quinta-feira, 11 de outubro de 2012

MEMÓRIA E PROFECIA!


MEMÓRIA E PROFECIA!


O que vivi nestes dias aqui na Unisinos, em São Leopoldo – RS, em meio a tantas pessoas maravilhosas, oriundas de todos os cantos do continente americano, não tem explicação. Pela primeira vez participei do Congresso Continental de Teologia, no momento, enquanto aluno do bacharelado em Teologia, pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, e confesso, boquiaberto, que tudo o que ouvi e vi fortaleceram ainda mais a minha fé numa Igreja que quer ser verdadeiramente a Igreja dos Pobres e tornar mais evidente a abertura iniciada pelo Beato João XXIII em 1962. Volto para Vila Velha, Espírito Santo, com a certeza que tenho muito a fazer por minha Igreja. Me comprometo, de coração e alma com a Opção pelos Pobres, com a defesa permanente da Vida, em levar adiante o legado e a herança da Teologia da Libertação, que aqui foi me entregue e a todos que participaram do Congresso.
Passaram por aqui os pais da Teologia da Libertação de todo o continente americano. Com carinho, amor, paciência, sapiência e humildade, comum de quem muito caminhou, escutou, ascultou, acima de tudo, viveu o Evangelho encarnado nas paixões de nossa gente afroameríndia foram mostrando que é nossa a hora de continuarmos o legado.
É claro que senti falta de nossas matriarcas da Teologia da Libertação, mas em todas as missas e momentos de espiritualidade que participei pedi a Deus que as abençoasse onde estivessem e que as mantivessem fortes na caminhada, sempre fiéis ao Povo Santo de Deus.
Um grupo de corajosos bispos rezaram e compartilharam suas memórias e experiências. E puderam comprovar, que as pessoas estavam ali para aprenderem um pouco mais, e não cometerem heresias, como pensam alguns.  Em especial, D. José Maria Pires, padre conciliar, testemunha ocular do Concílio Ecumênico Vaticano II, que aos 95 anos, voz firme e humor inabalável, nos fez viajar aos anos de 1962 – 1965.
Seria injustiça da minha parte esquecer, por ventura, o nome de algum conferencista ou novos amigos que fui conhecendo pelos corredores e no restaurante universitário, por isso não citarei nominalmente, mas guardarei em meu coração todas as palavras que ouvi e que recebi, dos experientes teólogos da libertação e também de novos teólogos que estão surgindo no cenário. Acredito que a passagem está sendo feita: da primeira geração de teólogos da libertação, para uma segunda e finalmente para uma terceira geração – a minha e a de muitos que lá estavam.
Confesso que retorno cheio de alegrias e esperanças, mas também de muitas crises... Crises, que bem ou mal, me farão crescer teologicamente, humanamente.
A nossa missão a partir desse Congresso Continental de Teologia só tende a aumentar, desistir não é uma palavra que eu irei usar, não importa o que possa acontecer, pois não sou inocente e sei que o cenário de Igreja atual não vê com bons olhos essa organização, esse modo de pensar e ser Igreja. Já diria um profeta mártir de nossos dias atuais: “PREFIRO VIVER PELA VIDA, DO QUE VIVER PELA MORTE”!
Neste momento histórico, sinto o quanto é urgente e necessário não deixar cair a profecia e pude conversar, ouvir, abraçar, sorrir e beijar, profetisas e profetas, que não se calam e que continuam a testemunhar um Deus que se coloca ao lado dos mais fracos, dos espoliados, violentados, excluídos e esquecidos.
Que o sangue de nossos mártires não nos deixem esquecer, acomodar e parar nunca!
Que o cuidado entre os seres e para com os seres seja por toda a Terra, por ela devemos doar nossas vidas se for preciso, é o mínimo pelo muito que ela nos oferece.
A Ecologia é o novo paradigma, é a nova preocupação, é a nova crise hodierna. É o viés pelo qual teremos que refletir e colocar em prática neste século, ou pereceremos todos.
Me perguntaram outro dia: o que sobrou da Teologia da Libertação?
Eu respondi: Deus e os Pobres!
Hoje eu responderia: Deus, os Pobres e bons teólogos e teólogas da libertação que participaram do Congresso Continental de Teologia, e que irão escrever, irão divulgar, farão chegar a todos os lugares a fiel esperança.
Que nos 50 anos do Concílio Ecumênico Vaticano II, não pensemos no Concílio Ecumênico Vaticano III, mas no Jerusalém II.

