento contrário. Assim, por um lado, o Vaticano II ficará conhecido na história como uma tentativa de reformar a Igreja, e, por outro, como um sinal profético, uma voz evangélica, uma chamada para olhar para o futuro - como Medellín, em relação à América Latina, também contestado, é um farol que mostra o caminho.

 
1. Antes do Concílio

 
A maioria dos bispos que chegou ao Concílio Vaticano II não entendia para que tinham sido convocados. não tinham projetos. Pensavam, como os funcionários da Cúria, que o Papa, sozinho, podia decidir tudo, e não era necessário convocar um concílio. Havia, porém, uma minoria muito consciente dos problemas do povo católico, sobretudo nos países intelectual e pastoralmente mais desenvolvidos. Lá, tinham experimentado episódios dramáticos ocasionados da oposição entre as preocupações dos sacerdotes mais inseridos no mundo contemporâneo e a administração vaticana. Sabiam o que tinham sofrido sob o pontificado de Pio XII, que se opunha a todas as reformas, tão esperadas por muitos. Todos os que buscavam uma inserção da Igreja no mundo contemporâneo, com seu desenvolvimento das ciências, sua tecnologia e nova economia, bem como seu espírito democrático, se sentiam reprimidos. Havia, pois, uma elite de bispos e cardeais que estavam vem conscientes das reformas que percebiam como necessárias e, então, decidiram aproveitar a oportunidade oferecida providencialmente por João XXIII. A Cúria não aceitava as ideias do novo Papa, e muitos bispos curiais estavam desconcertados, uma vez que o modelo de Papa de João XXIII era muito diferente do modelo dos Papas Pios, modelo considerado obrigatório desde Pio IX.

As comissões preparatórias do Concílio eram claramente conservadoras, e, por isso, no dia da abertura do Concílio, as perspectivas dos teológos e peritos trazidos pelos bispos mais conscientes eram bastante pessimistas. Porém, o discurso de abertura de João XXIII rompeu decididamente com a tradição dos Papas anteriores. João XXIII anunciou que o Concílio não se encontrava reunido para fazer novas condenações de heresias, como era de praxe. Disse que se tratava de apresentar ao mundo uma outra imagem de Igreja, imagem que a tornaria mais compreensível aos contemporâneos. A maioria dos bispos não entendeu nada e pensou que o Papa não tinha dito nada, porque não tinha mencionado nenhuma heresia. Para o Papa, não se tratava de aumentar o número de dogmas, mas de falar ao mundo moderno de tal modo que ele pudesse entender. Uma minoria entendeu a mensagem e percebeu que teria o apoio do Papa em sua luta contra a Cúria.

A Cúria tinha uma estratégia. Havia um jeito de anular o Concílio. As comissões tinham preparado documentos sobre todos os assuntos anunciados. Todos os documentos eram conservadores e não permitiam nenhuma mudança significativa em matéria de pastoral. Estes documentos seriam entregues às comissões conciliares, que os aprovariam, e o Concílio seria concluído em poucas semanas, com documentos inofensivos, que não mudariam nada. O importante era fazer uma lista de comissões com bispos conservadores e explicar ao Concílio que o mais prático seria aceitar as listas já preparadas pela Cúria, uma vez que os bispos da assembléia não se conheciam.

O primeiro que descobriu esta estratégia foi Manuel Larraín, bispo de Talca, no Chile, e presidente do CELAM. Ele, com Helder Câmara - eram amigos íntimos, acostumados a trabalhar juntos - foram avisar os cabeças do episcopado reformador. A Cúria tinha preparado uma lista de membros de comissões, escolhidos de tal maneira que se sabia que aprovariam os textos curiais sem dificuldade. Tratava-se, então, de rechaçar as listas preparadas pela Cúria e pedir que comissões fossem eleitas pelo próprio Concílio. Os líderes - Doepfer, de Munique, na Alemanha; Liénart, de Lille, na França; Suenens, de Malinas, na Bélgica; Montini, de Milão, na Itália, e mais alguns - tomaram a palavra e pediram que o próprio Concílio nomeasse os membros das comissões, o que foi aprovado por aclamação.

A conclusão foi que as novas comissões rechaçaram todos os documentos preparados pelas comissões preparatórias, o que foi uma afirmação do episcopado em relação à Cúria romana. O Papa estava feliz. Claro que, em poucas horas, Manuel Larraín e Helder Câmara fizeram listas de bispos latino-americanos que podiam integrar as comissões, e outros fizeram o mesmo em relação a outros Continentes, também porque Manuel Larraín tinha muitos contatos mundo afora. Desde o início, ficou claro que o Concílio travaria uma batalha após outra contra a Cúria romana. O Papa não tinha força para mudar a Cúria. Até hoje, os Papas são prisioneiros da Cúria, que teoricamente depende deles. A administração é mais forte do que o governante da Igreja, como sucede em muitas nações. A administração pode impedir qualquer mudança somente por sua inércia. Nem sequer João Paulo II se atreveu a intervir na Cúria. Impotente em Roma, ele foi ao mundo, onde foi aclamado triunfalmente.

A maioria conciliar que o grupo renovador conseguiu conquistar não queria ruptura e, por isso, sempre deu importância à minoria conservadora, que embora pequena, representava os interesses da Cúria. Por isso, muitos textos ficaram ambíguos, uma vez que depois de um parágrafo reformista vinha um parágrafo conservador que afirmava o contrário. Anunciavam-se temas novos, mas logo se abria espaço para temas velhos, da tradição dos Papas Pios. Essa ambiguidade prejudicou muito a aplicação do Concílio.

A minoria conciliar e a Cúria não se converteram. Com efeito, opõem-se ao Vaticano II e encontram argumentos nos próprios textos conciliares conservadores. Quando João Paulo II citava os textos do Vaticano II, citava os textos mais conservadores, como se os outros não existissem. Por exemplo, na Lumen Gentium, está claro o destaque que se dá ao Povo de Deus; evidentemente, quando se trata da hierarquia, o Povo de Deus desaparece e tudo continua como sempre. Em 1985, por instigação do então cardeal Ratzinger, a expressão ´"povo de Deus" foi eliminada do vocabulário do Vaticano. Desde então, nenhum documento romano faz referência ao Povo de Deus, que era tema importante da Constituição conciliar. O cardeal Ratzinger tinha descoberto que "povo de Deus" era um conceito sociológico, embora o conceito de "povo" não se encontre nos tratados de sociologia. O povo não existe sociologicamente, porque é um conceito teológico, bíblico!

Esta situação terá muita importância na ulterior evolução do Vaticano II, na Igreja. Desde o começo, houve um partido ao qual sempre se deu importância e poder, e que lutou contra todas as novidades. Nas eleições pontifícias - que, como sempre, são manipuladas por alguns grupos -, o problema do Vaticano II foi decisivo, e os Papas foram eleitos, porque se sabia de suas restrições aos documentos conciliares em tudo o que estes têm de novo. O atual Papa pode viver mais dez anos ou mais. Depois dele, podemos imaginar que novamente será eleito um Papa pouco comprometido com o Concílio, para usar um eufemismo, porque os grupos que defendem essa posição são muito fortes na Cúria e no colégio dos cardeais; e não há sinais de que as futuras nomeações possam trazer mudanças de orientação. As últimas, na Cúria, são eloquentes.

 
2. De 1965 a 1968

 
A história da recepção do Vaticano II foi determinada por um acontecimento totalmente imprevisto. 1968 é uma data simbólica, a da maior revolução cultural na história do Ocidente, mais que a Revolução francesa ou a Revolução russa, porque diz respeito à totalidade dos valores da vida e de todas as estruturas sociais. A partir de 1968, o que ocorreu foi muito mais do que um protesto dos estudantes. Foi o começo de um novo sistema de valores e de uma nova interpretação da vida humana.

O Vaticano II respondeu às interrogações e aos desafios da sociedade ocidental em 1962. Os problemas tratados, as respostas propostas, as discussões sobre as estruturas eclesiais, as ideias sobre uma reforma litúrgica, tudo isso tinha sido preparado por teólogos e pastoralistas, sobretudo a partir dos anos 30, nos países da Europa central: França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça e algumas regiões do norte da Itália. A sociedade européia, destruída pela guerra, estava reconstruída, e a Igreja ocupava um lugar de destaque na sociedade. Era governo na Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e tinha participação nos governos da França. Na verdade havia perdido contato com a classe operária; porém estava diminuindo numericamente em função da evolução da economia para os serviços. O número de católicos praticantes também estava diminuindo, embora não de maneira que chamasse a atenção. A Igreja contava com um clero fiel, um episcopado bastante instruído; embora socialmente pouco reformista, identificava-se com os partidos democrático-cristãos. O grande problema da Igreja era a tensão entre os setores mais comprometidos com a nova sociedade e o mundo romano de Pio XII, apoiado pelas Igrejas de países menos desenvolvidos e mais tradicionais, como a Espanha, Portugal, a América Latina, a Itália - sobretudo ao sul de Florença - e pelas populações católicas do Sudeste europeu. Os problemas eram estruturais; não atingiam nem os dogmas nem a moral tradicional.

