terça-feira, 17 de julho de 2012

IDENTIDADE PEJOTEIRA EM TEMPOS DE CRISE E MUDANÇAS NO CENÁRIO DE IGREJA

IDENTIDADE PEJOTEIRA EM TEMPOS DE CRISE E MUDANÇAS NO CENÁRIO DE IGREJA.

A Pastoral da Juventude nasceu da necessidade e missão de levar às juventudes do Brasil a Palavra de Deus, a Mística e a Espiritualidade de  uma Pedagogia e a Prática Libertadora do Moreno de Nazaré.
Seguindo os passos da Ação Católica Especializada que fez brotar a JAC, JEC, JIC, JOC e JUC em terras brasileiras; portanto, a PJ veio ao mundo no meio de muitas mudanças no cenário político, econômico, social e cultural brasileiro das décadas de 1960, 1970 e 1980. Décadas em que foi pensada, organizada, semeada e difundida a Teologia da Libertação, não como análise sistemática e marxista da realidade de então, mas como aproximação ao mundo dos pobres, procurando realizar as palavras do  Bem-Aventurado João XXIII que diria um mês antes da abertura do Concílio Vaticano II: “Em face dos países subdesenvolvidos, a Igreja apresenta-se – tal qual é e quer ser – como a Igreja de todos e particularmente a Igreja dos pobres” [1]. Esta frase influenciaria a Igreja profundamente nos anos que se seguiriam ao Concílio. Era o desejo de muitos que a Igreja redescobrisse aquele que deveria ser um dos traços mais visíveis de sua face: ser a Igreja dos pobres.
Na década de 1960 o maior evento histórico-religioso da Igreja Católica Apostólica Romana, verdadeiro sopro do Espírito Santo: O Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965); foi o responsável pela mudança que a Igreja no Brasil e na América Latina e Caribe passariam nos anos seguintes. Com a Bíblia em uma mão e na outra a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no Mundo de Hoje[2], os habitantes da América Latina e Caribe recebiam uma moderna boa-nova:

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo e de quantos sofrem são as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. Nada há de verdadeiramente humano que não encontre eco em seu coração. A comunidade cristã está integrada por homens que reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo em seu peregrinar para o reino do Pai, e receberam a Boa-nova da salvação para comunicá-la a todos. A Igreja, por isso, sente-se íntima e realmente solidária com o gênero humano e com sua história.

O método utilizado é o ver-julgar-agir, que foi assumido como algo genuinamente latino-americano e pela TdL, sendo que é uma criação da JOC (Juventude Operária Católica) durante a Ação Católica especializada, surgida na Bélgica, no final dos anos vinte. Simples de ser entendido e experimentado: partia-se da realidade, refletia-se sobre ela à luz da fé, e se propunham linhas de ação. Este trabalho sempre foi útil e necessário. Hoje em dia se incorporaram mais duas palavras ao método: rever – celebrar; ficando, portanto, um método prático, de formação na ação, que tira do comodismo, tira da alienação, desperta no ser humano a consciência crítica levando-o a assumir compromissos com outras pessoas, na transformação da sociedade e na construção de sinais da presença vivificante do Reino de Deus.
O método agora rejuvenescido em: ver-julgar-agir-rever-celebrar, parte das realidades da vida, das experiências concretas. Depois de analisadas criticamente suas causas e consequências, confronta-se com a Palavra de Deus e com a doutrina da Igreja, iluminando assim, a vida e a realidade, procurando enfim, uma nova vida nova.
As Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, na Igreja do Brasil e na América Latina e Caribe constituem um dos traços mais dinâmicos da vida em comunhão, da vida em sociedade. O método para ligar a relação fé e vida nas CEBs é o ver-julgar-agir-rever-celebrar; vivido e discutido em pequenos grupos por causa de um impulso renovador que cresceu a partir das décadas de 1950 e 1960 chegando até os nossos dias hodiernos em que se relê a história e se descobre desafios a partir da experiência dos Intereclesiais das CEBs, da espiritualidade e da vivência eucarística, do anúncio da Palavra de Deus e do testemunho de fé (martírio), da solidariedade e do serviço, da formação dos discípulos missionários e de rede de comunidades, da participação nos movimentos sociais, da abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.
A herança que se vive na PJ hoje refaz todos esses passos acima.
Comecei a participar da PJ em 1985, no Ano Internacional da Juventude, numa celebração para mais de 5 mil pessoas no Ginásio Dom Bosco - Salesiano, em Vitória do Espírito Santo. Eu não sabia o que era a PJ; tinha sido convidado para uma celebração e pensei que seria simples como todas as outras que eu já tinha participado. Eu estava enganado. Não era uma celebração como as outras, mas com um dado novo, indo das juventudes ali presentes até os sacerdotes, havia muita juventude, foi a primeira vez que vi no chão uma grande bandeira da paz, com símbolos do campo e da cidade, e cruzes com o nome de muitos mártires da caminhada. Os abraços e os sorrisos tornaram ao meu ver aquela celebração desde a chegada ali no Ginásio, uma celebração diferente: uma celebração juvenil.
Nunca mais sai da PJ, apesar de muitas vezes não ser tão bem compreendido como eu desejo. Passei por todas as etapas do processo educacional da fé, sempre indo nas reuniões do grupo de base e acompanhando as reuniões da estrutura, que a meu ver é muito pesada. A minha prioridade sempre foi a base, não há trabalho mais edificante do que se estar na base, ajudando e principalmente ouvindo as juventudes.
Acredito que quando o jovem se torna um militante e se afasta da base, o trabalho tende a ficar prejudicado e se deforma a identidade pejoteira.
A identidade pejoteira é a caminhada que a juventude faz dentro da CEBs em que atua: desde o Batismo é vocacionada a ser profeta e doar sua vida em prol dos jovens e dos pobres, sem pedir nada em troca.
A identidade pejoteira tem três virtudes: BONDADE, SAPIÊNCIA E HUMILDADE.
A identidade pejoteira é construída com o passar dos anos, e não de uma hora para outra, é preciso fazer a cada dia um projeto de vida e ir avançando aos poucos na compreensão do mundo que está ao redor.
A identidade pejoteira é experimentada através da oração (30 minutos por dia - pejoteiro que não ora, que não reza, não é pejoteiro), através da leitura e da meditação da Palavra de Deus, através da contemplação desta Palavra e da realidade em que se vive: céu e terra, fé e vida.
A identidade pejoteira nasce do Mistério Pascal: Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus de Nazaré. Não há ressurreição sem cruz. Os passos devem ser seguidos à risca.
A mudança de cenário na Igreja Católica Apostólica Romana, aqui no Brasil, se dá pelo crescimento dos movimentos religiosos com uma linha mais pentecostal e fundamentalista a partir de 1995. Tais movimentos religiosos, não entendem, não compreendem e não respeitam a caminhada feita pela Pastoral da Juventude, seus objetivos, seus projetos, sua mística e sua espiritualidade. O que vem provocando nos últimos anos muitas divisões, mal entendidos e processos judiciais por INTOLERÂNCIA RELIGIOSA, ferindo portanto o artigo 5o. da Constituição Federal: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;
VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.

Não há espaço para todos nós na Igreja?

Emerson Sbardelotti




[1] JOÃO XXIII. Nuntius Radiophonicus. Roma: 1962.
[2] CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium Et Spes. Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no Mundo de Hoje. 16. ed. São Paulo: Paulinas, 2009.