Emerson Sbardelotti

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

IDENTIDADE PEJOTEIRA EM TEMPOS DE CRISE E MUDANÇAS NO CENÁRIO DE IGREJA

IDENTIDADE PEJOTEIRA EM TEMPOS DE CRISE E MUDANÇAS NO CENÁRIO DE IGREJA.

A Pastoral da Juventude nasceu da necessidade e missão de levar às juventudes do Brasil a Palavra de Deus, a Mística e a Espiritualidade de  uma Pedagogia e a Prática Libertadora do Moreno de Nazaré.
Seguindo os passos da Ação Católica Especializada que fez brotar a JAC, JEC, JIC, JOC e JUC em terras brasileiras; portanto, a PJ veio ao mundo no meio de muitas mudanças no cenário político, econômico, social e cultural brasileiro das décadas de 1960, 1970 e 1980. Décadas em que foi pensada, organizada, semeada e difundida a Teologia da Libertação, não como análise sistemática e marxista da realidade de então, mas como aproximação ao mundo dos pobres, procurando realizar as palavras do  Bem-Aventurado João XXIII que diria um mês antes da abertura do Concílio Vaticano II: “Em face dos países subdesenvolvidos, a Igreja apresenta-se – tal qual é e quer ser – como a Igreja de todos e particularmente a Igreja dos pobres” [1]. Esta frase influenciaria a Igreja profundamente nos anos que se seguiriam ao Concílio. Era o desejo de muitos que a Igreja redescobrisse aquele que deveria ser um dos traços mais visíveis de sua face: ser a Igreja dos pobres.
Na década de 1960 o maior evento histórico-religioso da Igreja Católica Apostólica Romana, verdadeiro sopro do Espírito Santo: O Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965); foi o responsável pela mudança que a Igreja no Brasil e na América Latina e Caribe passariam nos anos seguintes. Com a Bíblia em uma mão e na outra a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no Mundo de Hoje[2], os habitantes da América Latina e Caribe recebiam uma moderna boa-nova:

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo e de quantos sofrem são as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. Nada há de verdadeiramente humano que não encontre eco em seu coração. A comunidade cristã está integrada por homens que reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo em seu peregrinar para o reino do Pai, e receberam a Boa-nova da salvação para comunicá-la a todos. A Igreja, por isso, sente-se íntima e realmente solidária com o gênero humano e com sua história.