Em 1968, começava abruptamente uma revolução total, portanto, que atingia todos os dogmas e toda moral tradicional, bem como todas as estruturas institucionais, tanto da Igreja como da sociedade. Em 1968, teria sido impossível o Vaticano II, porque não haveria ninguém ou quase ninguém para entender o que estava passando. O Vaticano II respondeu aos problemas de 1962; não tinha respostas aos desafios de 1968. Em 1968, o Concílio teria sido um Concílio conservador, assustado pelas radicais transformações culturais que então começavam.

As manifestações exteriores da revolução dos estudantes em todo o mundo ocidental desenvolvido foram reprimidas com facilidade. Por isso, muitos pensaram que ela teria sido um episódio sem consequências significativas. Na verdade, era o começo de uma nova era, que ainda se encontra em pleno desenvolvimento. 1968 significa mudança de toda a política, a educação, a organização da vida, a economia e de todos os valores morais.

1968 é uma data simbólica que evoca os grandes acontecimentos que mudaram o mundo na década dos anos 60, sobretudo a partir de 1965.

a. 1968 significou uma crítica radical a todas as instituições estabelecidas e a todos os sistemas de autoridade. Era a contestação global a toda a sociedade organizada tradicional. A crítica dirigia-se ao Estado, à Escola em todos os seus níveis, ao Exército, ao sistema jurídico, aos hospitais. Era uma crítica a todas as autoridades estabelecidas que mandam por força das estruturas e fazem de todos os cidadãos prisioneiros das instituições. É evidente que a Igreja católica está incluída nessa crítica. A Igreja católica era o típico modelo de um sistema institucional radicalmente autoritário. Ela foi imediatamente atacada e denunciada com vigor. As mudanças conciliares, tão típicas, não podiam convencer a nova geração. O Vaticano II era totalmente inofensivo, se comparado à revolução cultural iniciada em 1968.

b. 1968 iniciou uma luta contra todos os sistemas de pensamento, o que foi chamado de “os grandes relatos”. Os sistemas são formas de manipulação do pensamento, são expressões de dominação intelectual. Não se aceita nenhum sistema que tenha a pretensão de ser “a verdade”. Com isso, sofrem os dogmas e o código moral da Igreja católica, bem como toda a sua pretensão de “magistério”. O Vaticano II nem sequer podia imaginar que tal situação tivesse sido possível. Lá, não houve discussão de nenhum dogma, e todo o sistema de pensamento nunca foi questionado. Agora, a nova geração contesta todo o sistema doutrinal da Igreja católica, porque esse sistema não permite o livre exercício do pensamento. Não é que a nova geração queira negar todo o conteúdo doutrinal; não quer é aceitar todo um sistema, sem discuti-lo primeiro; e não quer aceitá-lo em bloco. Quer examinar cada elemento, aceitar ou não aceitar.

c. Simultaneamente se deu a explosão da revolução feminista. O descobrimento da pílula, que permite evitar a fecundação e que, portanto, facilita a limitação da natalidade, despertou universal entusiasmo entre as mulheres que tomaram conhecimento da novidade. Era um elemento básico para a libertação das mulheres, que assim deixavam de ser totalmente dependentes de maternidades repetidas. Também era uma novidade para a Igreja. Na Bíblia, nada havia sobre essa técnica. Os episcopados dos países socialmente mais desenvolvidos e o s teólogos consultados pelo Papa opinaram que, na moral cristã, não havia nada que pudesse condenar o uso da pílula. Todavia, o Papa deixou-se impressionar pelo setor mais conservador, embora minoritário, e publicou a encíclica Humanae Vitae, que teve o efeito de uma bomba. Muitos não conseguiam acreditar que o Papa tivesse assinado essa encíclica. A revolta entre as mulheres católicas foi enorme. Elas não aceitaram a proibição papal e aprenderam a desobediência. A partir desta data, veio o êxodo das mulheres. Ora, as mulheres são as que transmitem a religião. Quando, pois, as mulheres deixaram de ensinar a religião a seus filhos, apareceram gerações que ignoram totalmente o cristianismo. Muitos bispos ficaram desnorteados; não podiam fazer nada, porque o Concílio não havia sequer tocado no exercício do primado do Papa. O Papa decide sozinho, mesmo contra todos. fora o caso: o Papa havia decidido contra os bispos, os teólogos, o clero, os leigos informados. Por infelicidade, foi obra do Papa Paulo VI, que, por tantos méritos na história do Concílio, aparecia como um homem de abertura de mente. Por que justamente ele? De outro Papa ter-se-ia entendido melhor, embora o efeito produzido teria sido igual. Para muitos, a Humanae Vitae era um desmentido do Vaticano II. Nada tinha mudado!

d. 1968 e a sociedade de consumo. Até então, o consumo era regulado pelos costumes. Havia um consumo moderado e limitado. Os ricos não ostentavam sua riqueza. O consumo dependia da regularidade da vida: comida regulares e tradicionais, festas tradicionais com gastos tradicionais, num ritmo de vida em que o trabalho ocupava o lugar central. A partir da década de 60, o trabalho deixou de ocupar o centro da vida. De ora em diante, o centro se constitui na busca do dinheiro, a fim de pagar as férias, os fins de semana, as festas e o consumo festivo. O trabalho permite o consumo. O trabalho agrícola desaparece nos países mais desenvolvidos, e o trabalho industrial diminui. As estruturas sociais estimulam o consumo, e os que não podem consumir se consideram inferiores. As pessoas gastam o que não têm e pagam em 12, 48, 70 prestações. Pode-se consumir sem pagar logo. Paga-se depois de anos. Os jovens gastam o mais que podem.

e. O capitalismo descontrolado. A supressão de todas as leis que controlam os movimentos de capitais estimula a corrida à riqueza. A nova moral qualifica as pessoas pelo dinheiro que acumulam e pela ostentação de sua riqueza. De ora em diante, os donos do capital fazem o que querem e como querem, correndo o risco de provocar crises financeiras, cujas vítimas são os pequenos. Até a queda do comunismo na URSS, o magistério lutava contra esse comunismo e dava pouca atenção ao rápido crescimento de uma nova forma de capitalismo. Na América Latina, a Igreja reagia muito timidamente à conquista econômica por grandes centros capitalistas mundiais. Na prática, a Igreja vai esquecendo-se da Gaudium et Spes e vai aceitando a evolução do capitalismo descontrolado. A doutrina social da Igreja perdeu todo o sentido profético, porque na prática, não houve aplicação alguma em casos concretos. Na prática, o magistério aceitou o novo capitalismo.

Nada disso foi provocado pelo Concílio. Não se pode atribuir ao Vaticano II tudo o que sucedeu como consequência da grande revolução cultural do Ocidente. Mas essa revolução teve, sim, imediatas repercussões na juventude da Igreja. Todos sentiram que a instituição da Igreja estava sendo profundamente questionada e desprestigiada. Esse desprestígio não veio do Vaticano II, mas, sim, da grande crise cultural. O efeito mais visível foi a crise sacerdotal: uns 80.000 sacerdotes deixaram o ministério. Quase todos os seminaristas abandonaram os seminários. Pelos adversários do Concílio, tudo isso foi consequência do mesmo. Na verdade, nele não havia nada que pudesse explicar este fenômeno, nem explicar a saída de milhões de católicos leigos. Tudo se explica porém, a partir da revolução cultural da juventude.

 
3. A reação da Igreja foi a que se podia temer

 
Os Papas e muitos bispos aceitaram o argumento dos conservadores, segundo os quais os problemas da Igreja vinham do Vaticano II. Vários teólogos que tinham sido defensores e promotores dos documentos conciliares mudaram e adotaram a tese dos conservadores, entre eles o próprio Papa atual. Começaram a dizer que o Concílio “foi mal interpretado”. Por isso, o Papa convocou um Sínodo extraordinário, em 1985, por ocasião dos 20 anos do encerramento do Concílio, para lutar contra as falsas interpretações e dar uma interpretação correta. Na prática, a nova interpretação, a “correta”, consistia em suprimir tudo o que havia de novo nos documentos do Vaticano II. Um sinal emblemático foi a condenação da expressão “Povo de Deus”. Acabou-se a época das experiências, dizia João Paulo II. Praticamente, o que se fez foi repetir o que se tinha feito depois da Revolução francesa: fechar portas e janelas, a fim de cortar a comunicação com o mundo exterior e reforçar a disciplina, para evitar as saídas. Não se conseguiu, porém, evitar as saídas. O problema é que a Igreja já não conta com um imenso campesinato pobre. Na América Latina, os pobres vão para os evangélicos.