O método utilizado é o ver-julgar-agir, que foi assumido como algo genuinamente latino-americano e pela TdL, sendo que é uma criação da JOC (Juventude Operária Católica) durante a Ação Católica especializada, surgida na Bélgica, no final dos anos vinte. Simples de ser entendido e experimentado: partia-se da realidade, refletia-se sobre ela à luz da fé, e se propunham linhas de ação. Este trabalho sempre foi útil e necessário. Hoje em dia se incorporaram mais duas palavras ao método: rever – celebrar; ficando, portanto, um método prático, de formação na ação, que tira do comodismo, tira da alienação, desperta no ser humano a consciência crítica levando-o a assumir compromissos com outras pessoas, na transformação da sociedade e na construção de sinais da presença vivificante do Reino de Deus.
O método agora rejuvenescido em: ver-julgar-agir-rever-celebrar, parte das realidades da vida, das experiências concretas. Depois de analisadas criticamente suas causas e consequências, confronta-se com a Palavra de Deus e com a doutrina da Igreja, iluminando assim, a vida e a realidade, procurando enfim, uma nova vida nova.
As Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, na Igreja do Brasil e na América Latina e Caribe constituem um dos traços mais dinâmicos da vida em comunhão, da vida em sociedade. O método para ligar a relação fé e vida nas CEBs é o ver-julgar-agir-rever-celebrar; vivido e discutido em pequenos grupos por causa de um impulso renovador que cresceu a partir das décadas de 1950 e 1960 chegando até os nossos dias hodiernos em que se relê a história e se descobre desafios a partir da experiência dos Intereclesiais das CEBs, da espiritualidade e da vivência eucarística, do anúncio da Palavra de Deus e do testemunho de fé (martírio), da solidariedade e do serviço, da formação dos discípulos missionários e de rede de comunidades, da participação nos movimentos sociais, da abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.
A herança que se vive na PJ hoje refaz todos esses passos acima.
Comecei a participar da PJ em 1985, no Ano Internacional da Juventude, numa celebração para mais de 5 mil pessoas no Ginásio Dom Bosco - Salesiano, em Vitória do Espírito Santo. Eu não sabia o que era a PJ; tinha sido convidado para uma celebração e pensei que seria simples como todas as outras que eu já tinha participado. Eu estava enganado. Não era uma celebração como as outras, mas com um dado novo, indo das juventudes ali presentes até os sacerdotes, havia muita juventude, foi a primeira vez que vi no chão uma grande bandeira da paz, com símbolos do campo e da cidade, e cruzes com o nome de muitos mártires da caminhada. Os abraços e os sorrisos tornaram ao meu ver aquela celebração desde a chegada ali no Ginásio, uma celebração diferente: uma celebração juvenil.
Nunca mais sai da PJ, apesar de muitas vezes não ser tão bem compreendido como eu desejo. Passei por todas as etapas do processo educacional da fé, sempre indo nas reuniões do grupo de base e acompanhando as reuniões da estrutura, que a meu ver é muito pesada. A minha prioridade sempre foi a base, não há trabalho mais edificante do que se estar na base, ajudando e principalmente ouvindo as juventudes.
Acredito que quando o jovem se torna um militante e se afasta da base, o trabalho tende a ficar prejudicado e se deforma a identidade pejoteira.
A identidade pejoteira é a caminhada que a juventude faz dentro da CEBs em que atua: desde o Batismo é vocacionada a ser profeta e doar sua vida em prol dos jovens e dos pobres, sem pedir nada em troca.
A identidade pejoteira tem três virtudes: BONDADE, SAPIÊNCIA E HUMILDADE.
A identidade pejoteira é construída com o passar dos anos, e não de uma hora para outra, é preciso fazer a cada dia um projeto de vida e ir avançando aos poucos na compreensão do mundo que está ao redor.
A identidade pejoteira é experimentada através da oração (30 minutos por dia - pejoteiro que não ora, que não reza, não é pejoteiro), através da leitura e da meditação da Palavra de Deus, através da contemplação desta Palavra e da realidade em que se vive: céu e terra, fé e vida.
A identidade pejoteira nasce do Mistério Pascal: Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus de Nazaré. Não há ressurreição sem cruz. Os passos devem ser seguidos à risca.
A mudança de cenário na Igreja Católica Apostólica Romana, aqui no Brasil, se dá pelo crescimento dos movimentos religiosos com uma linha mais pentecostal e fundamentalista a partir de 1995. Tais movimentos religiosos, não entendem, não compreendem e não respeitam a caminhada feita pela Pastoral da Juventude, seus objetivos, seus projetos, sua mística e sua espiritualidade. O que vem provocando nos últimos anos muitas divisões, mal entendidos e processos judiciais por INTOLERÂNCIA RELIGIOSA, ferindo portanto o artigo 5o. da Constituição Federal: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;
VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.

Não há espaço para todos nós na Igreja?

Emerson Sbardelotti




[1] JOÃO XXIII. Nuntius Radiophonicus. Roma: 1962.
[2] CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium Et Spes. Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no Mundo de Hoje. 16. ed. São Paulo: Paulinas, 2009.



sexta-feira, 22 de junho de 2012




A VIRGINDADE DE MARIA


Justino a chamou de “A Virgem”.
Pedro de Alexandria de “A Sempre Virgem”.
A Lumen Gentium 57 reza que Jesus, ao nascer de Maria,
"não diminuiu sua integridade virginal, mas a consagrou".
Ela é a mãe do Nosso Salvador.
Ela é a mulher que o Deus da Vida amou.

A concepção de Jesus no Segundo Testamento
não é uma simples geração...
mas uma nova criação.
Não é um fato biológico, mas ontológico,
não é tempo finito, mas eterno de Deus...
Ele é Filho do Eterno Deus.

A virgindade de Maria
é expressão de sua consagração total a Deus.
Maria é a única origem humana de Jesus,
como Virgem que se faz Mãe.
A origem divina não se refere ao Pai,
como princípio masculino,
mas ao Espírito Santo:
neutro em grego, em hebreu  feminino.

A  concepção virginal sinaliza:
Jesus – ser  verdadeiramente novo,
dom gratuito e inexigível do Pai,
nova criatura no Santo Espírito.
Não se trata de uma demonstração,
mas de um SIM e  de uma missão.

A concepção virginal revela que o Senhor
escolheu os pobres para realizar a salvação.
A virgindade, considerada maldição pelos judeus,
foi abraçada por Maria como certeza.
Na humildade do SIM a aproximação do Reino dos Céus.
E a salvação veio a nós como dom de Deus.

A virgindade de Maria
é expressão de sua consagração total a Deus.


Emerson Sbardelotti 
22 de junho de 2012
14:12

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

TdL em Mutirão 39

ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA & MÍSTICA



“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá!” Gilberto Gil



A juventude é o sacramento do novo, e ela pode dar pistas para uma mística e espiritualidade libertadora no seguimento do Moreno de Nazaré.

O caminho para quem quer viver, não adianta falar apenas de mística e de espiritualidade, com características pejoteiras, não é nada fácil de ser percorrido, principalmente, por se espelhar no itinerário feito por Jesus e as Primeiras Comunidades.

A mística e a espiritualidade libertadora é regada com o sangue dos mártires!

E com o sangue dos mártires não se deve brincar.

Essa é a nossa herança enquanto desejosos de experimentar a mística e a espiritualidade de Jesus.

A juventude (mesmo se sabendo que na atualidade, grande parte dela, não vive num contexto cristão católico, numa família cristã católica e não foi ou não quer ser iniciada na fé) já poderia dizer, que a mística e a espiritualidade, juntas, são um caminho a ser trilhado...com sacrifícios e sorrisos...erros e acertos...mas o que é mística? O que é espiritualidade?

Para entender tais palavras e compreender seus conceitos é preciso ir às suas raízes: Mística, tem sua raiz na palavra mistério (mystérion – em grego – cf. Mc 4,11; 1Cor 2,1.7; Cl 1,27; Ef 1,9).

Leonardo Boff nos diz que o “mistério não equivale a enigma que, decifrado, desaparece. Mistério designa a dimensão de profundidade que se inscreve em cada pessoa, em cada ser e na totalidade da realidade e que possui um caráter definitivamente indecifrável. [...] Mistério, portanto, não constitui uma realidade que se opõe ao conhecimento. Pertence ao mistério ser conhecido. Mas pertence também ao mistério continuar mistério no conhecimento. Aqui está o paradoxo do mistério. Ele não é o limite da razão. Ao contrário. É o ilimitado da razão. Por mais que conheçamos uma realidade, jamais se esgota nossa capacidade de conhecê-la mais e melhor. Sempre podemos conhecê-la mais e mais. E isso indefinidamente”.

Quando falamos de mística nos referimos ao mistério que nos faz viver. É o mistério que comunica, é o sentido que tende a construir uma fraternura na Terra: harmonia com a Natureza, com as coisas todas, entre nós, com Deus.