Desde então, na linguagem oficial, faz-se referência ao Concílio, sua mensagem permanece, porém, ignorada. O Concílio permanece na memória e na fundamentação das minorias sensíveis à evolução do mundo que nele buscam argumentos para pedir mudanças e respostas aos desafios do mundo atual. A juventude – os novos sacerdotes incluídos – não sabe o que foi esse Vaticano II, que, para eles, não suscita nenhum interesse. Estão mais interessados no catolicismo anterior ao Vaticano II, com sua segurança, sua beleza litúrgica e a justificação de um autoritarismo clerical que os exime dos problemas.

A reação da Igreja manifestou-se pela a volta à disciplina anterior. O símbolo dessa reação foi o novo Código de Direito Canônico, em que se mantém toda a estrutura eclesiástica do Código de 1917, às vezes, com uma linguagem menos autoritária e mais florida. O Novo Código fechou as portas a todas as mudanças que podiam inspirar-se no Vaticano II. Tornou-se historicamente inoperante o Vaticano II.

Em relação ao mundo, a prioridade dada à luta contra o comunismo – um comunismo já em plena decadência – fez com que a Igreja aceitasse, em silêncio – os silêncios da doutrina social da Igreja, dizia o padre Calvez -, o capitalismo desenfreado que se instalou na década de 70. Na América Latina, o Vaticano apoiou as ditaduras militares e condenou todos os movimentos de transformação social, em nome da luta contra o comunismo. A partir do governo Reagan, a aliança com os Estados Unidos manteve-se fiel, até a guerra do Iraque, que, pro fim e por um momento, abriu os olhos do Papa. Dessa forma, a Igreja, em sua pastoral real, se aliava aos poderosos do mundo e se condenava a ignorar o mundo dos pobres. As nomeações episcopais foram altamente indicativas.

Na América Latina, a reação da Igreja frente à revolução cultural iniciada no mundo desenvolvido foi muito dolorosa. Destruiu algo novo que estava nascendo. Pois, na América Latina, o Vaticano II significou uma mudança real. Foi o Vaticano II que converteu o episcopado e boa parte do clero, bem como dos religiosos. Havia sacerdotes, religiosos, leigos e também bispos que tinham feito uma opção pelos pobres. Em Roma, os bispos latino-americanos se encontraram e foram evangelizados pelos bispos da opção pelos pobres. O CELAM, com a aprovação de Paulo VI, convocou a assembléia de Medellín, que mudou os rumos da Igreja, porque tirou conclusões práticas do Concílio. Fez opção pelos pobres e comprometeu-se por uma mudança social radical; legitimou as comunidades eclesiais de base e a formação dos leigos a partir da Bíblia; optou pela ação política. As CEBs trouxeram uma estrutura nova, em que os leigos tinham possibilidade de iniciativa e um poder real, embora limitado. Em várias regiões, Medellín não foi aceito ou não foi aplicado, mas houve regiões importantes em que ele mudou a Igreja, e esta mudança provinha da aplicação do Vaticano II.

Todo esse movimento foi sistematicamente atacado, em Roma, com argumentos proporcionados por setores reacionários da América Latina. Desde 1972, a campanha contra Medellín foi dirigida por Alfonso López Trujillo. Apesar dessa campanha, em Puebla, em 1979, Medellín se salvou. Porém, no pontificado de João Paulo II, a pressão aumentou. As advertências romanas, as nomeações episcopais, as expressões de repressão contra os bispos mais comprometidos com Medellín tiveram efeito. A condenação da teologia da libertação, em 1984, queria dar o golpe final. A carta do Papa à CNBB, no ano seguinte, limitou um pouco o alcance da condenação, porém, a teologia da libertação continuou algo suspeito.

 
4. O que fica do Vaticano II

 
Hoje em dia, as reformas conseguidas pelo Vaticano II parecem-nos muito tímidas e totalmente inadequadas por causa de sua insuficiência. Ter-se-á que ir muito mais longe, porque o mundo mudou mais nos últimos 50 anos do que nos 2.000 anteriores.

Do Vaticano II destacamos o seguinte, que deve permanecer como uma base para as reformas futuras:

- O retorno à Bíblia como referência permanente da vida eclesial, acima de todas as elaborações doutrinais, os dogmas e as teologias.

- A afirmação do Povo de Deus como participante ativo na vida da Igreja, tanto no testemunho da fé como na organização da comunidade, com uma definição jurídica de direitos e com direito a recurso nos casos de opressão por parte das autoridades.

- A afirmação da Igreja dos pobres.

- A afirmação da Igreja como serviço ao mundo e sem buscar poder.

- A afirmação de um ecumenismo de participação mais íntima entre as Igrejas cristãs.

- A afirmação do encontro entre todas as religiões, incluindo as opções não-religiosas.

- Uma reforma litúrgica que use símbolos e palavras compreensíveis para os homens e as mulheres de hoje.

 
5. As condições da humanidade, hoje: em radical transformação

 
a. Como entender a fé?

 
A partir da modernidade, muitos cristãos perderam a fé ou imaginaram que a haviam perdido, porque tinham uma ideia equivocada da mesma. Atualmente, esse fenômeno se multiplica, porque a formação intelectual se desenvolveu, e muitos ficaram com uma consciência religiosa infantil ou primitiva, que eles logo rejeitam ou perdem, assim que chegam à adolescência.

Os povos primitivos, de cultura oral, e as crianças crêem tanto nos objetos religiosos como nos objetos de sua experiência. Por isso, é fácil imaginar que a fé é algo como a experiência imediata. Quando se dão conta de que não podem crer nos objetos da religião dessa forma – uma vez que adquirem espírito crítico -, crêem que perdem a fé, uma vez que a confundem com sua consciência religiosa infantil.

A fé é diferente da experiência imediata, do conhecimento científico ou do conhecimento filosófico. O objeto da fé é Jesus Cristo, sua vida. É aderir a essa vida e adotá-la como norma de vida, porque ela tem um valor absoluto, porque essa vida é a verdade: é assim que devemos ser homens e mulheres. Não é uma evidência que não permite dúvidas. É uma percepção de verdade, que nunca suprime uma fresta de dúvida, porque sempre é um ato voluntário e porque não se vê essa verdade. O crente não se sente obrigado a crer. É um ato de entrega de sua vida; é a eleição de um caminho. Não há evidência de que Jesus vive e está em nós, mas se reconhece, porque se sente uma presença que é um chamado repetido, apesar de todas as dúvidas.

Hoje em dia, o Papa condena como relativismo fenômenos próprios do ser humano atual, que não consegue mais entender a maneira tradicional de conhecer os objetos da religião. Estes já não fazem parte de sua experiência de vida. A fé é um conhecimento todos especial da vida de Jesus, incomparável com as certezas que ele adquire no dia a dia da vida. Esta condição do ser humano atual demanda uma profunda revisão da teologia da fé. Já está sendo feita esta revisão da teologia, mas ela não é divulgada, o que permite que milhões de adolescentes percam a fé, sobretudo porque não se lhes explica o que é.

 
b. A religião

 
Nossos contemporâneos deixam os atos litúrgicos oficiais da Igreja porque os acham chatos. A repetição do mesmo é chata. A repetição de “domingos do ano” durante tantas semanas é algo chato. A linguagem litúrgica é pior, porque se dá em língua popular. Quando a liturgia era em latim, era melhor, porque não se entendia. Uma vez que se entende, se nota que o estilo é insuportável. Ela se utiliza de uma linguagem pomposa, formalista, de uma linguagem de corte: “humildemente pedimos...” Ninguém fala assim hoje em dia. “Associamos nossa voz à voz dos anjos...”, fórmula convencional que não corresponde a nada na vida. E há centenas de fórmulas semelhantes. Os carismáticos salvam a situação, porém sua liturgia está longe de ser uma introdução ao mistério de Jesus.

 
c. A moral

 
Nossos contemporâneos não aceitam códigos de moral, nem que se lhes imponham ou proíbam condutas porque estão no código. Eles querem entender o valor dos preceitos ou das proibições. Ou seja: estão descobrindo a consciência moral que permite descobrir o valor dos atos. Não aceitam a voz de uma consciência que nada mais é do que a voz do “superego”. Antes, a base da moral cristã era a obediência à autoridade. Devia-se fazer ou não fazer, porque a Igreja o mandava ou o proibia. Por isso, tantas vezes os leigos perguntam: pode-se fazer isso? Se o sacerdote dizia que sim, o problema moral estava solucionado. Isso já pertence ao passado.

 
d. A comunidade

 
O cristianismo é comunitário. Porém, as formas tradicionais de comunidade tendem a debilitar-se. A própria família perdeu muito de sua importância, porque seus membros se encontram menos. A paróquia atual perdeu o sentido de comunidade. Estão aparecendo muitas novas formas de pequenas comunidades, baseadas na livre escolha. Essas comunidades terão capacidade de celebrar a eucaristia, o que supõe que haja uma pessoa apta para presidir a eucaristia em cada grupo de umas 50 pessoas. Não há nenhuma dificuldade doutrinal, uma vez que nos primeiros séculos a situação era essa e não houve problemas. Isto é fundamental, porque uma comunidade que não se une em torno da eucaristia, na verdade, não é uma comunidade cristã. Os sacerdotes estarão com o bispo de cada cidade importante, em tempo integral, para evangelizar todos os setores da sociedade urbana.