É cantar aquele refrão do amigo Zé Vicente: “Todas as coisas são mistério! Todas as coisas são mistério!”.

Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a História e a Utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa, uma grande celebração!

Boff diz ainda que, “a mística não é pois, o privilégio de alguns bem-aventurados. Mas é uma dimensão da vida humana, à qual todos têm acesso, quando descem a um nível mais profundo de si mesmos, quando captam o outro lado das coisas e quando se sensibilizam diante da riqueza do outro e da grandiosidade, complexidade e harmonia do universo. Todos, pois, somos num certo nível, místicos. [...] Os místicos dão nome ao mistério. É sua ousadia, pois o mistério é inominável”.

A mística é o inominável!

Há vários conceitos e definições de espiritualidade, pois há várias espiritualidades. A que se propõe trabalhar aqui é a espiritualidade da libertação, cristã, católica, “pé-no-chão”.

Espiritualidade, tem sua raiz na palavra Espírito (ruah – em hebraico – cf. Gn 2,7).

O teólogo chileno, Segundo Galilea , nos diz que “a espiritualidade é conjunto de práticas e atitudes que manifestam a experiência de Deus (do Espírito Santo), numa pessoa, numa cultura, ou numa comunidade. É toda existência humana que põe em marcha a existência pessoal e comunitária. Trata-se de um estilo de vida que dá unidade profunda ao nosso orar, nosso pensar e nosso agir”.

A espiritualidade é o andar nos caminhos de Deus!

É fazer nosso o olhar de Deus. O olhar contemplativo de quem descobre o que não vê.

É fazer nosso o escutar de Deus. O escutar contemplativo de quem ausculta o que não se ouve.

D. Pedro Casaldáliga nos diz que “o espírito de uma pessoa é o profundo e o dinâmico de seu próprio ser: suas motivações maiores e últimas, seu ideal, sua utopia, sua paixão, a mística pela qual vive e luta e com a qual contagia. “Espírito” é o substantivo concreto, e “espiritualidade” é o substantivo abstrato. [...] Toda pessoa está animada por uma espiritualidade ou por outra, porque todo ser humano – cristão ou não, religioso ou não – é um ser também fundamentalmente espiritual. [...] O Deus de Jesus é o nosso Deus. Ele é a nossa profundidade máxima de nossa vida. A causa de Jesus é a nossa causa. Nosso viver é o Cristo (cf. Fl 1,21). Ele é a nossa paixão e seu Espírito é nossa espiritualidade”.

Todos nós carregamos nas costas uma pergunta fundamental: “qual é o sentido da minha vida, da minha existência?”.

Essa pergunta ganha um contorno novo quando uma crise se abate sobre a humanidade, sobre a sociedade, sobre a Igreja, sobre a família...

E é aí que acontece o fenômeno da fé mágica. A busca do milagrismo: “Deus vai aparecer, e vai dar um jeito em tudo. Ele vai dar um jeito na minha vida!”

E o que é o milagrismo?

É a transferência da responsabilidade dos seres humanos para Deus!

Por causa da situação caótica, transferimos para Deus a responsabilidade da mudança. Para que isso aconteça cada um deve conhecer a sua história pessoal, pois a ação de Deus se dá através da nossa ação.

E pode se perguntar: “Deus faz milagre na História?”. Faz! Mas jamais fora das coordenadas da História!

Não adianta ter somente fé, antes de qualquer coisa, está a experiência de Deus. Somente depois, com o tempo, vem a fé.

Experimentar Deus para se ter fé em Deus!

Quem não experimenta a Deus não tem fé em Deus!

Boff nos diz que “a fé só tem sentido e é verdadeira quando significa resposta à experiência de Deus, feita pessoal e comunitariamente. Fé é então, expressão de um encontro com Deus que envolve a totalidade da existência, o sentimento, o coração, a inteligência, a vontade. Os lugares e os tempos deste encontro se transformam em sacramentais, pontos referenciais da experiência de uma superabundância de sentido inesquecível”.