Evidentemente, não sabemos quando ou como isso chegará. É pouco provável que um Concílio que reúna somente bispos possa descobrir as respostas aos desafios do tempo. As respostas não virão da hierarquia, nem do clero, mas, sim, dos leigos que vivem o Evangelho no mundo por eles entendido. Por isso, temos que estimular a formação de grupos de leigos comprometidos simultaneamente com o Evangelho e com a sociedade humana em que trabalham.

O Vaticano II ficará na história como uma tentativa de reformar a Igreja no final de uma época histórica de 15 séculos. Seu único defeito é que veio tarde demais. Três anos depois de sua conclusão, caía na maior revolução cultural do Ocidente. Seus detratores o acusaram de todos os problemas surgidos dessa revolução cultural e, com isso, o mataram. Porém, o Vaticano II permanece um sinal profético. É uma voz evangélica, numa Igreja prisioneira de um passado que não sabe superar. Não pôde reformar a Igreja, como queria. Foi, porém, um chamado para olhar para o futuro. Ainda há movimentos poderosos que pregam a volta ao passado. Temos que protestar. Quando pessoas que nada entendem da evolução do mundo contemporâneo querem refugiar-se num passado sem abertura para o futuro, temos que denunciar. Para nós o Vaticano II é Medellín. Também quiseram matar Medellín. Medellín permanece como um farol que nos mostra o caminho.

Última reflexão: o futuro da Igreja católica está nascendo na Ásia e na África. Será muito diferente. Aos jovens há que se dizer: aprendam chinês!

 
In memoriam.


*Homenagem ao Autor, falecido aos 27 de março de 2011.



Fonte: Revista Eclesiástica Brasileira, julho de 2011, p. 629 – 641, Vozes.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

TdL em Mutirão 36

JUVENTUDE: ROSTO DA TRINDADE.


O presente artigo tem como objetivo apresentar a juventude como rosto da Trindade Santa. A face mais bonita do Deus Uno e Trino que armou sua tenda no meio da humanidade, que se revelou, tornando-se assim uma indizível aventura de conhecer a Deus.

É uma grande aventura pensar e falar sobre o Deus de nossa fé, principalmente quando se pode cantar como faz a juventude que se prepara para o Dia Nacional da Juventude – 25 anos da Pastoral da Juventude Capixaba que acontecerá no último domingo do mês de outubro de 2011, na Praça do Papa, em Vitória - ES [1] :

“Dizem que o sol, deixou de brilhar

Que as flores mais belas não perfumam mais

Os jovens teriam deixado de amar

De crer na esperança de poder mudar

Que as lutas e os sonhos o vento espalhou

E que envelheceram as forças do amor

Se fosse assim que digam vocês

De quem é o rosto que ainda sorri

De quem é o grito que nos faz tremer

Defendendo a vida, o modo de ser

De quem são os passos marcados no chão

Unindo o compasso de um só coração

Enquanto existir um raio de luz

E uma esperança que a todos conduz

Existe a certeza, plantada no chão

Ternura e beleza não acabarão

Pois a juventude que sabe guardar

Do amor e da vida não vai descuidar

O rosto de Deus é jovem também

E o sonho mais lindo é ele quem tem

Deus não envelhece, tampouco morreu

Continua vivo no povo que é seu

Se a juventude viesse a faltar

O rosto de Deus iria mudar”.

Sobre a juventude há muitos pontos de vista para analisá-la; indico a classificação mais objetiva e sintética, construída em mutirão, que parte da perspectiva cristã católica e comprometida com milhares de grupos de jovens espalhados pelo Brasil.

As quatro visões de juventude [2] :

1. Visão Biocronológica: define a juventude em termos de idade, etapa de transição. Aquela que tem de 15 a 24 anos [3] .

2. Visão Psicológica: identifica a juventude com os conflitos pessoais em que tem a vida nas mãos, mas não tem o reconhecimento e a capacidade, etapa de construção da identidade: tempo de opções e definições.

3. Visão Sociológica: vê na juventude um grupo social e, dentro dele, diferentes setores.

4. Visão Cultural-Simbólica: procura ver a juventude em seu habitat cultural, produzindo movimentos culturais que acentuam a estética e o lúdico.

Para DICK (2003), estaria faltando, entre essas visões uma quinta: a Visão Jurídica ou Legal de Juventude – aquela que impera em muita leitura ou abordagem a respeito do tema [4] .

No Brasil, tanto as diretrizes da Secretaria Nacional de Juventude como o Plano Nacional de Juventude, definem como jovens aqueles que têm entre 15 e 29 anos. Mas o que é juventude?

LIBANIO (2004), diz que há um olhar duplo: o da sociedade para o jovem e o do jovem para si mesmo. A sociedade olha o jovem e o considera em fase importante do desenvolvimento de sua personalidade. Mas também, o vê como alguém subordinado e ainda submetido a uma marginalização do trabalho e das funções políticas. O jovem olha a si mesmo e entra numa idade de apropriação das diferenças que o afetam no campo sociopsicológico, ao mesmo tempo que se prepara para enfrentar situações adultas diferenciadas, passando do mundo particularista da família para o mundo universalista do trabalho e das relações sociais. Os grupos de jovens ajudam a integrar o modelo de família com a vida em sociedade. A escola surge como lugar intermediário da socialização entre a sociedade e a família [5] .

A CNBB (2007), afirma que, conhecer os jovens é a condição prévia para evangelizá-los. Não se pode amar nem evangelizar a quem não se conhece. Se busca conhecer a geração de jovens cuja evangelização se apresenta como um dos grandes desafios da Igreja neste início do século XXI. Destaque para a subjetividade, para as novas expressões da vivência do sagrado e a centralidade das emoções, enquanto elementos da nova cultura pós-moderna que influenciam no processo de evangelização dos jovens e no fenômeno da indiferença de uma parcela da juventude face à Igreja. (...) A evangelização da juventude interessa muito à Igreja e aos seus pastores. Temos um compromisso sério com a formação das novas gerações que, pressionadas por tantas propostas de vida, necessitam de muito discernimento,de coragem, de verdadeiros caminhos e, principalmente, de nossa presença amiga: “Os jovens têm o direito de receber da Igreja o Evangelho e de ser introduzidos na experiência religiosa, no encontro com Deus e no contato com as riquezas da fé cristã. E os pastores da Igreja têm grande desejo de lhes comunicar a Boa-Nova de Jesus Cristo e de acolhê-los na comunidade eclesial”. Estamos certos de que o presente e o futuro da própria Igreja dependem desta nossa opção “afetiva e efetiva” por eles, como, também, a nossa sociedade progredirá à medida que puder contar com cidadãos verdadeiramente capacitados a testemunhar, defender e propagar os valores do Evangelho, todos eles a favor da vida plena para o ser humano. (...) Desejamos, juntos, abrir caminhos para favorecer o desenvolvimento dos jovens, quanto ao anúncio do querigma, à educação aos valores cristãos, à formação bíblica e teológica, à iniciação à vida litúrgica, ao ensino religioso nas escolas e universidades, à educação para a solidariedade e para a fraternidade; à superação de preconceitos; à educação psicoafetiva; à formação na ação e para a cidadania. Estamos convictos de que a formação da juventude contribui para a promoção da dignidade de sua vida em todos os aspectos [6] .

FORTE (2005), diz que a Igreja provém da Trindade, é estruturada à imagem da Trindade e ruma para o acabamento trinitário da história. (...) A Igreja vem da Trindade: o universal desígnio salvífico do Pai, a missão do Filho, a obra santificante do Espírito edificam a Igreja como “mistério”, obra divina no tempo dos homens, preparada desde as origens, reunida pela Palavra encarnada, sempre de novo vivificada pelo Espírito Santo. A Igreja é ícone da Trindade Santa: por uma “não-mediocre analogia”, ela é comparada ao mistério do Verbo encarnado, na dialética do visível e do invisível, ao mesmo tempo em que a sua “comunhão” – una na diversidade das Igrejas locais, dos seus carismas e ministérios – reflete a comunhão trinitária. (...) A Igreja orienta-se para a Trindade: é Igreja dos peregrinos na conversão e reforma contínuas, em comunhão com a Igreja celeste, preparando-se desde já para a glória final [7] .

Em Medellín, a Igreja vê na juventude a constante renovação da vida da humanidade. A juventude é o símbolo da Igreja, chamada a uma constante transformação de si mesma. Por isso ela se esforça por desenvolver uma pastoral de conjunto, uma Pastoral da Juventude autêntica.

Em Puebla, a Igreja diz que a juventude é uma atitude face à vida na sua etapa transitória e destaca seus traços mais característicos: seu espírito de aventura, sua capacidade criadora, seu desejo de liberdade, o fato de serem sinal de alegria e felicidade, exigindo autenticidade, simplicidade e humildade. A Igreja confia nos jovens, sendo eles a sua esperança. Eles são os dinamizadores do corpo social e do corpo eclesial, por isso a Igreja faz a evangélica opção preferencial pelos jovens com vistas à sua missão no continente.

Em Santo Domingo, a Igreja quer abrir espaços de participação para a juventude através de uma pedagogia da experiência, promovendo o protagonismo através do método VER-JULGAR-AGIR-REVER-CELEBRAR.

Em Aparecida, a Igreja propõe aos jovens o encontro com Jesus Cristo vivo à luz do Plano de Deus, que lhes garanta a realização plena de sua dignidade de ser humano; privilegiando na Pastoral da Juventude processos de educação e amadurecimento na fé como resposta de sentido e orientação de vida. A Pastoral da Juventude ajudará os jovens a se formar de maneira gradual, para a ação social e política e a mudança de estruturas, conforme o desejo do Papa João XXIII um mês antes da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II: “A Igreja se apresenta tal como quer ser: a Igreja de todos e particularmente a Igreja dos pobres”.

BOFF (1999), diz que a concepção trinitária de Deus nos propicia uma experiência global do mistério divino. Cada ser humano se move dentro de uma tríplice dimensão: na transcendência, da imanência e da transparência. Pela transcendência ele se ergue para cima, rumo às origens de si mesmo e às referências supremas. O Pai emerge nesta experiência, pois Ele é o Deus da origem sem ser originado, é o Deus do princípio sem ser principiado, é o Deus da fonte da qual tudo promana. É a referência última. Pela imanência o ser humano se encontra consigo mesmo, com o mundo a ser organizado, com a sociedade que ele constrói em relações horizontais e verticais. A imanência constitui o espaço da revelação humana. O Filho é por excelência a revelação do Pai; em sua encarnação assume a situação humana como é, em sua grandeza e decadência. Ele quer uma sociedade fraterna e sororal que reconhece suas raízes. Pela transparência queremos ver unida a transcendência com a imanência, o mundo humano com o mundo divino, a tal ponto que, respeitadas as diferenças, se façam transparentes. No esforço humano queremos experimentar o dom de Deus; anelamos por um novo coração e pela transformação do universo. O Espírito Santo constitui a força de amorização divina e humana, a transfiguração de tudo. Que seria o ser humano se não tivesse o Pai, se não se enraizasse em algo maior e não fosse envolvido num mistério de ternura e de aconchego? Seria como um bólido perdido no espaço e um peregrino sem rota e sem rumo. Que seria de nós, se não tivéssemos o Filho, se não soubéssemos de onde viemos, se não acolhêssemos a cada instante a vida recebida como dom, se não pudéssemos amar o Pai maternal ou a Mãe paternal? Que seria da pessoa humana se não tivesse relações dialogais e fraternas, se não pudesse abrir-se a um tu? Não seria apenas um peregrino sem rota e sem rumo, seria um caminhante solitário num mundo agressivo e opaco. Que seria do ser humano sem o Espírito Santo, sem um mergulho em seu próprio coração, sem a força de ser e de transformar a criação? Seria um peregrino sem entusiasmo e privado da coragem necessária para a caminhada. Sem o Espírito não poderíamos crer em Jesus nem entregar-nos confiadamente ao regaço do Pai. Assim como a transcendência, a imanência e a transparência constituem a unidade dinâmica e integral da existência, de forma análoga o Pai, o Filho e o Espírito Santo se unificam integradoramente na comunhão recíproca plena e essencial. Cada pessoa humana surge como imagem e semelhança da Trindade; o pecado introduz uma ruptura nesta realidade, sem destruí-la totalmente. A sociedade foi eternamente querida por Deus para ser sacramento da comunhão trinitária na história; o pecado social e estrutural denigre esta vocação que sempre permanece como um chamamento a ser atendido mediante as libertações históricas que visam criar as condições para que o Pai, o Filho e o Espírito Santo possam ser significados no tempo [8] .

A juventude experimenta a Trindade como o centro ardente da fé pois ela vem dos Apóstolos; a mesma fé trinitária que a Igreja sempre professou a partir de Jesus de Nazaré.

[1] TREVISOL, Jorge. O Mesmo Rosto. Intérprete: Artistas Capixabas. In: DNJ - DIA NACIONAL DA JUVENTUDE. 25 anos da PJ Capixaba - Chega de Violência e Extermínio de Jovens. Vitória: Independente, 2011, 1DVD, faixa 1.

[2] CELAM - Conselho Episcopal Latino-Americano. Seção Juventude - SEJ. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança. Orientações para a Pastoral da Juventude Latino-Americana. São Paulo: Paulinas, 1997.

[3] A UNESCO defende esta concepção.

[4] DICK, Hilário. Gritos Silenciados, Mas Evidentes - Jovens Construindo Juventude na História. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

[5] LIBANIO, J.B. Jovens em Tempos de Pós-Modernidade - Considerações socioculturais e pastorais. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

[6] CNBB. Evangelização da Juventude - Desafios e Perspectivas Pastorais. São Paulo: Paulinas, 2007.

[7] FORTE, Bruno. A Igreja Ícone da Trindade. 2a.ed. São Paulo: Loyola, 2005.

[8] BOFF, Leonardo. A Trindade e a Sociedade. 5a.ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

Emerson Sbardelotti

TdL em Mutirão 35

IGREJA DOS POBRES: FUNDAMENTO DE UMA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO 

 
INTRODUÇÃO

 
No meio do século passado, a Igreja Católica se encontrava em uma encruzilhada entre prosseguir com uma dogmática que esteve presente por toda a Idade Média ou refletir as mudanças advindas do mundo moderno. Tínhamos uma atmosfera de tensão que se refletia na Cúria romana, a saber: de um lado estava a realidade centralizadora que sempre caracterizou a estrutura eclesial e do, outro, uma proposta de abertura para o diálogo com a realidade moderna, com suas dúvidas, desconfianças e com seu choque de injustiças.
Neste artigo, pretendemos refletir em que panorama se desenvolveu a Igreja dos pobres na América Latina, sua fundamentação teológica e o que constitui efetivamente esse ser dos pobres como base para uma Teologia da Libertação. A pesquisa tem como foco analítico os seguintes pontos: (1) João XXIII e o Concílio Vaticano II, (2) Medellín e a Igreja da América Latina, (3) Teologia da Libertação e (4) Eclesiologia da Libertação.