A CNBB em seu documento sobre a Evangelização da Juventude, destaca alguns meios para o crescimento da fé:

A oração pessoal: diálogo íntimo, profundo com Jesus Cristo, no Espírito que fortalece a dignidade enquanto filhas e filhos diante do Pai.

A oração comunitária: em comunidade é apresentado a Deus, os sucessos, as fraquezas, os sonhos, as lutas do povo, as celebrações dominicais. O domingo é o dia de encontrar-se com outros/as jovens e revigorar-se espiritualmente.

A participação na comunidade: a comunhão fraterna é essencial na vida cristã e toda juventude é convidada, desde cedo, a fazer esta experiência através de seu envolvimento nas diversas responsabilidades na comunidade.

A leitura orante da Sagrada Escritura: crer na Palavra de Deus é essencial para um processo de crescimento do/a jovem que quer se comprometer cada vez mais com o projeto do Criador. São quatro passos ou atitudes da Leitura Orante (Lectio Divina) da Bíblia:

1º. Passo: a leitura – o que o texto diz em si?

2º. Passo: a meditação – o que o texto diz para mim/nós?

3º. Passo: a oração – o que o texto me/nos faz dizer a Deus?

4º. Passo: a contemplação – começar a ver o mundo em que vivemos com os olhos dos pobres, com os olhos de Deus.

A vivência dos sacramentos: encontrar-se com Jesus, também na celebração dos sacramentos: de se tornar adulto na fé (batismo), de ser ungido para a missão (crisma), de ser testemunha da misericórdia e do perdão (reconciliação) e de ser pão para as necessidades do próximo (eucaristia).

A devoção a Nossa Senhora: o/a jovem se sente abraçado pela Mãe, meditando junto com ela os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

Os diversos encontros espirituais: momentos especiais para a juventude quando confrontamos com a pessoa, a proposta, a prática e a pedagogia de Jesus.

As leituras e reflexões: são de grande valia as leituras teológicas e espirituais, sempre com a ajuda de um bom dicionário bíblico, litúrgico, de símbolos, de mística e espiritualidade.


Emerson Sbardelotti
Estudante de Teologia do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo
Assessor Paroquial da Pastoral da Juventude na Paróquia NS da Conceição Aparecida, Cobilândia, Vila Velha - ES

TdL em Mutirão 38

A MÍSTICA E A ESPIRITUALIDADE DA PASTORAL DA JUVENTUDE



“Uma Igreja que não confere centralidade aos pobres e não assume a causa da justiça dos pobres não está na herança de Jesus”. Leonardo Boff – Teólogo.



Na América Latina e no Caribe, no Brasil, precisamente, o compromisso com as causas do Reino, nas causas do Povo, fizeram da Pastoral da Juventude, um ponto de encontro para as discussões sócio-políticas, econômicas e religiosas que não podem ser vividas, entendidas e interpretadas separadamente: eis o longo Caminho de Emaús a ser percorrido!

Falar de Mística e Espiritualidade, nos dias atuais, dias de muita violência, pode representar e significar FUGA! E está significando fuga. Está significando: uma falta de compromisso com a realidade a qual estamos inseridos.

Falaremos aqui, da Mística e da Espiritualidade da Pastoral da Juventude, portanto, uma mística e uma espiritualidade pé-no-chão, cristã, católica e da Libertação.

É encontrar em nós e na comunidade o Mistério que nos faz viver com os pés no chão, mesmo quando voamos alto em nossos sonhos e utopias, atentos aos apelos, aos clamores de nossa gente simples, espoliada, excluída, marginalizada.

Tenho dito nas assessorias que presto aos grupos de base que:

Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a História e a Utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa .

Espiritualidade é aquilo que faz no ser humano uma transformação. O nosso modo de entender o que há de transcendente à nossa volta .

Entendo por transcendente, aquilo que vai além dos limites da experiência, o que nos ultrapassa. Assim dizemos que Deus e as realidades espirituais são transcendentes.