 
1. JOÃO XXIII E O CONCÍLIO VATICANO II

 
O papel de João XXIII no Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) foi de singular importância. Não somente pelo ato de conclamar o referido concílio, mas por introduzir nele uma perspectiva de atualização para a Igreja mundial (aggiornamento). É inegável que grande foi a surpresa quando o "papa bom”, até então considerado um papa de transição, abriu as portas da Igreja que pareciam seladas para o mundo moderno. O Espírito acordara de um sono duradouro, era, portanto, hora de trabalhar para abri-lhe caminho. (C.f SANTOS, 2OO7, p.19).
João XXIII expressa na bula Humanae Salutis o anseio pelo qual passou ao realizar o primeiro anúncio do Concílio (25 de janeiro de 1959): "foi como a pequena semente que depusemos com ânimo e mãos trêmulas”. Nada mais humano ao realizar ato tão divino. O Papa sentia que a Igreja tinha por obrigação demonstrar vitalidade, jovialidade (renovação) e irradiar novas luzes ao surgimento de uma nova era (C.f João XXIII, 1961, p 254). Esse aggiornamento era mais que necessário, pois a mais de 16 séculos a Igreja esteve presa a uma dogmática intra ecclesia para, enfim, anunciar a sua abertura ad extra.
Vejamos o que diz João XXIII em seu pronunciamento às vésperas do Concílio Vaticano II, datado de 11 de setembro de 1962: "Em face aos países subdesenvolvidos, a Igreja se apresenta como é e como quer ser: a Igreja de todos e particularmente a, Igreja dos pobres” (João XXIII apud Aquino, 2005, p 209). Apesar de não termos tido no concílio o aprofundamento que necessitara a Igreja dos pobres, a fala de João XXIII aponta para um viés que até então era pouco debatido: o de uma Igreja que deve assumir em si a perspectiva dos que estão à margem do mundo.
O Espírito deu sinais de que essa discussão não passaria despercebida, como podemos comprovar através de históricas intervenções. É de especial atenção a manifestação do cardeal Lercaro:
"O mistério de Cristo nos pobres não aparece na doutrina da Igreja sobre si mesma e, no entanto, essa verdade é essencial e primordial na revelação (...). É nosso dever colocar no centro deste Concílio o mistério de Cristo nos pobres e a evangelização dos pobres” (Lercaro, apud Aquino, 2005, p.209).
Essa manifestação resultou posteriormente resultou em uma reflexão contida no capítulo 8 do documento conciliar Lumen Gentium. Corroborando com Lercaro destacamos o pronunciamento do bispo de Tornai, Charles-Marie Himmer, pelo significado que expressa e por seu peso, quando em aula conciliar afirmou: "primus lócus in Ecclesia pauperibus resevandus est” (o primeiro lugar na Igreja é reservado aos pobres). De fato, a causa dos pobres estivera longe de ser ponto central do concílio, a não ser por intervenções pontuais, pois "esta não era a temática que constituía efetivamente o espírito conciliar” (SOBRINO, 1982, p.101).
Havia no concílio um corpo de bispos que representavam os países do "terceiro mundo” e que gozavam de bastante simpatia do papa João XXIII. Nele estava presente nosso saudoso Dom Helder Câmara. Astuto e movido por uma insistência evangélica torna-se uma das referências do grupo da "Igreja dos pobres”. Certa vez, perguntado por um jornalista se esse grupo consistia mais um grupo de pressão, respondeu:
Gosto muito da expressão que nos vem de nossos irmãos franceses: "Igreja servidora e pobre”. O Santo Espírito nos interpelou, nos convocou. Abriu-nos os olhos sobre o dever de cristãos, sobretudo de pastores, a fim de agirmos como o Cristo que, pertencendo a todos, se identificou com os pobres, os oprimidos, com todos aqueles que sofrem. Começamos a procurar como a Igreja toda, especialmente cada um de nós, poderia ser "servidor e pobre” (BEOZZO, 1993, p.95).
Essa "pressão” vira "expressão” de vida quando, ao término do Concílio, celebrando a eucaristia na catacumba de Domitila, o grupo da Igreja dos pobres firma um pacto de propagação de uma Igreja servidora e pobre, para "obterem a graça de serem plenamente fiéis ao Espírito de Jesus „que vos consagrou e vos enviou para evangelizar os pobres‟ (Lc 4,18)” (C.f BEOZZO, 1993, p. 96). Esse compromisso ficou conhecido como o Pacto das Catacumbas[1]. Nele estiveram presentes alguns bispos brasileiros[2], que tinham por objetivo expressar com verdade aos "irmãos no Episcopado” o compromisso de viverem uma vida de pobreza, de rejeitar todos os símbolos ou privilégios do poder e de fazer dos pobres o local por excelência para se exercer os ministérios episcopais. Os bispos encerram o texto com um "ajuda-nos Deus a sermos fiéis”, demonstrando que uma Igreja dos pobres é, de fato, uma fidelidade a Deus.

 
2. MEDELLÍN E A IGREJA DA AMÉRICA LATINA

 
O Episcopado latino-americano animado em colocar em prática as decisões do Vaticano II, marcou passo na história, quando após três anos do término do Concílio, realizou a segunda Conferência Episcopal latino-americana na cidade de Medellín.
Medellín refaz, num certo sentido, o Vaticano II e, em muitos pontos dá um passo além: aí emerge pela primeira vez a importância das comunidades de base, esboça-se a teologia da libertação, aprofunda-se a noção de justiça e de paz ligadas aos problemas de dependência econômica, coloca-se o pobre no centro da reflexão do continente (BEOZZO, 1993, p. 117-118).
Medellín prossegue na reflexão iniciada no Vaticano II e por seu incentivador João XXIII. O Papa bom, através de suas encíclicas sociais, toca de forma comprometedora a Igreja da América Latina (Cf. BEOZZO, 1995, P.118). No decorrer do Concílio, como vimos antes, surgiu uma corrente que colocava os pobres como centro da ação evangelizadora e por isso comprometia-se com eles. É, pois, nesta linha que se encontravam os bispos que participam de Medellín.
Conscientes da realidade do continente, os bispos reunidos em Medellín reconhecem que a Igreja não poderia ficar indiferente as injustiças sociais existentes na América Latina. O documento que traz as Conclusões de Medellín está carregado de uma profunda solidariedade para com o povo que sofre. Nele os bispos assumem que a Igreja da América Latina esteve letárgica e, por isso, sentem-se obrigados, como pastores, a dar voz aqueles que não a têm:
"Um surto de clamor nasce de milhões de homens, pedindo a seus pastores uma libertação que não lhes chega de nenhuma parte. Agora nos estais escutando em silêncio, mas ouvimos o grito que sobe de vosso sofrimento...” (MEDELLÍN, 1979, P.143).
Foi no alvorecer de Medellín que se gestou a Teologia da Libertação (Cf. Oliveros, 1990, p. 30). Isso se deu por uma coesão no episcopado latino-americano e por uma situação histórica popular de opressão e libertação. Na Conferência, a Igreja se compromete a denunciar a carência injusta dos bens necessários para sobrevivência da maioria na América Latina e compromete-se a viver juntos deles (Cf. MEDELLÍN, 1979, p.145). Orienta, portanto, que seus trabalhos pastorais sejam realizados nos setores mais pobres e necessitados.
Percebe-se, todavia, que a Igreja se apropriou da temática dos pobres. Não como meros receptores de um "assistencialismo caridoso”. Em Medellín a Igreja se faz pobre! Isto é, assume a missão deixada por Jesus que sendo rico se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza (2Cor 8,9), e compromete-se a "apresentar ao mundo um sinal claro e inequívoco da pobreza do Senhor”. (MEDELLÍN, 1979, p. 150).
A semente está lançada e começa a germinar no seio das comunidades latino-americanas uma experiência de fé que emerge da vida ameaçada e de uma Igreja profética que ouve o clamor do povo. Nasce nas comunidades de base um novo modo de se fazer teologia, fruto de uma prática pastoral anunciada por Medellín.

 
3. TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

 
A teologia da libertação nasce do rejuvenescimento que o Vaticano II causou na Igreja da América Latina. Pela primeira vez na história, surge um modo de se fazer teologia tendo como premissa a situação dos povos e das pessoas que constituem o continente latino-americano[3]. A teologia da libertação traz a realidade dos povos para ser aprofundada a luz da fé, oferecendo uma nova visão da missão da Igreja no nosso continente.
Medellín, como vimos anteriormente, destacou de forma profética a situação de injustiça em que viviam os povos de diversos países latino-americanos e esta constatação virou uma bandeira de muitos em favor dos menos favorecidos, o que impulsionou a vários cristãos a comprometerem-se em desenvolver uma nova teologia: "uma nova consciência eclesial começou a se formular a partir de um novo modo de viver a fé daqueles que estavam comprometidos com os pobres e sua libertação” (OLIVEROS, 1990, p.30). Cria-se uma nova concepção do que é fazer teologia na América Latina, a novidade da teologia da libertação foi descobrir que não somente falar de Cristo configura a sua presença no meio dos pobres. Seu pensamento transformador foi se compromete com as pessoas exploradas, a maioria em nosso continente. O próprio Jesus em oração nos diz: "Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado isso aos sábios e aos inteligentes e por tê-lo revelado aos pequeninos” (Mt 11, 25-27). De fato, é nos pequeninos desta terra que se configura mais claramente o Mistério de Deus.
Ao contrastar as desigualdades institucionalizadas na América Latina, viu-se que o estado de pobreza que a maioria esmagadora se encontrava não poderia ser a vontade de Deus. A experiência de Moisés com o povo de Israel serviu de base bíblica para se (re)compreender a missão da Igreja. A situação desumana de escravidão e pobreza impulsionaram as reflexões à luz da Palavra de Deus. Viver a Boa Nova implicava necessariamente em uma nova consciência do "ser” e do "como ser” Igreja. A referência do "ser Igreja” está vinculada ao modo de como Igreja a (instituição) se apresenta ao se contrastar com uma realidade desumana e ser tocada por ela, à de se buscar novas práticas pastorais que respondam as necessidades do povo que está preso em cativeiro[4]. Por outro lado, a idéia do "como ser” quer um esforço de reflexão epistemológica da Igreja aos novos desafios e isso é o que faz uma eclesiologia da libertação.
Uma fisionomia nova, um rosto novo de Igreja que tem o Espírito de Medellín foi a base para o desenvolvimento da eclesiologia da libertação. As Comunidades Eclesiais de Base são o exemplo da reunião de cristãos (ecclesia) comprometidos com a fé no Deus de Jesus, e por isso, atuantes no processo de libertação do povo.
A Igreja dos pobres na América Latina não nasce somente de um esforço acadêmico. Ela nasce, primeiramente, da experiência do povo que sofre. Mesmo sem a idéia de teologia o povo latino-americano se recusa a entregar-se a uma estrutura de morte, por isso, emerge dele várias práticas libertadoras[5]. Somente a partir desta prática é que a Igreja se vê impulsionada a fazer uma reflexão eclesiológica. Essa reflexão é caracterizada como o ato segundo, pois o ato primeiro é práxis (GUTIERREZ, 2000, p.18), uma reflexão crítica a luz do Evangelho sobre a vida e a prática cristã eclesial, abre-se neste contexto uma nova forma de anunciar o querigma.

 
4. ECLESIOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

 
A teologia da libertação viu na Igreja dos pobres a fidelidade mais singular à pessoa de Jesus Cristo. Nela, se encontra um Deus que ouve o clamor do povo (Ex 3,7b), essa experiência eclesial se tornou a base práxica para sua sustentação teológica.

 
A Igreja dos pobres despertou várias desconfianças a respeito da sua unidade eclesial, como uma continuação da Igreja de Jesus Cristo: Una, Santa, Católica e Apostólica. Vejamos, portanto, como a Igreja dos pobres não fere essa unidade, pelo contrário, à torna mais explicita, uma vez que tem os pobres como o centro de sua reflexão teológico/pastoral.
Um só Deus, um só Senhor, um só batismo, um só Espírito, como expressa São Paulo.

 
Na verdade existe um só Senhor, Jesus Cristo, e Jesus histórico, crucificado, servo de Javé e ressuscitado; existe um só Deus, que quer vida aos homens, escuta o clamor dos oprimidos, morre com eles na história e mantém sempre vivos os gemidos de parto de uma nova criação; existe um só Espírito, renovador da história, doador de vida e que fala pelos profetas de outrora e pelos atuais (SOBRINO, 1982, p.111).
Podemos perceber a unidade dos pobres desta Igreja, nela se expressa os pobres como sujeitos ativos desta realização histórica com todos os percalços que a situação de pobreza os coloca. Quando a Igreja se expõe a ouvir as mazelas pelas quais passam os pobres, a enxergar o exemplo de fé que é a vida deles, ela realiza o milagre de socializar que o núcleo da fé é algo que não se divide, anuncia-se. Não se trata de uma predileção de ordem social. Trata-se, sobretudo, de uma unidade com todas as instituições e pessoas de bem, agora de um formato macro, que tem os pobres como fio condutor da ligação com o Ressuscitado.

 
A. A santidade contida na Igreja dos pobres

 
A característica de "santa” atribuída a Igreja é uma característica lógica, pois nela se configura um sinal de salvação, e é ela a continuadora do sacramento histórico do amor de Deus, seria uma contradição dizer que ela não é santa (SOBRINO, 1982, p.114). A problemática se estabelece em reconhecer que a Igreja como instituição imersa em uma realidade está em si, configurada em uma estrutura de pecado é, portanto, também, pecadora. Quem concede a característica de santidade a Igreja, é Deus, "e assim não cremos simplesmente na Igreja santa, mas em Deus que santifica a Igreja” (SOBRINO, 1982, p.115).
A Igreja dos pobres reconhece a dimensão pecadora e santa da Igreja. O que a Igreja dos pobres faz é desenvolver características concretas ao amor e ao pecado, nos mostra que para dar visibilidade a santidade contida na Igreja, a práxis do amor tem que ser concreta (perdoem-me a redundância), não como propostas ou discursos "benevolentes”, mas de recriar uma nova realidade do seio de suas comunidades. Para a Igreja dos pobres, a santidade não está contida no estereótipo que vestem seus representantes, mas, aí a pirâmide se inverte, a santidade salvará o mundo na medida em que a Igreja se autoassuma como serva. A santidade nasce a partir de baixo, da solidariedade que brota dos pobres, da comunhão com aqueles que foram perseguidos e martirizados. "Optar pelos pobres é automaticamente optar pela forma de santidade do Servo” (SOBRINO, 1982, p.118). Recupera, portanto, a dimensão de santidade que fora disseminada por Jesus, a quenose. Sem essa santidade a Igreja não encontraria em si a verdade que a constitui.

 
B. Sua dimensão universal

 
A catolicidade que constitui a Igreja é a representação da sua universalidade, isto é, a Igreja enquanto católica tem como centro a totalidade do mundo, o que implica:
Visto que nem todos são "homens” da mesma maneira no que se refere a seus meios, direitos e liberdades, aquela comunidade em que todos verão conjuntamente a glória de Deus é criada através da eleição dos humildes, ao passo que os poderosos incorrem no juízo de Deus (SOBRINO, 1982, p. 119-120).
Isso não quer dizer, que se fira a universalidade, pelo contrário, o fato de ser universal, carrega em si uma tradição histórica pelos os que sempre estiveram escondidos da totalidade. O que a Igreja dos pobres faz, é demonstrar que essa parcialidade para com os que sofrem é uma forma práxica para um amor universal. Nesse mesmo sentido, percebe-se que a Igreja dos pobres em nível "local” desenvolve claramente uma originalidade com personagens próprios[6] e a partir de figuras do passado cria uma autoconsciência para reler sua a história.

 
C. Tradição apostólica

 
A apostolicidade que constitui a Igreja serve para demonstrar a continuidade de sua ligação direita com os apóstolos, em ordem cronológica e a continuação de uma estrutura eclesial apostólica. A Igreja se constitui em si mesma missionária, "ela existe para evangelizar” (Evangelii Nuntiandi, 1975, n.14). E evangelizar é afirmar que todo o caráter próprio da Igreja (oração, vida religiosa, escuta da Palavra, etc.) não teria sentido pleno senão se converter em testemunho.
A Igreja dos pobres é uma Igreja autenticamente missionária, ela adquire prioritariamente essa característica porque se faz pobre. Isso quer dizer, que essa primazia da essência se configurou mais verdadeira quando os pobres não foram somente os destinatários da missão, mas quando eles foram constituídos missionários. "Não basta dizer que a práxis é o ato primeiro. É necessário considerar o sujeito histórico desta práxis: os que até agora estiveram ausentes da história” (GUTIERREZ, 1977, p.42).
Com o receptor da missão sendo missionário, surge aí uma conotação própria da sua realidade, uma vez que os pobres tornam-se anunciadores da Boa Nova, tornam-se, também, denunciadores das estruturas pecaminosas. Cabe a Igreja perceber que quando ela se converte em Igreja dos pobres esta se encontra mais fielmente ligada a sua tradição, pois, qualquer pessoa que não está inserida na realidade de sofrimento, desesperança, humilhação que passa a grande maioria dos habitantes desta terra, não refletirá com propriedade a tradição apostólica. Os pobres oferecem a direção a ser seguida!
Percebe-se, portanto, que uma Igreja que se constitui em: Una, Santa, Católica, Apostólica e dos pobres, desenvolve em si uma ortodoxia mais propriamente evangélica.

 
Veremos nos dois pontos seguintes de que forma o ser dos pobres configura em si um critério de identidade singular ao passo que é constitutivo da Igreja de Jesus e como os sujeitos/destinatários privilegiados do anúncio do Reino modificam de forma estrutural a Igreja.

 
4.1 O SER DOS POBRES COMO NOTA DA IGREJA DE JESUS

 
No caminho elementar que constitui a Igreja dos pobres está a sua fidelidade a Jesus Cristo, principalmente pela característica essencial em ser dos pobres. Há quem pense que a dimensão dos pobres na Igreja refere-se a um vertente social contida nela, como se Igreja tivesse somente uma função assistencialista com referência aos menos favorecidos.