Mística e Espiritualidade não são terrenos onde só andam os que possuem algum tipo de religião. Religiosos ou ateus, todos possuem seus critérios de interpretar os fatos, de enxergar o invisível em tudo o que lhes chega ao conhecimento. As pessoas são diferentes, mas todas têm uma mística e uma espiritualidade.

Nestes anos todos de diakonia e koinonia à Pastoral da Juventude e principalmente ao Reino, entendo que o único espaço de revelação do transcendente que nos é concedido nesta Vida passa exatamente pelas realidades mundanas nas quais existimos, e por elas optamos, sofremos e nos alegramos. Nossos sonhos, nossos valores fazem parte da nossa mística e da nossa espiritualidade porque eles modificam o filtro através do qual enxergamos e interpretamos o mundo. Eles modelam a qualidade da nossa mística e espiritualidade e principalmente do nosso agir enquanto seres humanos.

Necessitamos do mistério, necessitamos do invisível.

A palavra mística tem a sua raiz na palavra MISTÉRIO = O QUE ESTÁ VELADO, OCULTO. Este mistério, para nós da Pastoral da Juventude, é o Mistério Pascal do Moreno de Nazaré, Vivo-Crucificado-Ressuscitado; é a partir dele que a nossa mística acontece, e demais nenhuma outra.

Assim também nossa espiritualidade. A palavra espiritualidade tem sua raiz na palavra ESPÍRITO = SOPRO, HÁLITO DE VIDA. É o Espírito Santo de Deus que nos faz caminhar em direção aos jovens, aos pobres, ao Povo, nas causas do Reino, inclusive no martírio.

Nossa mística e espiritualidade busca mais o sentido da Vida!

Se encaramos, se assumimos que somos apenas seres humanos, por isso mesmo, imperfeitos, devemos deixar Deus ser Deus, e daí nossa felicidade será intensa, completa.

Estamos vivendo uma crise da pós-modernidade: guerras, corrupção, violência, aumento do consumo de drogas, AIDS. Neste contexto, o retorno do sagrado é muito forte e desordenado.

Desordenado, pois vários deuses aparecem como se fossem águas represadas. E aparecem aos montes e para todos os gostos. Deuses, no plural, costuma a se equivaler a ÍDOLOS. Aqui na América Latina e no Caribe, o problema não é a falta de Deus, mas o excesso de deuses. Nós temos deuses para tudo quando é lado.

Então qual é o Deus verdadeiro?

Deus verdadeiro é o Deus desconhecido que Paulo falava!

Deuses conhecidos são feitos para satisfazer nossa imagem e semelhança, são deuses do escambo, são deuses do lucro.

Quando se conhece muito Deus, é que deixou de ser Deus, passou a ser um produto em nossas mãos.

O Deus verdadeiro é sempre desconhecido!

O Deus desconhecido se descobre no INFERNO: no inferno do sofrimento humano! No momento em que já quase não existe a dignidade humana, onde toda fiel esperança quase desaparece.

Se a mística e a espiritualidade não levam à liberdade, não é mística e espiritualidade.

Se não faz com que o ser humano possa caminhar, não tem sentido acreditar em sua existência.

O Moreno de Nazaré desce ao inferno do sofrimento humano para caminhar e abraçar o Deus Verdadeiro!

Não há outra forma de chegar a Deus se não for pelo sofrimento humano, não tem jeito. Fazer um deus segundo a própria vontade, somente irá justificar toda pequenez e egoísmo que há dentro de cada um.

Acreditar nos passos que podem e devem ser dados, um de cada vez, viver intensamente cada um desses passos é o primeiro caminho para se viver a mística e a espiritualidade da Pastoral da Juventude.

É preciso voltar às fontes primordiais de nossa fé, de nossa vida.

Melhor do que receber o copo d’água é ir a fonte!

A fonte de toda atividade profética da Pastoral da Juventude é o Moreno de Nazaré!

Deve-se tentar segui-lo na medida do possível; seus passos devem ser passos dados no cotidiano; é tentar cumprir o mandamento novo: amar a Deus como elemento fundante de uma mística e espiritualidade que brota do chão de nossos dias, que germina de nossa realidade dura e sofrida.