 
Uma Igreja dos pobres não é aquela que se coloca fora da realidade de conflito que a cerca, propondo-se somente a oferecer seu auxílio e nem aquela que o faz somente por um conceito ético. Ser dos pobres é algo constitutivo do próprio ser Igreja, é algo que perpassa os conceitos puramente sociológicos ou uma dimensão particularizante de classe social. Afirmar teologicamente sobre a Igreja dos pobres, é dizer que o Espírito de Deus que animou Jesus a anunciar a Boa Nova (Lc, 4, 18-19) é o mesmo que deve orientar a vivência eclesial de sua herdeira, traz portanto, uma questão fundamental de ortopráxis eclesial e de ortodoxia teológica (AQUINO, 2005, p.210), isto é, de uma forma de ser cristão e de seguir Jesus.
No centro da vida da Igreja está a realização do Reino de Deus. Essa centralidade é circunstância sine qua non para a vivência de um cristianismo que tem como princípio a vida e morte de Jesus de Nazaré. Em Mateus 5, quando Jesus proclama as Bem-Aventuranças e inverte o conceito de "felizes”, assumi-se de fato que todos os desgraçados e infelizes: os pobres, aqueles que sofrem, que choram, que são perseguidos, na verdade, que para imensa maioria "não contam”, a eles é reservado o Reino de Deus.
Se como vimos, o Reino está, sobretudo para os pobres e no centro da vida da Igreja se encontra a sua implantação, portanto, uma Igreja que não está constitutivamente para os pobres significa que não está para o Reino, pode-se afirmar que nem Igreja se configura! A felicidade dos bem aventurados não está na pobreza, na fome, na dor ou na perseguição; está na presença de Deus junto deles (VIGIL, p 62). Uma Igreja que se proclama como "Sacramento de Cristo” (LG.1, 1964), isto é, como sinal visível de sua presença entre nós, não pode negligenciar o fato de que a vida de Jesus de Nazaré foi sempre ao lodo dos últimos, assim como também sua morte (Mt 15,27; Lc 22,37). A Igreja que é herdeira desta realidade histórica (SOBRINO, 1982, p. 107) não pode esquecer esse ensinamento eclesiogênico[7].
Assumir a realidade de miséria, dor, sofrimento, martírios é afirmar que todo princípio de organização da Igreja se faz a partir dos pobres, não como "parte” dentro dela, mas como autêntico lugar teológico de compreensão da práxis cristã. Não queremos afirmar aqui que o ser "dos pobres” esgota a identidade da Igreja, mas que é fundamentalmente um dado de fé. A Igreja de Jesus Cristo é a Igreja dos pobres.

 
4.2 O SER DOS POBRES COMO PRINCÍPIO ESTRUTURADOR DA IGREJA EM SUA TOTALIDADE.

 
Na medida em que a Igreja percebe, na fidelidade a pessoa de Jesus de Nazaré, os pobres como ponto de partida e de convergência da sua ação pastoral ela se vê impelida a dar demonstrações claras desta vivência. Destarte, os pobres configuram uma forma própria do ser Igreja na medida em que encontram na sua vida comunitária a ligação com Deus.

 
Percebemos, pois, que a configuração feita pelos pobres na Igreja que junto deles se estrutura torna-se perceptível na maneira em que: celebram os sacramentos, assumindo o sinal como festa da vida, na forma como fazem a leitura da Palavra de Deus, reconhecendo nela a sua realidade de dor e o rosto de um Deus que caminha junto e liberta e nos cânticos que nos entoam mais diversos momentos celebrativos, que revigora a força de estar lutando por um novo céu e uma nova terra (Cf. Ap 21,1).

 
A fé faz com que os pobres se neguem a entregar-se ao acaso. Converter as estruturas neste conceito de rocha viva (1Pd 2,5a) é saborear a utopia do Reino que "lhes foi preparado deste a criação do mundo” (Mt 25,32).

 
CONCLUSÃO

 
Nossa intenção ao escrever o presente artigo foi demonstrar, mesmo que não profundamente, de que forma a Igreja dos pobres é fundamento para a teologia da libertação. Levamos em conta a problemática que decorre da particularização existente neste modelo de Igreja para explicitar que é um requisito estritamente evangélico. Percorremos do Vaticano II à sua influência na Igreja da América Latina, que desenvolveu suas reflexões próprias, para enfim, demonstrar que essa opção pelos pobres não recai em um erro de ortodoxia, pelo contrário demonstra a fidelidade mais singular de uma Igreja que caminha nos passos de Jesus de Nazaré.
Neste artigo realizamos um pequeno ensaio de reflexão com o sentimento de percorrer os caminhos já trilhados por muitos. Acreditamos que a Tradição de uma Igreja sempre viva não se coloca jamais longe dos pobres desta terra. Demonstramos, aqui, a nossa convicção na Igreja Una, Católica, Apostólica e dos Pobres... É com e por eles que somos a Igreja de Cristo, do Ressuscitado!

 
[...] Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu filho não fique em palavra, não fique em aplauso. Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem. Claro que dirão, Mariama que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama [...]. (D. Helder Câmara, 1982).

 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 
ALBERIGO, Guiseppe. História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.
AQUINO, J. "Igreja dos pobres: sacramento do povo universal de Deus”, in TOMITA, Luiza. – VIGIL, José. M. [orgs.]. Pluralismo e Libertação. Por uma Teologia Latino-Americana Pluralista a partir da Fé Cristã. São Paulo: Loyola, 2005, p. 193-214.
BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil: de João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo. Petrópolis: Vozes, 1993.
_______.Nota sobre os participantes da Celebração do Pacto das Catacumbas Disponível em www.ccpg.puc-rio.br/nucleodememoria/.../beozzocatacumbas.pdf. Acesso em 10 de jun. 2011.
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
BOFF, Leonardo. Eclesiogênese: a reinvenção da Igreja.São Paulo: Record, 2008.
________.Teologia do Cativeiro e da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1980.
CAMARA, Helder. "Louvação a Mariama”, in NASCIMENTO, Milton. Missa dos Quilombos, Universal Music, 1982.
CELAM.Conclusões de Medellín. São Paulo: Paulinas, 1979.
Constituição Dogmática Lumen Gentium. São Paulo: Paulinas, 2006.
Documentos de João XXIII: (1958-1963). São Paulo: Paulus, 1998.
GUTIERREZ, Gustavo. A verdade vos libertará: confrontos. São Paulo: Loyola, 2000.
_______. Teología desde el reverso de la historia. Lima: Centro de Estudios y Publicaciones, 1977.

 
JOÃO XXIII. Humanae Salutis. Roma, 1961.
KLOPPEMBURG, Boaventura. Concílio Vaticano II, Vol. V, Quarta sessão. Vozes, 1966.
OLIVEROS, Roberto. "Historia de la teología de la liberación”, in ELLACURIA, Ignacio – SOBRINO, Jon. Conceptos fundamentales de la Teología de la Liberación. Tomo I. Madrid: UCA, 1990.
PAULO VI. Evangelli Nuntiandi. Roma, 1975.
SANTOS, Carlo. C. Teologia da Libertação: obra de Deus ou do diabo? Disponível em http://www.slideshare.net/carlosnaweb/teologia-da-libertao-obra-de-deus-ou-do-diabo-5437697. Acesso em 18 de jun. 2011.
SOBRINO, J. Ressurreição da Verdadeira Igreja. São Paulo: Loyola, 1982.
VIGIL, José Maria [org.]. Descer da Cruz os Pobres: Cristologia da Libertação. São Paulo: Paulinas, 2007.

 
Notas:

 
(1) Pode-se constatar na obra de: KLOPPEMBURG, Boaventura. Concílio Vaticano II,Vol V, Quarta sessão. Vozes, 1966.

(2) Para mais informações ver em: BEOZZO, José Oscar. Nota sobre os participantes da Celebração do Pacto das Catacumbas.

(3) Tem-se como marco principal da teologia da libertação, o livro de: Gustavo Gutierrez.Teologia da Libertação.Petrópolis, Vozes, trad. Jorge Soares, 1976.

(4) Pode-se aprofundar nesse sentido no livro de: BOFF, Leonardo. Teologia do Cativeiro e da Libertação. São Paulo: Vozes, 1980.

(5) Surgem sindicatos, movimentos populares, associação de moradores, de mães, etc.

(6) Podemos lembrar de Bartolomeu de las Casas ( o protetor dos índios) e dos mártires da América Latina que conscientes da necessidade de "fazer acontecer” o Reino, doaram suas vidas através dos mais diversos modos.

(7) Para maior aprofundamento vide a reflexão feita em: BOFF, Leonardo. Eclesiogênese: a reinvenção da Igreja. Record, 2008.



[Este trabalho foi orientado pelo Prof. Dr. Francisco de Aquino Junior].


João Leondenes Facundo de Souza Junior


Fonte: http://www.adital.com.br/