Os bispos diziam em Puebla (1979): “a opção preferencial pelos jovens é a mais notável tendência da vida religiosa latino-americana” , e é a mais notável tendência da vida da juventude que se coloca à disposição do Reino neste Continente da Esperança.

Jovens comprometidos com a realidade na qual se está inserido se tornam referenciais para toda a comunidade, para toda a Igreja e para toda a sociedade. Ao se afastarem de suas bases por conta de compromissos assumidos na estrutura eclesial, o elo se que quebra, se isso acontece com frequência, algo está errado na caminhada.

Um grupo de base da Pastoral da Juventude sempre reza, sempre ora, mas não esquece que toda discussão, parte de dentro para fora da Igreja, não há portas fechadas, não há línguas estranhas, nem anjos subindo ou descendo, pois se fala o que a juventude entende e compreende, não pode haver panelinhas, nem falsidades, deve prevalecer sempre: o respeito, a amizade, o diálogo e o perdão.

A mística e a espiritualidade nasce do sangue derramado pelos mártires da caminhada latino-americana e principalmente do sangue do primeiro mártir: o mártir Jesus!

A mística e a espiritualidade da Pastoral da Juventude não é para gente frouxa,não é para gente covarde; é mística e espiritualidade cristã que tem sua centralidade num ser humano, judeu, do século I E.C., um habitante das regiões do Oriente Médio, queimado de sol, agricultor, carpinteiro, contador de histórias, desde o nascimento: pobre (como a maioria dos pobres que encontramos nas ruas de nossas cidades todos os dias mas que não se dá a devida atenção).

Toda mística e espiritualidade da Pastoral da Juventude nasce de uma profunda vivência orante bíblico-litúrgica.

Como é prazeroso para um grupo de base poder degustar e refletir a Palavra de Deus a partir da realidade em que vive, usando inclusive, o método da Leitura Orante da Bíblia.

Iniciando a reunião, o encontro de irmãos, rezando o Ofício Divino: das comunidades, da juventude, dos mártires da caminhada...

Se colocando na frente de Deus, disposto a escutá-lo e saber o que Ele pede.

Todo grupo de base da Pastoral da Juventude inicia seu caminho místico, seu itinerário espiritual, a partir da Sagrada Escritura, da Sagrada Liturgia, inculturadas e encarnadas no cotidiano.

Deve construir suas experiências, escutando o que Deus fala hoje, agora mesmo.

Orar é escutar o que Deus tem a nos falar!

Orar é silenciar, mesmo no turbilhão barulhento de nossos dias!

Orar é auscultar o que a natureza-criação expressa cotidianamente!

Orar é agradecer-pedir quando todos os sentidos de nosso corpo embebedarem-se do sopro de Deus: RUAH – VIDA!

Quem está com sede quer água!

Mas beber em qual poço? Com qual vasilha? Com qual balde?

Como se está buscando esta fonte, aqui no grupo, na comunidade, na Igreja, no Brasil, na América Latina e no Caribe?

Que fonte é esta que me faz caminhar no deserto? Que deserto é este?

Que fonte é esta que me faz refletir sobre mística e espiritualidade?

Que fonte é esta que me faz praticar?

A fonte, a água, o poço: há um mistério que envolve todo o processo de procura e encontro, há algo que transcende.

A fonte Jesus é transcendente mas não está longe! Está aqui e agora. Está nas realidades mundanas nas quais existimos.

Beber em seu próprio poço: descobrir o caminho que leva de volta às alegrias-tristezas, conquistas-decepções...aquilo que busca o sentido da Vida!

Qual o sentido da tua vida?

Você faz parte da herança de Jesus de Nazaré?

Sim ou sim?







Emerson Sbardelotti

Estudante de Teologia do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo

Assessor paroquial da Pastoral da Juventude na Paróquia NS da Conceição Aparecida – Cobilândia, Vila Velha - ES